SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Sem patrocinador, Prêmio da Música Brasileira é erguido 'na raça'

Empresário Zé Maurício Machline contou com a mobilização da classe artística, que abriu mão de cachês, e com fornecedores que abaixaram preços; premiação será dia 19 de julho, no Teatro Municipal do Rio

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2017 | 07h00

Sem um patrocinador para bancá-lo depois de 27 edições, o Prêmio da Música Brasileira, marcado para o dia 19 de julho, no Teatro Municipal do Rio, se tornou um ato de resistência cultural. Seu idealizador, Zé Maurício Machline, poderia ter desistido de erguer a noite de custos avaliados em cerca de R$ 10 milhões pela primeira vez depois de um histórico de parcerias com a empresa de eletrônicos Sharp, a de telefonia Tim, a mineradora multinacional Vale e o Banco do Brasil. “Nunca procuramos um patrocinador”, diz. “Mas, desta vez, depois que o Banco do Brasil não renovou o contrato, ninguém nos procurou.” Uma única edição sem patrocínio havia sido realizada em 2009.

Uma mobilização espontânea surpreendeu o empresário. Ao reunir artistas em sua casa para discutir as dificuldades para prosseguir com o prêmio, Machline recebeu respostas de incentivo. Com mais de 1.300 músicos inscritos, 75% deles lançando entre o primeiro e o terceiro disco de suas carreiras, e o aval de um conselho que tem Gilberto Gil (que ocupa a vaga de Luiz Gonzaga), Yamandú Costa (no lugar que um dia foi do saxofonista Paulo Moura) e João Bosco (que ocupa a posição de Dorival Caymmi), o PMB seguiu em frente. E parte do dinheiro que saía de um patrocinador exclusivo – a outra parte deve sair mesmo do bolso do empresário – passou a minar de pequenos gestos.

Uma campanha nas redes, chamada #vaiterpremiodamusica, comoveu amigos e parte da classe artística. Apresentadores e artistas abriram mão de cachês. Maria Bethânia queria saber o que ela poderia cantar. Ivete Sangalo vai por conta própria. Produtores de Milton Nascimento acertavam detalhes por telefone quando a reportagem chegou para conversar com Machline. “Um escritório de maquiagem ligou para oferecer o serviço aos convidados. Conseguimos também preços especiais do Teatro Municipal do Rio (sede da festa) e da Secretaria do Estado. E 80% dos fornecedores vão doar seus trabalhos”, diz Machline.

“Mais que uma questão de honra”, diz o empresário, “manter este prêmio é necessário porque ele já pertence à classe dos músicos. Deixar de fazê-lo porque o Brasil vai mal não seria justo.” Sobre a possibilidade de seu gesto contagiar discursos e politizar a noite, ele diz: “Espero que isso não aconteça, tiraria o foco dos músicos e dos premiados que estarão lá. A única política que fazemos é a favor de quem faz música no Brasil”.

Quem vai estar lá. Como faz em todas as edições, a festa elege um homenageado da edição. Ney Matogrosso, um mês antes de completar 75 anos, será o nome do ano. “É impressionante este caminho que ele escolheu, o homem mais ousado que a música já teve”, diz o produtor. Em momento que deve ser um auge da noite, Ney deve se encontrar no palco pela primeira vez com Egberto Gismonti para cantar, com Gismonti ao piano, Melodia Sentimental, de Heitor Villa-Lobos. Outros confirmados até a noite de ontem (20) eram Karol Conka, Lenine e Alice Caymmi.

A lista de indicados faz uma mistura de gerações e frentes variadas. A disputa de melhor canção será entre Descaração Familiar, de Tom Zé; Dizputa, de Carol Naine; e Nunca mais vou jurar, de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Marcelinho Moreira. A melhor cantora popular, aparecem Ellen Oléria (Afrofuturista), Elza Soares (Elza canta e chora Lupi) e Ivete Sangalo (Acústico em Trancoso). Disputam por revelação o BaianaSystem (Duas Cidades), Liniker e Os Caramelows (Remonta) e Vidal Assis (Álbum de Retratos). 

A categoria de melhor álbum de MPB pode ser considerada um teste ao arrojo dos jurados. Abraçar e Agradecer, de Maria Bethânia, disputa com Batom Bacaba, de Patricia Bastos, e The Bridge, de Lenine e Martin Fondse Orchestra. A macapaense Patrícia, que aparece também na briga de melhor cantora com Bethânia e Zizi Possi, além do fator frescor, tem o trabalho mais original quando comparado com o autorreverencial de Bethânia e as redescobertas sonoras sobre a própria criação investidas por Lenine ao lado do holandês Martin Fondse.

ALGUNS INDICADOS

Melhor canção 

‘Descaração Familiar’ (Tom Zé)

'Dizputa' (Carol Naine)

‘Nunca Mais Vou Jurar’ (Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Marcelinho Moreira) 

   

Revelação  

BaianaSystem (‘Duas Cidades’) 

Liniker e Os Caramelows (‘Remonta’)  

Vidal Assis (‘Álbum de Retratos’)

Canção popular – Álbum

'Cine Ruptura’ 

(Saulo Duarte e a Unidade)

‘Elza Canta e Chora Lupi’ 

(Elza Soares) 

‘Gatos e Ratos’ (Odair José)

Dupla 

Leonardo e Eduardo Costa 

(‘Cabaré Night Club’) 

Milionário e Marciano

‘Lendas’)

ezé di Camargo e Luciano 

(‘Dois Tempos’)

Grupo 

Roupa Nova 

(‘Todo Amor do Mundo’) 

Samuca e a Selva

‘Madurar’) 

Saulo Duarte e a Unidade 

(‘Cine Ruptura’)

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