São Paulo cantada da Galeria do Rock à Vila Madalena

A moça feia debruçou na janela,pensando que a banda tocava pra ela. Mas é verdade, a banda estátocando e é mesmo para a musa feinha: prestes a completar seus453 anos, dia 25, São Paulo - que parecia abandonada pelospoetas, bardos e versejadores -, voltou a animar a lírica. Estáchovendo música para homenagear (ou espinafrar) a paulicéia: dosgrupos ingleses Guillemots e Morcheeba aos pernambucanos Caju &Castanha, o piauiense Edvaldo Santana e os paulistanos SergioBritto (dos Titãs) e Edgard Scandurra (do Ira!). Esse últimoescreveu:"Na igreja, esperança E no saco, muita cola Na esquina vendem bala Muito craque/Pouca bola" Ao longo dos anos, São Paulo teve diversas traduçõesmusicais. Adoniran, Paulo Vanzolini, depois Caetano Veloso(Sampa), Gilberto Gil (Punk da Periferia), Tom Zé (São SãoPaulo), depois Racionais MCs (Fim de Semana no Parque). O guitarrista Edgard Scandurra, do Ira, escreveu umdesses clássicos sobre a cidade, Pobre Paulista, quando tinhaapenas 16 anos. Havia ali um desabafo adolescente, meio genérico típico de uma canção punk. Agora, tantos anos depois, a nova canção de Scandurrapara a cidade, S.a.o.til.p.a.u.l.o., parece mostrar um mesmotanto de desencanto, mas também muito lirismo e compreensão paracom o caos de São Paulo. "Amo São Paulo apesar do caos, e tambémpor causa dele", diz Edgard. A São Paulo que motiva a poesia, seja ela idílica ou não está por todo lado, da Galeria do Rock à Vila Madalena. Qual éa cidade que mais atrai, aquela da concreta e dura realidade oua que almeja um outro destino, um destino de pura civilidade esonho? "São Paulo é com certeza uma cidade difícil de se cantar.O que tentei fazer foi falar da cidade com algum lirismo, semque pra isso tivesse que varrer pra debaixo do tapete a sujeira,a dureza da cidade", explica o cantor e compositor Sérgio Britto que compôs Cosmópolis no seu álbum mais recente, Eu Sou 300. A dureza da cidade aparece com toda frieza e realismo nacanção Chacina, de Arnaldo Antunes, uma das mais fortes doquinto álbum de Edvaldo Santana, Reserva de Alegria, na qualele junta MPB com ingredientes latinos, de Cuba, Jamaica, Caribee do blues. As cenas da periferia, tão comuns nas páginaspoliciais dos jornais, viram versos de pura precisão:"Dois estão feridos, mais sete escondidos/ E os outros seis, jáviraram três quem tava do lado também foi queimado/ Quem pode escapar, nãopode falar ninguém teve pena, ninguém teve dó/ Daquela família, só ficou avó E daquele corpo, osso dente e unha/ Ninguém quer o corpo,ninguém testemunha."

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