Chad Batka/The New York Times
Chad Batka/The New York Times

Sem Allen Toussaint, New Orleans perde seu maior embaixador

Morte do pianista, aos 77 anos, deixa vácuo entre músicos que usam a tradição do Sul dos Estados Unidos como pólvora para incendiar outros gêneros

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2015 | 22h22

Allen Toussaint, um dos maiores embaixadores da música norte-americana que seguia em atividade com shows pelo mundo, mesmo aos 77 anos, morreu na noite da segunda-feira, 9, em Madri. Ele havia acabado de fazer uma apresentação no Teatro Lara, na região central da capital espanhola. As últimas músicas que tocou foram Sneakin' Sally Through the Alley, Get Out of My Life e Who’s Gonna Help a Brother Get Further. Ao lado do trompetista Louis Armstrong e da família Marsalis, era ele a figura mais respeitada nas terras sagradas do jazz de New Orleans.

Cantor, compositor, pianista e produtor, sua discografia começa em 1958, com The Wild Sound of New Orleans, e termina em 2009, quando fez o estupendo The Bright Mississippi. Mãos de toques suaves, mesmo quando atacava em produções roqueiras, levava as blue notes do sul dos Estados Unidos mesmo se tivesse apenas um compasso para tocar. Seu piano está em mais de cem registros feitos em álbuns de artistas aparentemente incomunicáveis como Lee Dorsey, The Meters, Dr John, BJ Thomas, Robert Palmer, Willy DeVille, Sandy Denny, Elkie Brooks, Solomon Burke e o cantor de soul escocês Frankie Miller.

O que fazia de Toussaint algo ainda maior eram as receitas que resolveu criar com os frutos colhidos nos campos do Sul. Ao contrário de Wynton Marsalis ou Armstrong, fiéis às raízes de cada carvalho da Louisiana, o pianista abriu-se de tal forma ao mundo que passou anos fazendo uma música muito mais rock and roll e funk do que propriamente blues ou jazz. O estupendo Life Love And Faith, de 1972, é desses. Southern Nights, de 1975, mais ainda. Seu pensamento levava, assim, New Orleans para territórios que talvez não aceitassem mais um homem das antigas.

Quando percebeu a potência que era, o mundo do pop mainstream também passou a ir atrás de Allen Toussaint. Em 1975, fugindo das taxas de impostos londrinas e de olho no que as terras banhadas pelo Mississippi teriam de bom, Paul McCartney embarcou com todo o seu Wings para New Orleans, ainda que parte de seu Venus and Mars há tivesse sido gravado no Abbey Road, de Londres. Chegou ao Sea Saint Studios, de Toussaint, atento aos sinais e protagonizou jam sessions que só devem estar intactas na memórias de quem habitava aquelas salas de gravação. Ali estavam, ao lado de Paul, Dr John, Professor Longhair, Allen Toussaint e o cantor e guitarrista inglês Dave Mason, da banda Traffic. Depois de uma longa negociação, o pianista veio ao Brasil finalmente em 2014, quando se apresentou no festival de jazz e blues do Bourbon Street, em São Paulo. 

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