Marcos de Paula/ AE
Marcos de Paula/ AE

Sem produtor, 50º CD de Maria Bethânia tem a cara da intérprete

Cantora falou sobre 'Oásis', em que preferiu ter um arranjador para cada música

Roberta Pennafort - O Estado de S. Paulo,

29 de março de 2012 | 13h40

O oásis de Maria Bethânia fica no sertão, com seu silêncio, seu céu limpo, a gente digna e a proximidade de Deus. Oásis de Bethânia, o 50.º disco em 47 anos de carreira, traz essa imagem na capa e cores diversificadas em suas dez faixas. Pela primeira vez, a cantora não se apoiou em banda, produtor, arranjador, maestro. “Bom, mau, sou eu”, avisa.

 

O violonista Jaime Alem, que desde 1985 pilotava os trabalhos, foi apenas um entre os oito músicos – Lenine (violão), Jorge Helder (baixo), Hamilton de Holanda (bandolim), Maurício Carrilho (violão de 7 cordas)... – chamados a arranjar as canções.

 

Helder entrou como “criador geral”, intérprete de suas ideias, mas... “Se alguém falar bem, ótimo, se falar mal, ele não tem nada com isso. É assunto meu”, Bethânia ratifica a assinatura.

 

O CD traz os seus “preferidos” Roque Ferreira e Paulo Cesar Pinheiro, o sobrinho Jota Velloso, um Djavan feito para o CD, 34 anos depois do estouro de Álibi (ele é o único autor também arranjador e músico convidado), e dois clássicos: Calúnia, sucesso de Dalva de Oliveira, e Lágrima, de Orlando Silva.

 

Na terça à tarde, Bethânia conversou com o Estado sobre o CD, o blog de poesias abortado com a polêmica do financiamento público, a indústria, o amor, e Gal, Caetano e Chico (de quem gravou O Velho Francisco, coincidentemente escolhida por ele para abrir os shows da atual turnê).

 

Por que o desejo de ter um arranjador para cada música?

 

Porque o disco é solitário, é quase que inteiro voz e instrumento. Mesmo quando é percussão, é voz e percussão, sem base. O impulso para fazer esse disco foi a consciência da solidão do ser humano: você nasce só, você morre só. As coisas definitivas são solitárias. Isso não quer dizer amargura. É feito por mim, sou eu, ninguém assina.

 

E por que essa vontade?

 

Sempre fui assim, mas agora queria isso mais nítido. Quando fiz Ciclo (em 1983), foi o mesmo acontecimento. Quis mudar absolutamente tudo, sair do que me sustentava, Álibi, Mel... É um pouco como esse momento. Cada músico chegar com sua autoria me bota pra trabalhar melhor, sem estar acomodada.

 

Você gravou um texto seu pela primeira vez (de intenso caráter religioso, e de onde saiu o título do CD).

 

Eu escrevo muito, sempre. Não fico vendo se é bom ou ruim. Quis escrever, escrevi. Quis dizer, disse. Eu adoro dizer outros, mas desta vez quis me dizer. É mais uma marca. Sem apoio, sem muleta. Eu sou só e me garanto. Mas tem sempre os meus prediletos: meu velho poeta (Fernando Pessoa), a canção linda de Dalva. Eu não saio muito do meu jeito.

 

O fato de Oásis ser seu 50º CD tem a ver com esse desejo de afirmação de autoralidade?

 

Eu nem sabia disso. As pessoas acham que eu penso nisso, mas eu só penso que eu quero agradecer a Deus todo dia o luxo de poder me expressar.

 

O CD de Gal com Caetano, com som eletrônico e temáticas inéditas, e o show com essas músicas estão sendo festejados. Você se sente cobrada de alguma forma por mudanças?

 

Eu trabalhei em todas as multinacionais instaladas no Brasil e sempre fui respeitada. “Com Bethânia não adianta mexer.” Por que gravo Roque, Chico, Caetano? Acontece, é porque o compositor está compondo o que você sente, coincide.

 

Você gostou do CD da Gal?

 

Caetano me deu de presente, eu ouvi inteiro. Ele disse que é dedicado a mim e a Gil, e eu me surpreendi. Fiquei muito impressionada com a primeira canção, Recanto. Ouvi uma vez, batido. Não é um disco pra eu ouvir toda hora, todo dia. Acho que o Brasil tem momentos luminosos: no mesmo ano, Chico Buarque fazer um disco inédito, Caetano fazer um disco inédito...

 

Então, para você, trata-se de um disco do Caetano.

 

É um disco inédito, todo de Caetano. Gal é intérprete, eu ouvi a Gal dizendo, ela foi chamada como intérprete.

 

O tom das músicas de amor é muito arrebatado, você fala de precipício, rodamoinho, tempestade. O amadurecimento não muda o jeito de amar?

 

É minha característica de intérprete. Eu gosto de música de amor forte. E o jeito... Com o amadurecimento só piora.

 

Você desistiu mesmo do blog de poesia? (O projeto foi cancelado depois das críticas quanto à aprovação da captação de até R$ 1,8 milhão pela Lei Rouanet pelo Ministério da Cultura)

 

Não era meu, era dos meus queridos amigos Hermano Vianna e Andrucha Waddington. Hermano desistiu. Escreveu, zangado, que o Brasil não precisava, não queria, não merecia poesia. Eu não fiquei chateada. Eu fui convidada, como Gal foi por Caetano, para ser intérprete dos poemas. Usaram meu nome erradamente. Mas lixo a gente não guarda.

 

Você vê preconceito no fato de a sociedade reagir quando artistas de sucesso recebem patrocínio com dinheiro de renúncia fiscal?

 

Isso é maluquice. Então não vamos deixar o Neymar jogar porque tem talento. Todo mundo tem direito, quem faz sucesso e quem não faz. Não existe nada sem patrocínio, não se paga nem ensaio. Na época do rock, os meninos pegavam as caixas de som e faziam show, mas hoje nem eles mesmos fazem.

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