EDUARDO MAGALHÃES/I HATE FLASH
EDUARDO MAGALHÃES/I HATE FLASH

Selos movimentam cena experimental carioca

De música eletrônica a experimentalismos, artistas e produtores têm criado gravadoras independentes

Rafael Abreu, O Estado de S. Paulo

21 Dezembro 2014 | 17h55

Embora a cena de música eletrônica e experimental que começa a tomar corpo no Rio se beneficie muito do campo dinâmico e acessível da internet, ela ganha força a partir de uma figura tradicional da indústria fonográfica. Organizados de forma independente, uma série de artistas e produtores culturais têm se articulado em selos que movimentam a produção musical da cidade.

Com catálogos que cobrem de techno e house, passando pela música eletroacústica, noise e drone, o surgimento desses selos são instigados por um circuito bastante específico da cidade. Espaços como a Comuna e a Audio Rebel, em Botafogo, e eventos como o Festival Novas Frequências, que traz apresentações de música eletrônica e experimental à cidade há quatro anos, e o Quintavant, que realiza programação semelhante, têm esboçado na capital a formação de um nicho que, de outro modo, não teria muito espaço.

“De certa forma a gente já criou um espaço para se incluir nele”, explica Pedro Manara, que, junto a Marcelo Mudou, lança house e techno pelo selo Domina há pouco mais de um ano. Com um catálogo digital incipiente, a dupla pretende lançar discos físicos já no ano que vem. “O que falta no Brasil em geral é o sentimento de pertencimento à música. O próximo passo é conseguir fazer com que a música eletrônica nacional nos represente”, esclarece.

Selos como o de Manara, o 40% Foda/Maneiríssimo, dos músicos Gabriel Guerra e Lucas de Paiva, e o Cana, comandado por Mudou, o DJ Pedro Fontes, Bruno Queiroz e Flavia Machado, vêm para preencher uma espécie de vazio artístico e mercadológico. 

Fundado em abril do ano passado, o 40% Foda/Maneiríssimo inicialmente lançava trabalhos de Guerra e Paiva, mas tem produzido outros artistas e planeja inclusive relançar trabalhos que não tiveram grande tiragem nos anos 1980 ou 1990. “Há três ou quatro anos a música eletrônica não era uma coisa tão participante do cenário experimental do Rio. O 40% e o Domina foram meio que responsáveis por essa evidência”, explica Guerra. Para ele, a importância de um selo é principalmente o recorte. “Eu tendo a confiar em selos mais do que em artistas. Geralmente a curadoria de um selo é melhor do que a curadoria do próprio artista”, explica Guerra.

O Toc Label e o QTV, por outro lado, se especializam em lançar música que não toca nem na pista nem na rádio. O primeiro selo é cria do músico Cadu Tenório e de Thiago Miazzo, que lançaram o dark ambient de Bemônio e um disco da banda experimental Sobre a Máquina em tiragens limitadas. O QTV, que surgiu do Quintavant, noite de música de improviso e de vanguarda na Audio Rebel, tem no catálogo o noise dos Chinese Cookie Poets e o no wave tropical de Negro Léo. 

Fora as diferenças artísticas, os selos parecem se unir nas dificuldades. Em debate sobre o assunto no 4ª Festival Novas Frequências, Bernardo Oliveira, um dos integrantes do QTV, definiu a si mesmo e seus companheiros da gravadora como “guerreiros”. A liberdade de lançar música não comercial vem com um preço: pouco financiamento e a dificuldade de desenvolver modelos de negócios auto-sustentáveis. “A galera do Quintavant consegue se equilibrar entre um amadorismo saudável, criativo, e um profissionalismo técnico, mas falta o nosso braço comercial.”, explica Oliveira. É o mesmo problema levantado por Manara e Tenório. Para o primeiro, as dificuldades de gerir um selo nesse contexto são “dinheiro e organização”, já que a formação dos produtores é mais artística do que administrativa. Na mesma linha, Cadu Tenório explica que a Toc Label faz tiragens pequenas, de até 30 discos, por ter dificuldade de vender maiores quantidades.

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