'São Paulo, I love you', diz João Gilberto

Morenas de sandália de prata sambam.Dores de amor ecoam nos bares do Leblon. Vatapá e pôr-do-sol secombinam na Bahia. Um show de João Gilberto é um show deimagens e sentimentos, principalmente para quem fecha os olhose entra na onda de sua voz sussurrante, como se o pai da bossanova contasse uma história ao pé do ouvido. O cantor e compositor baiano de 77 anos fez seu primeiroshow em São Paulo em cinco anos, na noite de quinta-feira, noAuditório Ibirapuera, no principal evento do calendário decomemorações dos 50 anos da bossa nova. Atrasado em mais de 1h30, o músico subiu ao palco às 22h36e de lá saiu às 00h05, após 29 canções, incluindo um generosobis e duas músicas repetidas. Ao contrário da fama, não reclamou de nada. Nem do arcondicionado, nem do som, nem da platéia. O público, aliás,caprichou tanto no silêncio que era possível ouvir os cliquesdas máquinas dos fotógrafos autorizados, na primeira canção,"Aos Pés da Cruz". A reverência ao mestre era tanta que nem cantar juntoparecia ser possível. Um espirro sequer era motivo de olharesde reprimenda. Ainda na primeira canção, um barulho bem alto,de computador sendo desligado, quase colocou tudo a perder.Tensão na platéia. Mas João Gilberto parecia de bem com a vida,e fez que nem notou. E foram diversos os clássicos que o público se segurou paranão soltar a voz com João Gilberto, como "O Pato", "Corcovado","Garota de Ipanema", "Doralice", "Retrato em Branco e Preto",apesar de não ser nada fácil acompanhá-lo. Ele sempre muda de leve as composições, subtraindo notas,alterando ritmos, juntando frases e arrancando aplausos. Masnão muitos aplausos, claro, para não atrapalhar. A platéiafazia questão de esperar até o soar da última nota para começara bater palmas, que eram rapidamente interrompidas. Com o silêncio total da platéia, estrelada pelo ator WagnerMoura e muitos outros colunáveis, as imagens da Bahia seformavam na mente com canções como "Você já Foi à Bahia?" e"Bahia Com H". E também as morenas sensuais de "Isto Aqui, OQue É?" e "Da Cor do Pecado". João falou pouco. Começou pedindo desculpas pelo atraso elá pela quarta canção elogiou a cidade e afirmou que era, sim,paulista. "São Paulo, I love you", disse, antes de falar bem, muitobem, de seu amigo Henry Maksoud e do hotel que leva seusobrenome. "Aquela varanda comum, o tratamento todo, ahospitalidade...", elogiou João. Nada falou dos 50 anos da bossa, mas tocou "Chega deSaudade", marco inicial do movimento, gravada há exatos 50 anose 35 dias no estúdio da Odeon, no Rio de Janeiro, como bemlembrou o historiador Zuza Homem de Mello antes do showcomeçar.

FERNANDA EZABELLA, REUTERS

15 de agosto de 2008 | 14h44

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