Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Rock in Rio faz público passar noite ao relento para garantir posição privilegiada

Primeiros da fila são amigos desde a edição de 2011 e contam com auxílio de seguranças do festival para beber água; veja fotos

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2015 | 19h19

Adriano Vieira e Amanda Tadl são grandes amigos desde 2011, mas só se viram três vezes de lá para cá. Não têm o número do telefone um do outro, tampouco se curtem no Facebook. O que os une é o Rock in Rio. Movidos pelo desejo de estar o mais perto possível dos ídolos, eles só vão ao festival na base do sacrifício: chegam dias antes, dormem ao relento e, quando os portões são finalmente abertos, espremem-se na frente do palco. 

Dessa vez, Adriano foi para a frente da Cidade do Rock no sábado passado, 12, sendo que a banda que quer assistir, o System of a down, só toca na quinta-feira que vem, dia 24; Amanda chegou segunda-feira, 14, para ver o Queen na sexta, 18. Os portões só vão ser abertos às 14 horas e o show está previsto para depois de meia-noite. 

"Não tenho medo de dormir aqui, é o lugar mais seguro do Rio de Janeiro", acredita Amanda, que tem 26 anos e é técnica de áudio. "Minha vontade de trabalhar com música nasceu das histórias que minha mãe contava do Rock in Rio 1985, principalmente do show do Queen. Só de falar isso eu me arrepio." Freelancer, ela se programou para estar de folga durante esses dias de festival.

Vieira trabalha com design gráfico e está há apenas três meses no atual emprego. Ainda assim, teve coragem de pedir dispensa ao chefe. Ele não hesitou e liberou. "Disse que sabe da minha história com o Rock in Rio e me deixou vir", contou o rapaz, que tem 29 anos. "Só não vim ao Rock in Rio de 2001 porque estava em época de provas na escola. Sei que o System of a Down não é a melhor banda de rock do mundo, mas eles são especiais para mim."

A dupla está dormindo na calçada. A Guarda Municipal não permitiu que se montasse barraca. Banho eles tomam graças ao auxílio de uma associação de pescadores, de cujos integrantes se aproximaram na edição de 2011. Água para beber e escovar os dentes é cedida por seguranças do Rock in Rio, que se apiedam da situação desconfortável. 

"A gente fica aqui tipo cracudo mesmo", brincou Amanda. As refeições são feitas numa pensão próxima. Para passar o tempo na madrugada, os dois cantam. "De Backstreet Boys a Pedra Letícia", exemplificou a moça. "Em 2011, dormi na chuva, numa cadeira de praia, enrolada em sacos plásticos", lembrou Vieira. Ontem e hoje, foi o sol que castigou. "Fico em fila de show há dez anos, então já vim preparada, com calça e manga comprida", ensinou a amiga.

Na quarta-feira, 16, os dois estavam sozinhos junto ao portão. Para a noite desta quinta, imaginam que a aglomeração cresça. Eles dizem que costuma haver flertes na fila - não entre os dois. Embora valorizem as amizades nascidas na adversidade, não é isso que os move. "Se eu não ficar na grade, grudado no palco, o show não vale. É o único momento em que o seu ídolo olha no seu olho, em que você existe para aquele cara. É quando você diz a ele: 'obrigado'", definiu Vieira. 

A procura por trabalho movimentou a entrada da Cidade do Rock durante a manhã e a tarde. Previamente cadastramentos, os atendentes, ambulantes, caixas e funcionários da administração escalados retiravam suas credenciais, enquanto dezenas de pessoas esperavam para ver se iria sobrar alguma função. "Viemos tentar a repescagem. Já vim vender água e ganhei R$ 100 por dia. Não é muito, mas é melhor do que nada. Vem gente de outros estados tentar alguma coisa aqui. Não fico chateado de trabalhar e não ver os shows, fico chateado é de não ter dinheiro", disse Angélica Souza, de 39 anos, que mora na Baixada Fluminense e é camelô.

 

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