São Paulo sedia concurso mundial de regência

Em 1985, quando esteve no Brasil regendo a Filarmônica de Viena, o maestro Lorin Maazel mostrava-se, em declarações à imprensa, irritado com os açougueiros, regentes que, em sua opinião, "não sabem fazer música, mas se agitam como se estivessem cortando enormes pedaços de carne". Para ele, tratava-se de músicos competentes, que saiam das universidades com reluzentes diplomas sem, no entanto, entender a responsabilidade que o posto de maestro impõe.Com o passar do tempo, a indignação fez com que o maestro passasse a participar do processo de formação de novos maestros e o resultado foi a criação do Maazel/Vilar Conductor´s Competition, concurso que - em sua fase latino-americana - terá sede em São Paulo, em abril do próximo ano, com a participação da Orquestra Experimental de Repertório (OER). As inscrições vão até sexta-feira (01) e os interessados devem ligar para o telefone (0--11) 3815-6377.No mundo inteiro haverá etapas regionais do concurso. Em cada uma os músicos passarão por testes que para avaliar a audição, as técnicas de memória, o conhecimento de repertório, a conduta perante a orquestra, além do conhecimento de harmonia, contraponto e habilidade vocal ou instrumental.Os nove candidatos com melhor desempenho passarão à fase seguinte, quando trabalharão com uma orquestra sinfônica completa, executando um repertório que será escolhido por Maazel e a direção do concurso, restando um candidato, que vai participar, em setembro de 2002, das finais no Carnegie Hall, em Nova York, quando terão a chance de reger a Orquestra de St. Luke.A etapa sul-americana do concurso está sendo apoiada pelo Mozarteum Brasileiro, que sugeriu ao regente-titular e diretor artístico da OER, o maestro Jamil Maluf, que enviasse uma fita da Orquestra Experimental de Repertório ao comitê organizador, que gostou da amostra do trabalho dos jovens músicos que compõem o grupo e recomendou a sua escolha para participar. "Mais de uma vez, essa orquestra me foi muito bem recomendada e, pelo que ouvi a respeito de seu tipo de trabalho, parece ideal para a proposta do concurso", diz Maazel.Maazel faz questão de ressaltar que o objetivo do concurso não é encontrar um único vencedor, mas, sim, permitir a todos os finalistas uma oportunidade de desenvolver seus talentos e potenciais, durante dois ou três anos, com ele próprio e outros músicos de renome do cenário erudito mundial. "O bom maestro nasce com intuição musical, não deve ser apenas um ´fazedor´ de música e o que tento mostrar a esses jovens é que é necessário aprender a desenvolver seus talentos individuais da melhor maneira possível", diz, por telefone.Segundo Mazel, os regentes que estão aparecendo não compreendem de modo abrangente o seu trabalho. "Não é suficiente saber as notas certas e o momento de tocá-las. Muitos acham que, agitando os braços e mostrando um olhar cheio de fogo ou de sofrimento, têm assegurado seu lugar na história da música", diz.Para o maestro nascido na França e naturalizado norte-americano, os regentes precisam saber dar voz à música interior, aquela que já se manifesta nos primeiros momentos de vida do músico. "O intérprete tem a necessidade de uma compreensão intuitiva da música, não pode ser engenheiro da música. Estes tocam tudo direitinho, tudo soa bem, mas nada de mais acontece."A intenção de Maazel, com o concurso, é ajudar os jovens regentes a desenvolver esse talento, essa predisposição que ele chama de "corda interior". "Se a pessoa tem talento, tem de correr atrás de maneiras de desenvolvê-lo e explorá-lo da melhor maneira possível e isso as escolas muitas vezes não conseguem ensinar." Em um mundo no qual a concorrência é forte em qualquer área, Maazel reafirma a idéia de que há espaço para o bom profissional. "Se há talento bem trabalhado, o mundo da música encontra espaço para diferentes tipos de regentes."

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