Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

'Ser homem ou mulher não está na carcaça, ou seja, no corpo humano, mas na nossa cabeça', diz Triz

Cantor de gênero neutro explode na web com rimas que falam sobre amor, preconceito e descoberta

Entrevista com

Triz

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2017 | 06h02

Em uma imponente casa da região da Lapa, na zona oeste de São Paulo, Triz não tem nenhuma pressa para se levantar do aconchegante sofá da sala do amigo Cesar Gananian. Sem jeito, dá alguns passos em direção às escadas e sugere o andar superior para conversar com a reportagem do Estado numa fria e chuvosa manhã de quarta-feira, dia 9. 

A potência da voz grave de Triz, de apenas 18 anos, assusta. “O preconceito não te leva a nada. Não seja mais um babaca de mente fechada. Porque o ódio mata. Só o amor sara. De qual lado você vai ficar?”, diz o refrão de Elevação Mental, que foi cantada a capela no intervalo do bate-papo. O vídeo da canção já tem quase 3 milhões de visualizações no YouTube em menos de um mês. 

O musicista que explodiu na internet nas últimas semanas chama a atenção pelas letras inteligentes. O visual inspirado em Bob Marley, seu maior ídolo, com roupas largas e dreadlocks no cabelo, também. Triz é um transexual do gênero não binário, ou seja, ele - como prefere ser chamado - não se identifica nem como homem nem como mulher. “Existem transbinários (que se identificam com homem ou mulher) e trans não binários (que não se idêntica com nenhum dos dois gêneros). Ser homem ou mulher não está na carcaça, ou seja, no corpo humano, mas na nossa cabeça. Isso você pode mudar no bisturi. Minha mente não é a de uma mulher e também não é a de um cara. Embora tenha vagina, nunca me considerei menina. Eu não me reconheço como mulher e muito menos como homem”, declara.

Nascido e criado na periferia de São Paulo, no bairro de Jardim Pedreira, próximo a Diadema, Triz começou a cantar na igreja evangélica. Foi justamente lá que conheceu a música. Pouco tempo depois, se matriculou no curso de violão. Aprendeu a cantar e tocar os hinos pentecostais e se destacava das outras crianças. 

Apesar do aprendizado, algo, entretanto, não ia bem. Triz não se sentia confortável. Aquilo, de alguma forma, o incomodava. “Minha avó, que cuidou de mim a vida toda, era quem pagava o curso. Depois que ela faleceu, consegui uma bolsa. Fiquei mais ou menos 3 anos tendo aula. Todavia, não dava mais para cantar e tocar coisas religiosas. Aquele não era meu mundo. Foi o começo da minha libertação”, lembra.

Desde os 7 anos, Triz tinha verdadeira repugnância pelo feminino. Abolia todas as formas, digamos, delicadas, de tratamento. Queria brincar com os meninos, que a rejeitavam no colégio. Triz também não se encaixava nos moldes pré-fabricados do “azul viril”. As roupas, a imposição machista, tudo: ele queria se libertar. 

Ao mesmo tempo, no entanto, não entendia o que estava acontecendo. Sentia-se estranho, fora dos padrões de gênero e à margem de tudo e todos. “Demorei para me reconhecer como trans não binário. Tive de me informar muito e ir atrás de várias coisas. Senti falta de informação especializa. Quando finalmente entendi, assumi minha sexualidade, escrevi um textão no Facebook e decidi me assumir para o mundo. Nunca gostei do meu corpo, das minhas roupas. Um belo dia falei: f... Vou me vestir do jeito que acho melhor. Não tem essa de masculino e feminino. Vou usar o pano que eu quiser, da maneira que acho melhor”, acrescenta.

Musicalidade que vai muito além da fúria do rap

Engana-se, porém, quem pensa que a sonoridade de Triz está apenas associada ao rap. Ele, inclusive, descarta tal rótulo. O jovem, que é fã de Cartola, Elis Regina e Maria Gadú, tem plena paixão pela música popular brasileira. “Odeio quando me chamam de rapper ou MC. Não estudei música para me rotularem. Eu componho rap há 11 meses. Faço outras coisas também: MPB, samba e até rock. Consigo transitar por vários gêneros musicais”, complementa. 

Tentar achar um gênero que defina a musicalidade de Triz é algo complexo. “Eu trabalho com arte e todas as suas variações. Não quero que minha imagem esteja vinculada apenas às causas LGBT. Se você está fazendo rap naquele momento, as pessoas já classificam você como rapper. Calma. Eu sou uma pessoa. Tenho outras músicas para fazer. Não gosto que ela seja associada a uma única coisa. Ela pode e deve ser ouvida por todos os públicos”, afirma. 

Apesar dos problemas de relacionamento com o pai, Triz também recebe o apoio da família para encarar os preconceitos em relação à sua condição sexual. “Minha mãe me apoia bastante. Meu padrasto e meus irmãos são incríveis. Posso conversar com eles sobre tudo. Tive muitos problemas com meu pai, nunca nos demos bem. Depois que ele me viu com os dreads no cabelo, falou que era melhor que eu me prostituísse do que ser da maneira que eu era”, conta.

 

Mais conteúdo sobre:
Bob Marley Maria Gadú Cartola Elis Regina Rap

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.