Santana que tocar com Milton e Djavan no Brasil

Após dez anos sem vir ao Brasil, o guitarrista mexicano Carlos Santana, de 58 anos, volta a dar as caras no País. Ele toca em três cidades: Porto Alegre (Gigantinho, no dia 15 de março), São Paulo (17 de março, naArena Skol Anhembi), e Rio de Janeiro (18 de março, na Apoteose)A rota "brasileira" continua: em maio, ele é atração confirmadado Rock in Rio Lisboa, em Portugal. O primeiro brilho de sua estrela ofuscou uma multidão emWoodstock, em 1969, quando só tinha 22 anos. A luz consolidou-senos anos 70, apagou-se nos anos 80 e 90 e voltou a brilhar em1999, quando lançou o celebrado disco de duetos "Supernatural(ganhador de oito prêmios Grammy), Carlos Santana mantém - comoo leitor verá - uma fidelidade canina ao ideário hippie: paz &amor, solidariedade universal, fé ecumênica, humanismoexacerbado. Não raro, exalta em discursos seus irmãos nessacrença: Rosa Parks, Malcolm X, John Lennon, Bob Marley. Santana vendeu cerca de 90 milhões de discos em suacarreira mundo afora. Hoje, diz-se que está preso à fórmula deSupernatural, que já rendeu duas seqüências: Shaman e AllThat I Am. O músico faz parte de uma casta de guitarristas domundo cujo som, como uma assinatura, é imediatamentereconhecível. Hoje (9), de Los Angeles, onde ele está paraapresentar um prêmio Grammy (para cantores de rap), Santanafalou à Agência Estado por telefone.Gostaria de saber sua opinião sobre ospresidentes dos Estados Unidos, George W. Bush, e do México,Vicente Fox.Não acho que sejam muito diferentes daqueles quevi antes. Cresci na época do Vietnã. Os presidentes que conhecieram todos muito iguais. Gostaria de um dia ver mulheres comopresidentes, nas Américas, na Índia. As mulheres tendem a termais compaixão, a representar melhor os pobres, a pensar menosem economia e mais no capital humano. Nada mudou de verdadedesde os anos 60.O sr. não vê esperança de que algo mude no futuro próximo?Há muita esperança. Vejo sempre um belo planeta Terrasustentado não pelo dólar, mas pela solidariedade. Esse será omais poderoso poder.Teremos dois superconcertos no Brasil em alguns dias,Rolling Stones e U2. O que o sr. pensa deles?Bono Vox fez um bom trabalho na África, aprecio suaobra. Não ouço Rolling Stones há muitos anos. Nos anos 60 e 70,ouvi muito, mas não depois disso. Hoje em dia tenho ouvido muitomúsica africana. E John Coltrane, como sempre. Miles Davis, JohnLee Hooker.O sr. conhece Amadou e Mariam, uma dupla de cantores doMali, na África? Estão entre os africanos que o sr. ouve?Sim, eu os conheço. Gostaria muito de trabalhar comeles no meu próximo disco de duetos, são artistas que estão nosmeus planos, assim como Harry Belafonte e Bob Dylan.Amadou e Mariam são cegos.Eles vêem muito mais do que muita gente que enxerga.Terei muita honra em gravar com eles, são maravilhosos.O sr. nasceu numa pequena vila mexicana sem água corrente esem luz. Hoje, freqüenta o estrelato do rock and roll. O quemudou no seu modo de ver o mundo, desde então?A minha é uma história de superação pessoal. Quandovou a El Salvador, ao Rio de Janeiro, a São Paulo, vejo que apobreza continua a mesma em todo lugar. Minha missão, como a deDesmond Tutu e Harry Belafonte, é lutar para que um dia cadamulher e cada criança do mundo possam ter água corrente, luzelétrica, educação e alimentação. Faço isso convidando aspessoas para mudar suas formas de pensar. Há muitos fazendoisso: Plácido Domingo, Gilberto Gil. Mantemos uma fundação, eu eminha mulher, a Fundação Milagro, para trabalhar nisso. Sou umguerreiro: declarei guerra contra as injustiças e a pobreza.Faço isso tentando despertar a consciência, a compaixão. Hámuita crueldade no mundo. A música pode tratar disso, como ofazem Djavan, Plácido Domingo, Wayne Shorter. Fazem uma músicapara que as pessoas vejam mais fundo.O sr. celebrizou-se fazendo fusões entre a música latina eo blues, o jazz e a música afro-cubana. Mas, recentemente, emduetos com rappers como o Black Eyed Peas e Sean Paul, o sr.tornou-se próximo do hip-hop. Como vê esse gênero?É a música de hoje. Nos anos 60, ouvíamos Bo Diddley,Chuck Berry, Little Richard. Agora, há o rap aí fora. É alinguagem de hoje. Não gosto do rap que demonstra falta derespeito com as mulheres, que prega a violência. Gosto de TupacShakur, mas aprecio principalmente o rap que sabe serconstrutivo, produtivo. O rap pode ser usado para um bem maior.Quando o sr. gravou Oye Como Va, de Tito Puente, criou olatin rock, tornou-se muito influente em todas as décadasseguintes. Ainda está em busca de uma peça que mude de novo ahistória da música?Sempre digo que busco a Música da Terra. Ouço Coltranee Dylan, gosto muito deles. Como eles, quando faço música, nãopenso conscientemente em inventar nada. Da mesma forma que,quando ouço a música do Panamá ou de Porto Rico, não chamo demúsica latina ou espanhola. Tudo veio da África. Há as variações o chachachá, o samba, a música do candomblé, mas tudo veio daÁfrica.Sua carreira é fortemente marcada pela espiritualidade.Qual é hoje sua ligação com a religião?Tenho forte relação com Deus, mas não com religiões.Buda, Krishna, os deuses ioruba, Allah, Mohamed, Jesus: todossão um só. Se você toca um, toca todos. Minha religião sãominhas intenções, minha honra, meus propósitos. Essa é a minhasalvação.Como o sr. viu a reação muçulmana às charges que mostram oprofeta Maomé como homem-bomba?O que eu sei é que é errado matar outras pessoasporque pensam diferentemente de você, porque você acha que seuDeus é o único. Em todo o mundo, as pessoas estão corrompendo areligião. Ninguém pode representar Allah nem Jesus muito bem seabre sua janela apenas para ferir, para espalhar violência emedo. Se você diz que é cristão e fere pessoas, ou se diz que émuçulmano e fere pessoas, não é cristão nem é muçulmano. Isso éno que acredito, rapaz.Em Nova York, recentemente, num show no HammersteinBallroom, o sr. chamou ao palco muitos convidados, como KennyGarrett, Robert Randolph, Walt Lafty. Podemos esperar algoparecido aqui no Brasil?Espero convidar músicos do Brasil para cantar comigo.Adoraria que fossem Djavan e Milton Nascimento. Há também umbaterista chamado Comanche. Por meio do seu jornal, vou fazereste convite: convido meus amigos a compartilharem comigo destajornada. Me procurem, vamos tocar juntos.

Agencia Estado,

09 de fevereiro de 2006 | 16h51

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