Sambistas cariocas divergem em estréias-solos

Os cariocas Pedro Miranda e Ana Costa têm currículos desenvolvidos no meio do samba, mas nem por isso trilham o mesmo caminho ou obtêm resultado de igual especialidade, como provam suas estréias-solos. Enquanto Miranda junta Coisa com Coisa (Deckdisc), Ana deita e rola em Meu Carnaval (Zambo Discos). Miranda é cria da ala jovem que contribuiu para recuperar e atualizar a vocação mítica da Lapa carioca. Integrante do Cordão do Boitatá, dos Anjos da Lua e do Grupo Semente (que acompanha Teresa Cristina), o pandeirista e cantor vem de outro projeto exemplar, Lamartiníadas. Ao lado de Alfredo Del Penho e Pedro Paula Malta, ele revisitou delícias carnavalescas de Lamartine Babo em 2005 e mantém o equilíbrio entre a malícia, o lirismo e a ingenuidade nesta Coisa de fina estampa. O repertório é irretocável como os arranjos. Tem sambas novos e antigos, tempero baiano (Chula Cortada, de Roque Ferreira), embolada de Jararaca (O Sapo no Saco), valsa (Ciúme sem Razão) e marchinha (Vírgula), ambas de Alberto Ribeiro com parceiros. Clássicos de Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro (O Samba É Meu Dom), Antônio Nássara e Orestes Barbosa (Caixa Econômica), convivem com uma parceria rara de Candeia e Paulinho da Viola (Amor Sem Preconceito), um bom Chico Buarque (Doze Anos) e um raro achado de Heitor dos Prazeres (Nada de Rock Rock). Teresa Cristina confirma as qualidades de compositora na bela e inédita Cumplicidade, parceria com Marcelo Menezes, em levada de maxixe. Ela ainda dá o ar da graça cantando a brejeira Dona Joaninha (Ary Monteiro e Zé da Zilda) em duo com Miranda. Embora já tenha relutado, Miranda sai-se bem como intérprete e se impõe pela firmeza de propósito diante do seletivo material. No comando da sonoridade, Paulão 7 Cordas toca seu violão e assina a produção, combinando com brilho cavaquinho, violões, banjo, sopros e percussão. Resulta que o CD soa clássico, mas com vigor juvenil. Como Miranda, Ana vem de experiências com outros grupos (Couer Samba, O Roda) e, com 15 anos de carreira, já acompanhou gente de quilate como Beth Carvalho, João Nogueira e Leci Brandão. Também compositora, investe no pop, na parceria com Zélia Duncan e Mart´nália (Não Sei o Que Dá) e na boa recriação de Olhos Felizes, de Marina Lima e Antônio Cícero. O flerte com os teclados nem sempre cai bem, caso da baladeira Perdi, absolutamente dispensável. Ela começa bem ao honrar a bandeira do samba - como em Raças Brasil (Luiz Carlos da Vila/C.Senna/Lourenço) -, mas se perde no meio do caminho e só se recupera no fim com Pra Que Pedir Perdão (Moacyr Luz/Aldir Blanc) e Quintal do Céu (Wilson Moreira/Jorge Aragão), esta com arranjo de Paulão 7 Cordas. Boa cantora ela é, só falta azeitar o eixo.

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