"Saravá, Baden Powell"

Não há como utilizar o presente. Morto, ora vejam essa! Baden está vivo. Guardado na memória dos que tiveram o prazer de acompanhar a construção de sua obra. Composições que, após anos de produção ininterrupta, serão sempre lembradas como das mais importantes da música popular brasileira. Morto estão aqueles que nada deixaram para a posteridade. Portanto, Baden está vivo. No passado? Não. Morreu, assim, sem pormenores. Da mesma forma que não foi fácil esquecer de Vinícius, seu parceiro querido de vida e música, não será simples deixar de pensar em assistir a um show de Baden Powell. Com o tempo, admito, restará apenas a saudade de vê-lo atacando seu violão com acordes extremos, de erma beleza. E não será mais possível assistir a um de seus solos jazzísticos, tipicamente nordestinos, africanos... brasileiros. No futuro, bem, não dá para negar o fato: Baden Powell está morto. Tinha jovens 63 anos recém-completados,os quais viveu e produziu sempre com grande intensidade. Da Guanabara para o mundo - Nascido em Varre-e-sai, pequeno Munícipio do Estado da Guanabara, foi em São Cristovão, bairro do Rio de Janeiro, que aprendeu a beber da vida sem medir o tamanho dos porres que ela viria a lhe dar. O interesse pela música nasceu das costumeiras serenatas que fazia seu pai. A paixão pelo violão, à primeira vista diga-se, começou cedo. (Com 9 anos já se apresentava em programas de novos talentos). Foi o melhor violonista brasileiro, que concedeu o direito de tocar ao seu lado aos mais importantes músicos e artistas destas terras, de Pixinguinha a Elis Regina.Gravou discos de jazz, bolero, samba-canção e rock and roll. Difícil será resgatar esse material, que se perdeu no tempo e no espaço em algum arquivo de gravadora qualquer. Gravou também com muitos artistas. A arte do acompanhamento, que permitia a ele tocar qualquer canção sem jamais tê-la ouvido antes, dominava como ninguém. Aprendeu a técnica com o mestre e amigo Meira, violonista que tocou na Regional de Canhoto, grande conjunto de choro, seu primeiro professor de violão. Deixa como legado uma obra que reúne 70 discos e um trabalho inédito, chamado Lembranças, que a gravadora Trama anuncia como lançamento de outubro. O disco terá canções de Noel Rosa e Zequinha de Abreu, entre outros. Também deixa o filho, Louis Marcell, com quem dividiu o palco nos últimos anos de vida. Um virtuose, este seu filho, esperamos que aprenda com o tempo (ainda lhe falta isso) a colocar nos dedos a emoção que era inerente ao trabalho de seu pai. E deixa também histórias, muitas histórias, todas deliciosas. De bebedeiras, de molecagens, de descontrole...Cachorro Engarrafado - No Brasil, em Nova York, na casa de Stan Getz, na França, onde foi rei no início dos anos 60, não importava o local. Baden sempre bebeu demais da conta. Compunha, se apresentava, conversava, discutia com a cara cheia de uísque. Não foi da bebida que morreu, mas em decorrência dos excessos cometidos em uma vida artística que começou aos 9 anos de idade. Havia também o cigarro. Era um indisciplinado na vida, mas de rigidez militar quando o assunto era o violão. Não se separava do cigarro, muito menos do instrumento. Estudava horas: primeiro com a mão esquerda (fumava com a direita), depois com a direita (fumava com a esquerda). Só parava de pitar o fumo quando se apresentava ao vivo, e, mesmo assim, puxava uns tragos nos intervalos entre as canções. Os vícios acompanharam sua existência. Largou-os há pouco, quando de sua conversão ao protestantismo. Talvez seu último sopro, sussurro seja este. Com medo da morte, foi em busca de Deus. Buscar reparo para os estragos físicos cometidos no passado. Não conseguiu, mas ficou em paz. E se não fossem esses excessos, talvez Baden nunca tivesse sido quem foi. Este ano gravou com o violonista Leandro Carvalho um álbum com músicas do também violonista João Pernambuco. No show de divulgação do disco, no Sesc Vila Mariana, mostrou estar com a saúde bastante debilitada. Mas tocou e cantou (nunca foi seu forte a voz). E deixou todos mudos, apenas ouvindo aquele senhor de branco que fazia do violão a extensão perfeita de seu braço. Deixará saudades e um grande vácuo na música popular brasileira. Poucos como ele transitaram tão bem por gêneros tão variados. Choro, polca, samba, bossa nova, música clássica. Tocava de tudo, e fazia tudo parecer muito simples (Para ele, era). Dos versos finais de samba do avião, que abandonou após a seu encontro com Jesus, fica o bordão: Saravá, Baden Powell.

Agencia Estado,

26 de setembro de 2000 | 11h24

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.