Thiago Queiroz/Estadão
Thiago Queiroz/Estadão

Selos independentes celebram boa fase com feira em São Paulo

Sacola Alternativa, realizada no MIS, promove encontro entre criadores, debates e palestras

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 03h00

Veio a internet e tudo ruiu. A indústria fonográfica ainda tenta, até hoje, se recuperar do duro golpe sofrido na primeira década dos anos 2000. De US$ 27,8 bilhões, em 1999, o faturamento caiu para US$ 15 bilhões (em 2013) e os valores só não se tornam mais catastróficos porque, aos poucos, se percebeu que era possível fazer dinheiro com a música digital. Com o rompimento das majors, como são chamadas as grandes gravadoras, ganhou força um movimento de faça você mesmo: quer lançar discos legais, de bandas que você conhece ou gosta? Mãos à obra. 

É basicamente a questão acima que move os 18 selos independentes participantes da feira Sacola Alternativa, realizada no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, hoje, entre as 12 h e 21 h, com exposição de seus produtos, palestras, debates, com entrada gratuita, e, para concluir, às 20 h, o show da banda carioca Séculos Apaixonados (ingressos a R$ 10). 

“Acho que desde que formamos o nosso selo, sentimos a necessidade de criar eventos para promover esse tipo de cultura por aqui”, conta Fernando Dotta, integrante da banda Single Parents e um dos sócios-fundadores do Balaclava Records, criado em 2012, ao lado do companheiro de banda Rafael Farah - ambos, na foto abaixo. A empresa deles é que promove a primeira feira dedicada a espalhar projetos de profissionais da música como eles. “Existe uma cultura um pouco tímida sobre os selos independentes no Brasil, se compararmos à cena alternativa dos Estados Unidos e da Europa”, completa o músico e empresário. 

O Sacola Alternativa reúne selos de diferentes pontos do País, como Passo Fundo (RS), de onde vem o 180 Selo Fonográfico, a Vila dos Teles (Rio), cidade que é sede do Transfusão Noise Records, e comprova que não existe mais a necessidade de se estar em uma metrópole ou grande centro para sobreviver de música. 

É o caso do Honey Bomb, um dos novatos da feira, criada no segundo semestre de 2013. De Caxias do Sul, o selo trouxe uma das maiores surpresas da música independente nacional, a banda Catavento, com uma psicodelia aliada à guitarras distorcidas, quase como um filhote de Os Mutantes com Sonic Youth. “Estamos um pouco isolados aqui”, diz Jonas Bender, um dos produtores do selo e integrante da banda Slow Bricker, que também integra o Honey Bomb. A ideia de criar uma forma de distribuir e divulgar a própria música, aliás, foi o combustível para a entrada mais ativa no mercado fonográfico, conta ele. “Nunca tivemos resposta para lançar nosso material em outros selos”, conta. “O baixista da banda deu a ideia. E fomos fazer por nós mesmos, em vez de esperar pelos outros.”



(Rafael Farah e Fernando Dotta, à dir., criadores da Balaclava Records)

Na indústria fonográfica do faça você mesmo, a internet funciona como um aliado importantíssimo para todas as frentes, seja no retorno financeiro como na comunicação direta com o público próprio. Antes dela, os selos independentes trabalhavam com fitas cassetes com algumas músicas e cartas, em um processo demorado de divulgação. Fred Finelli, comandante do Submarine Records, viveu intensamente o mercado underground mineiro nos anos 1990, e criou o próprio fanzine dedicado à música. Em 1998, decidiu investir o dinheiro recebido do 13.º salário para dar início ao selo. Começou com uma coletânea e, no ano seguinte, com o disco 3am: A Fonte Secou, do Hurtmold, banda com quem ele trabalha até hoje, lançando discos e promovendo os shows, pela produtora Norópolis. “A gente sentia que, em 2007, as gravadoras estavam quebrando, com a internet e a pirataria”, disse Finelli. A queda de vendas também afetou, em menor escala, os selos independentes. “Com o formato físico de música em baixa, a sobrevivência é por intermédio dos shows.” 

A versão 2015 do mercado de selos independentes caminha em três fortes frentes: o lançamento digital, para a pluralização das músicas; os discos de vinil, que crescem em vendas nos últimos anos; e no agenciamento das bandas. O Balaclava Records, em uma sacada elogiável, por exemplo, afiliou-se à produtora Brain Productions e trouxe para turnês no Brasil artistas internacionais relevantes para o mercado deles, caso do canadense Mac DeMarco e a banda norte-americana Sebadoh. E escalou as próprias bandas para abrir as apresentações. “Viver de venda de música, digital ou física, é complicado”, avalia Dotta. “Estamos avançando em diferentes frentes, dentro daquilo que fazemos.” 

Dedicado aos vinis quando foi criado, no ano passado, o Risco tem entre seus artistas, por exemplo O Terno, Charlie e os Marretas e Memórias de um Caramujo. A ideia de Gui Jesus, sócio-fundador e produtor, é ampliar a forma de atuação. “Além da venda dos bolachões, parti para outras mídias e abri as portas para novas bandas, mas com uma ressalva: desde que elas dialoguem com as oito atuais integrantes do casting. É preciso ter uma unidade entre os artistas do Risco”, explica. Com número incontável de bandas que navegam no mar aberto que é a internet, o selo funciona como um filtro. “Queremos criar uma curadoria na qual o ouvinte possa ouvir e falar: se saiu pelo selo, eu confio.”


DICAS DELES 

Acredite na banda 

Para Jonas Bender, do Honey Buzz, o importante para se criar um selo independente próprio é apostar no material que se têm em mãos. “É preciso confiar no trabalho da banda que você tem. O Catavento foi nosso pontapé inicial”, explica 

Estude o caminho 

“Conheça o mercado no qual você pretende trabalhar”, explica Fernando Dotta, da Balaclava, que circulou por shows e pelo cenário alternativo brasileiro antes de abrir o próprio selo. “Não adianta ter um casting gigantesco e não conseguir lançar todo mundo direito. Entender o problema de cada artista” 

Não pense em dinheiro 

Deixar a ideia do lucro rápido e fácil também é lembrada por Fred Finelli, da Submarine Records. “Faça uma coisa que você se sente feliz fazendo”, disse. “Foi isso que eu levei em conta quando abri o selo, há 17 anos” 

Curadoria é essencial 

Ter um catálogo de bandas ajuda a criar um selo de qualidade. “A curadoria vai além de pensar em um gênero musical específico”, conta Gui de Jesus, do Risco. “No nosso caso, as bandas têm uma busca por referências do passado e na preocupação com gravação e masterização” 

CONHEÇA OS PARTICIPANTES DESTA EDIÇÃO: 



180 Selo Fonográfico (RS): http://www.selo180.com/

Balaclava Records (SP): http://www.balaclavarecords.com/

Brasilis Grooves (SP): https://www.facebook.com/brasilisgroovesrecords

Brava (SP): http://www.brava.etc.br/

Dissenso Records (SP): http://dissensorecords.com/br/

Goma Gringa Discos (SP): http://www.gomagringa.com/

Hearts Bleed Blue (SP): http://www.hbbrecords.com/

Highlight Sounds (SP): https://www.facebook.com/highlightsoundsbrasil

Honey Bomb Records (RS): http://honeybombrecords.bandcamp.com/

Läjä Records (ES): http://www.laja.com.br/

40% Foda/Maneiríssimo (RJ): http://40porcentofodabarramaneirissimo.bandcamp.com/

Midsummer Madness (RJ): http://mmrecords.com.br/

Outprint (SP): https://www.facebook.com/Out.Print.Records

Risco (SP): https://www.facebook.com/selorisco

Submarine Records (MG): http://www.submarinerecords.net/ / Norópolis http://www.noropolis.net/

Transfusão Noise Records (RJ): http://transfusaonoiserecords.bandcamp.com/

Uivo Records (SP): http://uivorecords.com/

Vinyl-Lab (SP): http://www.vinyl-lab.net/


SACOLA ALTERNATIVA 

MIS. Avenida Europa, 158, tel. 2117-4777, Jardim 

Europa. Hoje, das 12 h às 

21 h. Entrada franca. 

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