Segunda edição: mais pop, mais violento

Em janeiro de 1991, o Rock in Rio já tinha se tornado uma aposta alta para muita gente. Foi transmitido pela Rede Globo ao vivo para 55 países e, patrocinado pela Coca-Cola, levou 700 mil pessoas ao Maracanã nos seus nove dias de duração.O problema foi justamente esse: virara um grande negócio e era realizado num estádio, e não em campo aberto. O resultado foram três mortes e brigas no gramado, que resultaram em prisões e inquéritos. O clima pacífico dos anos 80 já tinha desaparecido de cena.E também o insight roqueiro. O festival agora era predominantemente pop, com artistas e grupos como A-Ha (um dos maiores públicos de rock da história), Dee-Lite, Information Society, INXS, Lisa Stanfield, George Michael, Colin Hay, Billy Idol e - pasme! - New Kids on the Block. Do lado dinossáurico, estiveram lá (entre outros) o velho Santana, Joe Cocker, mais o Judas Priest e o Megadeth.E uma nova-guarda do rock compareceu em peso, como "novidade": Guns ´N Roses, Faith No More, Happy Monday, Run DMC. E Prince, que pairou como uma diferença no meio dos astros todos, um astro em particular. Ele chocou no palco e nos bastidores, espalhando sua libido funk pela noite carioca e simulando sexo com os microfones.Já não havia mais rock nacional para revelar, mas para enterrar. Estavam lá, como paródias, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Inimigos do Rei, Nenhum de Nós, Supla, Vid e Sangue Azul e até mesmo Serguei, ressuscitado do limbo dos anos 60 por alguma generosidade súbita. E os MPBistas: Alceu Valença, Ed Motta (ainda uma novidade) e Elba Ramalho."Os momentos mais marcantes foram na terça-feira - o cantor Lobão levava doses de papel molhado atirados de estilingue pelo público - e no sábado, que foi o grande show do A-Ha, com um público de aproximadamente 120 mil pessoas cantando num coro afinado todas as canções da banda", lembra Jorge Adriano, hoje funcionário do Ministério da Indústria e Comércio em Brasília e estudante de Administração de Empresas na UnB. "Além de tudo, eu estava no Maracanã!", vibra Adriano."Hoje eu não sou mais um garoto com aquela disposição toda", lembra ele, que tinha só 16 anos na época do Rock in Rio 2. "Porém, com certeza estarei no Rock in Rio 3, embora as bandas de hoje não me entusiasmem tanto como há dez anos", ele avisa. A possibilidade de ver Roger Waters, o guitarrista do Pink Floyd, ou o Pearl Jam (que não virá) é que move o jovem Adriano desta vez.Tecnologia - O Rock in Rio 2, segundo os organizadores, foi o festival da tecnologia. Três mil refletores iluminaram o Maracanã, dos quais 480 eram faróis de avião dispostos na cobertura do estádio. O som tinha 500 mil watts de potência e o palco era ladeado por dois telões de 9 metros de altura por 7 metros de comprimento.Foram vendidas 18 mil camisetas, 17 mil discos e CDs, 130 mil cachorros-quentes, 98 mil sanduíches, 21 mil selos postais (com as efígies de Cazuza e Raul Seixas) e 88 mil fatias de pizzas. Houve de tudo, até um solo de guitarra de Slash, do Guns ´N Roses, sobre a música Feelings, de Morris Albert.Christine Ghelli, diretora de marketing de uma empresa de telecomunicações no Sul da Flórida, foi ao primeiro Rock in Rio com apenas 9 anos - burlou a censura, na época. "Hoje eu tenho 25 anos e, apesar de todas as responsabilidades que vêm com a idade, no fundinho eu sei que toda aquela emoção de estar no meio dos adultos, a tensão do medo de ser barrada por que a censura era de 10 ou 12 anos e de ver aquela massa humana e eu ali pequenininha, não vai ser a mesma que foi nos meus olhos aos nove anos", ela lembra, em entrevista por e-mail.Apesar de manter "o sorriso na memória", como ela diz, Christine hesita quando pensa em levar uma criança de novo a um festival de rock. "Particularmente, eu pensaria 1 milhão de vezes antes de levar uma crianca de 9 anos", diz. "Mas a Barra da Tijuca naquela época era tranqüila e eu fui criada ali pertinho no Recreio; dava pra ir para casa à pé, como fomos", recorda. (colaborou Janaina Rocha).

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