Sambista Leandro Sapucahy usa recursos do rap em CD

Meses atrás, a gravadora Warner penou para agendar um show de Leandro Sapucahy nas casas de samba da Lapa carioca. Só conseguiu depois que o artista foi avaliado, por escrito, por Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz, entre outros bambas consagrados. Agora, com a chegada às lojas do primeiro CD de Sapucahy, Cotidiano, o ouvinte aberto pode ouvir qual era o "problema" com a sua música. Na verdade, ela é uma tremenda "solução". A música de Sapucahy soluciona - assim como, por exemplo, a de Mart´nália - a falsa oposição entre samba e inovação, criada pelos talibambas, tipos tão bem isolados por Paulo Roberto Pires aqui no site. Na forma, o sambista de Jacarepaguá, zona oeste do Rio, flerta com alguns recursos do rap. Aliás, no conteúdo, também. Sem, no entanto, nem o cacoete do gangsta nem o folclore do sambandido de Bezerra da Silva. O cartão de visita é dado com poucos segundos de audição. Antes mesmo de Sapucahy abrir a boca, surge um scratch - aquele recurso do rap de alterar a rotação dos LPs, fazendo-os gemer quase como uma cuíca - e um fragmento de Na Subida do Morro - samba de Moreira da Silva, desde a infância um de seus ídolos. Esta música de abertura, de Serginho Meriti e Claudinho Guimarães, se chama Tá Tranqüilo Shock. Narra, na linguagem dos usuários de Nextel, aparelhinho muito comum entre os olheiros do tráfico, a epopéia para hoje em dia rolar uma batucada nos morros. "Pra que não haja um imprevisto de repente/ E a galera inocente tenha que marcar pinote/ Mandei um toque pro cumpadre lá em cima/ E o cumpadre respondeu tá tranqüilo shock." Quem há de condená-lo pela convivência, já que poder público passa, por covardia ou conveniência, longe do morro? A faixa seguinte, Numa Cidade muito longe daqui (Polícia e Bandido), de Arlindo Cruz, Franco e Acyr Marques, se aproxima ainda mais do rap, pela participação especial de Marcelo D2 e do DJ Fábio ACM. Aqui, narra-se a batida de frente entre "um bandido e um subtenente lá do batalhão", que extorquia o tráfico. Eles se reencontram na ambulância, onde lavam sua roupa suja de sangue. A certa altura, a letra proclama: "Chega de ser subjugado, subtraído/ Sub bandido de um sub lugar/ Subtenente de um sub país, sub infeliz." É melhor do que qualquer slogan da campanha eleitoral que se avizinha... Algumas faixas adiante vem Bala Perdida, de Claudinho Guimarães, Eri do Cais e Frank Daiello, que conta com a participação de Zeca Pagodinho. Após a leitura - feita por Layse Sapucahy, irmã de Leandro, também sambista e produtora do CD - de um trecho de uma reportagem sobre a morte de Gabriela Prado, de 14 anos, vitimada em 2003 por uma bala perdida na boca de uma estação do metrô carioca, na Tijuca, o ouvinte aberto encontra um arranjo triste, triste do maestro Jota Moraes. "Queremos dar um basta nessa tal bala perdida que só causa dor/ Sofro quando vejo alguém perder alguém que por amor pôs no mundo pra ser mais feliz", cantam lindamente Sapucahy e Pagodinho. Estas três - Tá Tranqüilo Shock, Numa Cidade muito longe daqui e Bala Perdida - são as melhores faixas entre as 14 de Cotidiano. Nenhuma das outras é menos que boa ou foge ao título do álbum. Seja num bem-humorado elogio da família, Pai, que conta com a participação de Laerte (o pai de) e de Leozinho (o filho de) Sapucahy. Seja nas sinônimas Favela e Comunidade Carente, alerta tanto aos moradores quanto aos políticos. A primeira conta com uma canja do co-autor Arlindo Cruz e com um trecho de Alvorada, de Cartola, e diz "nem sempre a maldade humana/ está em quem porta um fuzil/ tem gente de terno e gravata/ matando o Brasil". A segunda, "nós somos carentes, não somos otários/ pra ouvir blá-blá-blá em cada eleição/ nós já preparamos vara de marmelo e arame farpado/ cipó camarão para dar no safado/ que for pedir voto na jurisdição". Sapucahy formou seu repertório com músicas que não se adequavam a outros discos de samba, nos quais atuou como percussionista e/ou como produtor. Cotidiano é surpreendentemente coeso se se tiver essa circunstância em mente. Além do bom gosto, o artista tem uma voz forte e maleável. Um instrumento de trabalho, note-se, perfeitamente adequado ao que canta. Na forma, ele ajuda a tirar o samba do beco sem saída ao qual os jovens ortodoxos lhe empurram: a reprodução virtuosa (e, não raro, fria) apenas de clássicos, em seus arranjos originais. No conteúdo, Sapucahy e seus parceiros também abrem a porta (da rua) para a auto-exaltação do gênero e para a nostalgia idílica do passado ou da vida suburbana. Seu samba é feito por, para e pelo presente. Como o caco enfiado ao final de Lábia do Zé: "Qual é seu sobrenome mesmo? Abreu? Ah... Falar nisso... E aquela galera lá do mensalão? Deu alguma coisa? E até hoje não deu nada..."

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