Samba carioca dá adeus a Jamelão; corpo é enterrado no Rio

Jamelão morreu na madrugada de sábado, no Rio de Janeiro, aos 95 anos; Rio decreta luto oficial de três dias

Marcelo Auler, de O Estado de S. Paulo,

15 de junho de 2008 | 09h08

O corpo do sambista Jamelão foi enterrado neste domingo, 15, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Portuária da cidade. Ao som da bateria da Mangueira, o caixão do intérpreto deixou a quadra às 10h30, onde estava sendo levado e seguiu para o Sambódromo, como uma última homenagem, antes do enterro. Cerca de 500 pessoas estavam em torno da quadra na hora da despedida, entre elas políticos e cantores, como a mangueirense Alcione. Jamelão morreu na madrugada do último sábado, no Rio de Janeiro, aos 95 anos. Ele estava internado desde a quarta-feira na Clínica Pinheiro Machado, em Laranjeiras, onde chegou com estado de saúde bem debilitado, vítima de infecção urinária e pulmonar.   Veja também: Jamelão, cantor símbolo do carnaval carioca, morre aos 95 anos no Rio Imagens do sambista  Jamelão é o famoso intérprete da Mangueira há mais de 50 anos   Jamelão era o mais antigo intérprete de samba-enredo do País e é o mangueirense em atividade há mais tempo, desde os anos 20, quando chegou adolescente ao Morro de Mangueira. No sábado, de luto, a escola cancelou uma feijoada que ocorreria durante a tarde na quadra, remarcando o evento para a semana que vem, agora como um tributo ao seu maior intérprete. O governador Sérgio Cabral decretou luto oficial de três dias . "Era o grande símbolo da garra mangueirense", afirmou, em nota oficial.   A voz marcante, que eternizou sambas-enredo campeões, foi lembrada por amigos. "O samba perdeu a maior voz de todos os tempos", disse o cantor e compositor Monarco. "Ele era a voz negra do país, a voz mais bonita do Brasil e o maior cantor do Brasil", lamentou a cantora Beth Carvalho. "Foi um dos maiores cantores deste país, era uma escola, todos os grandes cantores tinham admiração por ele", acrescentou o compositor e produtor musical Hermínio Bello de Carvalho.   "Para mim, se Jamelão não tivesse uma carreira tão ligada à escola de samba ele teria um reconhecimento muito maior do que teve", disse o compositor Nei Lopes. "O samba, até por questões de mercado, o deixava meio restrito ao período de carnaval. Mas ele era o maior cantor brasileiro. Assim como se mostrou o maior intérprete de Lupicínio Rodrigues, também foi o maior intérprete de Ari Barroso. Ele imortalizou Folhas Mortas."   Por causa da saúde debilitada, Jamelão já havia se afastado dos desfiles de carnaval. Nos últimos anos, vinha perdendo a memória, reflexo de um acidente vascular-cerebral. "O carnaval do Rio já não era o mesmo sem ele como puxador do samba-enredo da Mangueira", disse a cantora Nana Caymmi. Jamelão, porém, repudiava o termo "puxador" e preferia ser chamado de intérprete: "Puxador é puxador de corda, puxador de fumo, puxa-saco... Eu sou é intérprete." Tinha fama de rabugento, mas era muito querido no mundo da música. "Meu amigo Jamelão era um imenso cantor e o melhor mau humor do Brasil", declarou Chico Buarque, por meio de sua assessoria de imprensa. Chico está em Paris escrevendo seu novo romance.   "Era do tipo falso mau humorado", corrige Hermínio Bello de Carvalho. "Uma vez nos encontramos no aeroporto Santos Dumont, eu o cumprimentei, mas ele não deu a menor bola. Mais tarde, quando nos encontramos de novo, ele me disse, com um sorriso: E aí, não vai falar comigo?", recorda. "O mau humor do Jamelão era uma forma de ele se defender dos chatos, dos aproveitadores", diz Beth Carvalho.   Em outros momentos, demonstrava um lado bem espirituoso. Como na visita do ex-presidente americano Bill Clinton à Mangueira, em 1997. "Ele está mais feliz que pinto no lixo", brincou Jamelão, deixando de lado o protocolo e a reverência habituais nessas situações.   Responsável pela comissão de frente da Mangueira, o dançarino Carlinhos de Jesus também refuta a fama de ranzinza. "Ele sempre foi muito cordial", disse. "Estávamos na quadra da Mangueira, numa disputa de samba-enredo, lá pelas 4 horas da madrugada. A minha mulher disse que estava com muita fome, mas na quadra não tinha mais nada para comer. O Jamelão escutou, veio até a direção da minha mulher e trouxe um saco de papel de padaria. Dentro tinha um prato de papel com um frango assado recheado de farofa", lembra.   O compositor Wagner Tiso destacou que Jamelão conseguiu "caminhar com equilíbrio nas diversas áreas da música popular brasileira", lembrando que foi um dos grandes intérpretes de Ari Barroso.   "Jamelão era um grande mestre. O que ele tinha de fazer, fez muito bem. Um exemplo para quem está no meio do caminho e para quem está começando agora", afirmou o cantor Zeca Pagodinho. Hermínio Bello de Carvalho recorda-se da disciplina do intérprete, que trabalhou como copista de partituras e estava sempre nos locais dos shows com duas horas de antecedência. "Me lembro de um show em que a deixa para Jamelão entrar era a música Jequitibá (José Ramos/Marcelino Ramos). Ele ficava lá atrás esperando o verso, que dizia ‘o Jequitibá do samba chegou’. Ele era o verdadeiro Jequitibá do samba. O jequitibá se quebrou...".   (Com Nicola Pamplona e Alberto Komatsu, de O Estado de S. Paulo)   Texto atualizado às 13 horas

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