São Paulo, campeã das músicas no País

São Paulo pode ganhar de presente neste aniversário mais um título: a cidade que mais inspirou compositores na história da música brasileira. A façanha de pesquisar São Paulo como musa é do jornalista e radialista Assis Ângelo, que sustenta a tese com uma empreitada de 11 anos, na qual catalogou 2.400 canções que falam da cidade, de suas ruas, personagens, suas saudades, amores e ódios.Ângelo está à espera de patrocínio para publicar o Roteiro Musical da Cidade de São Paulo - Pequena Enciclopédia da Música Brasileira, um volume que deve contar com cerca de 600 páginas e que deve ser distribuída em bibliotecas públicas.A lista preparada pelo radialista indica Missa a São Paulo, criada por Calixto e Anchieta Arzão em 1750, como a primeira composição feita para a cidade. Seus primeiros contornos, como musa, foram, portanto, religiosos. Num salto de alguns séculos, a cidade foi descrita de centenas de outras maneiras. Numa das canções mais conhecidas, Ronda, do biólogo-compositor Paulo Vanzolini, a personagem principal é uma prostituta. Mas pode também ser "uma mulher que sai do escritório de tailleur/desata o cabelo e o fecho ecler/atirando o vestido para platéia", como na música de Vicente Barreto e Celso Viáfora.Para provar que é pra lá de moderna, a musa pode vir "dopada e alucinada", de farda cinza como a dos policiais militares do rap Retrato de São Paulo, do Pavilhão 9, e encarnar a violência e o sentimento de insegurança dos moradores. Eventualmente a prostituta de Ronda pode adquirir sotaque nipônico. Já foi gravada pela professora Laura Okumura, que canta em japonês uma das músicas mais tocadas na noite paulistana, segundo o Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais (Ecad). Malocas e lampiões - São Paulo já foi descrita como uma cidade molhada de garoa (em Eh, São Paulo, de Alvarenga e Ranchinho), iluminada pelos lampiões de gás (na canção de Zica Bergami) ou repleta de malocas - sejam as românticas e brejeiras como as de Adoniran Barbosa ou apenas miseráveis (como as da música Domingo no Parque, dos Racionais MC´s). A metrópole conta com um esquadrão de compositores que são imediatamente associados à cidade. De Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Luiz Tatit e José Miguel Wisnik a grupos como Premê e Língua de Trapo. Sem contar Rita Lee, que canta os humores da cidade, como em Lá Vou Eu, criada em parceria com Luiz Sérgio.Não importa qual o ritmo. São Paulo inspira xaxados, baiões, rocks, tangos, músicas eruditas, catiras, mambos, marchas, foxes, sambas, brega e raps, provando que a musa e seus compositores são mutuamente generosos. Vanzolini criou o seu hino paulista - à revelia, pois acredita que essa seja uma música menor dentro de seu repertório de cerca de 60 composições - nas noites de boemia quando ainda era um jovem soldado do Exército que arregimentava tropas de moços para os bares e prostíbulos do centro da cidade. Ronda, mesmo renegada, financiou a montagem de sua biblioteca de Zoologia, considerada uma das melhores da América Latina na área de répteis e anfíbios.São Paulo é capaz de sustentar mesmo compositores considerados gênios incompreendidos. Tom Zé, que compôs a apaixonada e lúcida São São Paulo, Meu Amor, largou a cidade baiana de Irará para, junto com Gilberto Gil ( de Punk da Periferia), Caetano Veloso (de Sampa) e Rogério Duprat , fazer da cidade o palco ideal para a Tropicália. Depois do sucesso do movimento musical, amargou anos de ostracismo, mas pôde, mesmo assim, sustentar-se no circuito alternativo de shows em centros acadêmicos. "Para nós do nordeste, essa cidade é instigante. Uma cidade com espelhos nas fronteiras voltados para dentro", define o músico.Segundo o jornalista Assis Ângelo, a cidade inspira sentimentos ambivalentes. "Aqui você ama e odeia. Você não pode só amar ou odiar". E se Ângelo estiver correto ao dizer que o cancioneiro da cidade pode revelar a sua história, um percurso por essa trilha musical substitui sisudas explicações sociológicas.Superpopulosa, violenta, sem memória. São Paulo é também o lugar da informação, do encontro das múltiplas tradições. Para o pesquisador e crítico de música Zuza Homem de Mello, o que pode definir São Paulo musicalmente é esta mistura. "O estilo da música de São Paulo é não ter estilo", explica.

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