Matt Licari/Invision/AP
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Sean Ono Lennon se reencontra com John

A experiência de trabalhar no catálogo de seu pai foi aterradora e intimidante para Sean Ono Lennon

Mesfin Fekadu/AP, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2020 | 17h23

NOVA YORK - A primeira experiência de Sean Ono Lennon trabalhando com o catálogo de seu pai foi aterradora e intimidante, mas, para não se perder, ele tinha em mente dois objetivos principais: preservar a mensagem das canções de seu pai e ajudar que o ícone da música chegasse a um público mais jovem.

Na sexta-feira, quando seria o aniversário de 80 anos de John Lennon, foi lançado ‘Gimme Some Truth: The Ultimate Mixes’, com 36 canções cuidadosamente escolhidas por Yoko Ono e Sean Ono Lennon, que foi o produtor executivo do projeto. Mãe e filho trabalharam em estreita colaboração com o engenheiro de som Paul Hicks para preservar a essência das músicas, que foram totalmente remasterizadas.

Ono Lennon, que faz aniversário no mesmo dia do pai e completou 45 anos na sexta-feira, saiu mais forte do processo, que foi bem duro em alguns momentos. “Sabia que, de alguma maneira, seria um processo um tanto introspectivo para mim, claro. Estava assustado no começo, para ser honesto. Estava com medo de estragar tudo, ou de não trabalhar direito, ou de ser emocionalmente difícil ouvir a voz do meu pai várias vezes seguidas”, disse Ono Lennon. “O álbum ‘Double Fantasy’, em especial, desencadeia todo um período muito difícil da minha infância, porque foi quando ele morreu. Na verdade, resisti muito em trabalhar com esse álbum”.

“Mas, depois de tudo, foi um processo muito curativo, um tipo de terapia. Foi muito terapêutico, no fim das contas. Estou muito feliz por ter trabalhado nesse projeto. Não teria revisitado as músicas de ‘Double Fantasy’ se não fosse por este projeto. Acabou sendo catártico”.

‘Gimme Some Truth: The Ultimate Mixes’ traz canções de Lennon depois dos Beatles, de ‘Imagine’ até ‘Woman’ e ‘Whatever Gets You Thru the Night’. E saiu em formato digital, CD e vinil.

“Para mim, a verdadeira motivação é que essas músicas não podem ser esquecidas. Especialmente ‘Gimme Some Truth’, por exemplo, que é a faixa com que escolhemos começar. Acho que nunca tinha percebido como a música do meu pai é necessária em termos de mensagem mais do que esta semana, agora”, disse Ono Lennon sobre a música de protesto.

“Acho que muitas pessoas mais cínicas presumem que, ‘Oh, todo mundo conhece essas canções’. Mas, não, as pessoas não conhecem. Muitos jovens não sabem a diferença entre Ringo e Paul. Muitas crianças que não sabem a diferença entre Mick Jagger e meu pai”.

Numa entrevista para a Associated Press, Ono Lennon falou sobre a relevância de ‘Gimme Some Truth’, sobre trabalhar com a música de seu pai e sobre encontrar sua voz no processo.

Como foi trabalhar neste projeto?

Foi muito profundo, pesado e bonito. Nunca tinha ouvido as fitas originais em multicanal. Ouvir a voz do meu pai, ou mesmo silenciar sua voz para só escutar o que os instrumentos estão fazendo, foi incrível para mim. Foi muito divertido, um pouco aflitivo. Ainda estou nervoso porque, quando você põe a mão numa música que é tão querida, tão clássica, tão imortal, você sente o peso.

É quase assustador o quanto ‘Gimme Some Truth’ ressoa hoje. É por isso que a coleção é chamada “Gimme Some Truth” – algo como “me dê algo de verdade, de verdadeiro”?

Nós não tínhamos muita opção nesse momento. ‘Gimme Some Truth’ significa muito agora. Acho que é uma mensagem com a qual todo mundo pode se conectar. Toda pessoa boa, de toda cidade que seja. Se você é uma boa pessoa, o que você mais quer agora, mais do que tudo, é um pouco de realidade. Parece que estamos vivendo numa dimensão alternativa e maluca. Acho que todo mundo se sente assim. Acho que é uma mensagem muito importante.

Como foi trabalhar com sua mãe neste projeto?

Estive em estúdio quando era jovem, então aprendi com ela como funciona a gravação, como funcionam os ecos, como funciona a reverberação, como equalizar as vozes. Na verdade, conheço muito bem qual é a sua filosofia. Sua principal prioridade com toda a mixagem é garantir que a voz esteja clara. Ela disse que todo mundo sabia que meu pai não gostava de sua voz. Sempre baixava muito. Quando ela estava produzindo ʻImagine’, o álbum, ele ia ao banheiro e ela aumentava o volume, aí ele voltava e baixava de novo... Ela realmente acredita que menosprezar a voz é a pior coisa que se pode fazer. Realmente quer que as pessoas ouçam as letras e acredita que a música deve servir à voz. Quando se trata de mixar as coisas do meu pai, essa é a prioridade dela. E acho que ela está certa.

É a primeira vez que você trabalha com a música do seu pai. O que o levou a esse projeto?

Só estou tentando ajudar, só isso. Minha mãe é quem manda e, se eu puder ajudar de alguma maneira, estou aqui.

Todas as mães mandam...

Talvez ela confie um pouco mais em mim agora que fizemos vários discos juntos e viajamos pelo mundo juntos. Fui seu diretor musical por anos. Acho que demorou um pouco, mas acho que, nesse sentido, ela se sente confortável comigo agora.

Seu pai escreveu ‘Beautiful Boy’ para você. Como foi voltar a trabalhar nessa canção?

Honestamente, foi minha experiência menos favorita. Foi muito estranho. Essa música me faz me sentir meio infantilizado, alguma coisa assim. As pessoas sempre tocam essa música e olham para mim com um sorriso do tipo: “Ele não é fofo?”. Aí eu digo: “Oh, faça-me o favor, sou um velho agora, não um bebê sorridente num comercial de papinha”. Para ser franco, essa canção me comove, mas como músico, compositor e produtor, é uma das minhas músicas menos favoritas, porque é muito enjoativa. Ao mesmo tempo é ótima, adoro... Talvez seja impossível para mim falar dela de maneira objetiva. ‘Beautiful Boy’ tem um som muito voltado para a família. Não é minha estética. Mas, fora isso, foi um privilégio ajudar a mixar uma música que é sobre mim e é muito comovente. E, sim, fiquei muito emocionado ao ouvir meu pai dizer meu nome. No final, ele diz “boa noite, Sean”. Sempre me lembra de quando ele me punha para dormir. Tinha uma espécie de ritual, a maneira como ele me botava na cama. Ele apagava as luzes no ritmo da sua voz, então parecia que era sua voz que controlava as luzes. Aí ele saía. Tenho essas memórias, então foi lindo.

Você se inspirou na sua própria música para trabalhar nas canções de seu pai?

É interessante porque, para começo de conversa, as músicas que consigo interpretar mais facilmente são as do meu pai, principalmente a voz. Quando tento cantar suas canções, sinto que posso cantá-las muito bem. Compartilhamos muitos acordes. Minha voz não é tão áspera quanto a dele, mas, para mim, é mais fácil cantar suas canções do que as de qualquer outra pessoa. Elas me ensinam a cantar. Acho que por toda a minha vida foi difícil encontrar minha própria voz. Tive dificuldade em encontrar minha voz todo esse tempo porque, cada vez que tento cantar bem, acabo soando cada vez mais como meu pai. Na verdade, odeio meus primeiros discos porque sempre tentei cantar de forma diferente do meu pai, e isso me exigia muito. Acabava cantando com um suspiro estridente de que não gosto. Era muito artificial para mim. Ouvir este álbum... todas as suas gravações, a compilação que fizemos, me ajudou a perceber que eu precisava parar de evitar essa maneira de cantar que soa sensivelmente melhor. Acho que vai me ajudar no álbum em que estou trabalhando. Não me segurar, só cantar. Tenho medo de que, ao soltar a voz, pareça muito com ele, mas de que adianta cantar se não vou soar bem? / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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