Samba Noir reveste de eletrônica e ousadia clássicos dos anos 50

Samba Noir reveste de eletrônica e ousadia clássicos dos anos 50

Projeto que tem como cantora Katia B investe em repertório sambista de nomes como Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2015 | 03h00

A maldição do samba deveria recair sobre a alma que tentasse tocar em sua estrutura, que ousasse chamar violão de sintetizador e tamborim de programação eletrônica. Coberta pelo manto sagrado da tradição, a entidade suprema seria assim preservada dos impuros e se tornaria imaculada em uma redoma inatingível por 100 anos.

A sorte do samba é que sua maldição, ainda pregada pelas frentes fundamentalistas, não se confirma. E, antes mesmo que ele chegue aos 100 anos – a pedra original seria a gravação de Pelo Telefone, de Donga, registrada em 27 de novembro de 1916 e lançada em 20 de janeiro de 1917 –, ouve-se mais uma prova da enriquecedora traição de gêneros.

Nas mãos de um quarteto chamado Samba Noir, o samba-canção sobretudo dos anos 50 perde a pele para ter a alma revestida por fibras sintéticas de teclados e percussão contemporânea. Não se trata de “uma leitura eletrônica” das clássicas doenças de amor. O quarteto sugere mais do que isso, rearmonizando passagens e deixando o violão de sete cordas tão cristalino ou mais do que as interferências dos teclados.

O histórico de seus integrantes desenharam o resultado por si. O canto é de Katia B, cheia de transgressões e rebeldias contra as convenções desde o primeiro de seus outros três discos. O violão de sete é de Luís Filipe de Lima, instrumentista carioca com visão de produtor que conhece bem o outro lado depois de tocar com sambistas do morro como Elton Medeiros e Bezerra da Silva. A percussão está nas mãos de Marcos Suzano, o homem que recriou o pandeiro nos anos 1990 e espanou a música brasileira que se fez a partir daquela década com sets enxutos e criteriosos. E os teclados são de Guilherme Gê, que entra com efeitos e algumas das belas rearmonizações.

O grupo fechou o disco como projeto patrocinado pela Petrobras. Por isso, faz um circuito de shows bem acessíveis pelo País para lançar o álbum. De quarta a sexta, ocupa o Teatro do CCBB a partir das 20h. A turnê acaba de passar por Brasília e segue depois para o Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre. As entradas saem por R$ 10.

O repertório faz o recorte dos sambas de fossa e conta com participações especiais de peso. Meu Mundo é Hoje, de Wilson Batista e José Batista, tem voz e guitarra de Arto Lindsay. Um exemplo de como as coisas funcionam por lá. Som muito cheio, de ritmo diluído, e todos – baixo synth, percussão, violão de sete e todos os barulhos estranhos dos teclados – fazendo linhas em direções próprias. No refrão, já é quase um jazz. A faixa Risque, de Ary Barroso, outra em tom menor, é dramatizada em novos grooves criados por baixo e teclas e cheio de sons espaciais. O piano é de Egberto Gismonti. Mais limpa, 'Volta', de Lupicínio Rodrigues, tem o vocal de Jards Macalé. E Pra Que Mentir, de Noel Rosa e Vadico, tem flauta, clarone e sax barítono de Carlos Malta.

Luis Filipe fala primeiro sobre o conceito. Afinal, o que segura a onda para que a verdade das canções, aquilo que as faz continuar sendo elas mesmas apesar de qualquer ousadia, seja preservada? “Esses sambas tinham em comum melodias com muita força, aquelas que ficam na memória com facilidade. Elas se prestam a outro tipo de moldura, de construção. O samba, a origem, o mistério, a pulga continuam ali. Ele permanece sendo o que é, mesmo quando não há nada de samba.” Marcos Suzano fala mais do conceito. “Melodicamente, são músicas para serem ouvidas à noite, com um uisquinho à meia luz. Não tem overdubs, playbacks, nada. É a simplicidade do noir, as graduações são sutis. Assim, o violão de sete fica liberto, soa mais cristalino. Assim como a voz da Katia.”

“A gente respeitou muito as melodias e eu fui muito atrás das notas, apesar das pequenas licenças. Foi uma escolha trazer para o atual com este respeito”, diz Katia B. O show é arrojado. Os músicos tocam dentro de uma estrutura em formato de caixa, de tecido transparente, com seis projetores que mostram imagens dos participantes que estão no disco, uma criação do profissional Batman Zavareze. Katia fala com tom de missão cumprida. “A gente queria mesmo essa viagem quase cinematográfica. Em Brasília, rolou muito bem.”

SERVIÇO:

SAMBA NOIR

CCBB. Rua Alvares Penteado, 112. Centro. Tel.: 3113-3651.

R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

De quarta, 15, à sexta, 17, às 20h. 

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