Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Salto para a eternidade

Depois de décadas perdidas em álcool, drogas e discos irrelevantes, Elton John está em forma para fazer um grande espetáculo

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

23 Fevereiro 2013 | 07h00

Reginaldo é um milagre. Suas mãos não são mãos de um pianista, seus cabelos não são de um popstar e seu nome jamais estaria em um letreiro no Madison Square Garden. Os cabelos caíram cedo, o abdômen saltou e ele virou um duende. Quando fez 21 anos, conheceu uma mulher 10 centímetros mais alta que poderia matar sua homossexualidade por asfixia. Ficou noivo, marcou o casamento e começou a perder o ar. Até o dia em que acordou, foi até a cozinha, abriu o gás e colocou a cabeça no fundo do forno, amparada por um travesseiro. Antes que ficasse inconsciente, o amigo Bernie Taupin chegou para visitá-lo. Ao vê-lo ali, de quatro, Bernie riu tanto que levou Reginaldo a adiar seu suicídio e a odiar-se um pouco mais. Se quisesse ser alguém, ele teria que nascer de novo.

A segunda vida de Reginaldo veio em forma de Elton John. Quando percebeu que não iria nem ao bar da esquina chamando Reginald Kenneth Dwight, pegou o Elton do amigo Elton Dean, que tocava com ele na banda Bluesology, e o John do bluesman inglês Long John Baldry, que mais tarde o aconselharia a sair do armário, e criou um novo homem. Era o começo da vida do popstar inglês que mais subiu montanhas e desceu penhascos com igual intensidade e emoção - vencendo até Eric Clapton, que também viveu seu inferno particular mas jamais enfiou a cabeça em um fogão para ver Jesus antes da hora.

Quem viu Elton John em 1980 transpirando cocaína não acreditaria que, entre seus pedidos de camarim para o show que faz em São Paulo, na próxima quarta-feira, no Jockey Club, estariam a fofura de "cinco vasos quadrados contendo cada um 16 rosas vermelhas e mais dois vasos quadrados contendo 16 rosas brancas." Quem o testemunhou paranoico em 1992, ligando sem nenhuma delicadeza para a recepção de um hotel em Londres para pedir que alguém fizesse parar de ventar nos arredores do Hyde Park, não acreditaria que ele pede Doritos e ovos cozidos para comer depois do show. O Elton John que chega ao Brasil vive dias de paz ao lado do marido, o cineasta canadense David Furnish, e dos dois filhos que conseguiu graças a uma espécie de inseminação de aluguel secreta. Era o que lhe faltava para chegar ao paraíso, conforme atesta a biografia de David Buckley, lançada em 2010, quando Elton ainda não era pai. "A única coisa que incomoda Elton e David é o fato de não terem filhos", anotou o biógrafo. Ao decidir pela paternidade, o astro fez uma ressalva: "Só me recuso a amamentar." Pai de dois rocketizinhos que são sua cara, Elton não tem mais tempo para depressões.

A história de Elton John está em seu repertório. Assisti-lo é testemunhar a glória de um sobrevivente cercado por um conjunto de 11 músicos, dentre eles os originais Nigel Olsson, baterista que Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, considera o melhor do mundo, e David Johnstone, guitarrista e spalla do grupo. Seu patrimônio de 220 milhões de libras (algo como R$ 660 milhões) foi erguido com quilos de canções sobretudo escritas ao lado de Bernie Taupin na década de 1970, e com potencial similar só visto no set list de Paul McCartney. Os dois ingleses são os únicos que podem fazer um estádio cantar por duas horas e, no dia seguinte, conseguir o mesmo feito trocando todas as canções. Mais de 450 milhões de discos vendidos em 45 anos de carreira, o pianista pop teve de brigar contra o mundo e contra si próprio, já que ambos pareciam não gostar nada de Elton John.

Sheila, a mãe, entregava leite para a United Dairies. Stanley, o pai, era militar da Força Aérea Real. Ivy, a avó, tocava piano. Era no colo de Ivy que Reg, antes de ser Elton, entendia a mágica que uma tecla poderia fazer. Aos sete anos, o pai lhe deu um LP de Frank Sinatra, Songs For Swinging Lovers, mas aí já foi demais. "Eu queria mesmo era uma bicicleta", disse, mais tarde. A mãe mudou tudo quando chegou com um disco de Elvis Presley. A corda de Elvis puxou Buddy Holly que puxou Jerry Lee Lewis que puxou Little Richards. E o garoto que saiu do meio disso tudo passou a ir para a escola com um óculos de lentes grossas para imitar Buddy Holly. Resultado: Elton teve as vistas prejudicadas e começou a usar óculos de verdade e para sempre. Seu primeiro grupo, o Bluesology, era o equivalente inglês a uma banda cover do bairro do Bexiga. Serviu para apresentar Elton à sua primeira crise depressiva. Quando bandas rumavam para os EUA em busca da unção, ele era um cantor de cabaré.

A segunda vida de Elton começou no dia em que ele colocou um anúncio nos jornais procurando por um letrista. Bernie Taupin lhe mandou uma carta e a maior parceria do pop depois de Lennon e McCartney estava consumada. Bernie mandava as letras pelo correio, Elton as musicava em casa. Foi assim que concebeu o repertório que responde por 80% de seus shows até hoje. Your Song, Daniel, Candle in the Wind, Don't Let the Sun Go Down on Me. Ao sentar-se ao piano para compor, um fenômeno deixava seus músicos intrigados. Como se as canções estivessem prontas, flutuando no ar, Elton apenas erguia a mão e as apanhava. "Eu vi ele compor Rocket Man em dez minutos enquanto eu tomava café da manhã", disse o amigo Ken Scott. Abraçado pelos Estados Unidos como um rei, algo que os ingleses demoraram a fazer, Elton só não estava feliz com um detalhe: seu piano. "Eu tinha que competir com um instrumento de 2,5 metros de comprimento. Nunca seria um Mick Jagger." Vieram então as fantasias de Pato Donald, a Torre Eiffel na cabeça e os óculos estrambólicos. Mais do que ouvir, as pessoas tinham que ver Elton John, nem que para isso ele precisasse usar uma jaca no pescoço.

Quando os punks apareceram, no final dos anos 70, Elton foi enterrado. A crítica passou a ver artistas despolitizados como seres menores e não perdoou. Abatido em pleno voo, Elton perdeu velocidade e despencou. Ele estava só. Saíam David Bowie e Lou Reed, entravam Michael Bolton e John Bon Jovi. A era dos setenta virou passado em uma noite e todos os pianos e instrumentos do mundo foram trocados por apenas um sintetizador. Elton se perdeu. Fez discos esquecíveis por anos depois de mergulhar o nariz em grossas fileiras cocaína. "Drogas, sexo e casos amorosos eram minha forma de destruição", disse. George Harrison se preocupou: "Ouça Elton, pelo amor de Deus. Vá com calma com esse pó." Irracional, poderia ter sido diagnosticado com demência irreversível no dia em que tentou mudar o guarda-roupas de Bob Dylan. "Você não pode andar por aí vestido assim, Bob. Sobe aqui que vou te dar umas roupas." A expressão de Dylan olhando paletós brilhantes foi de tragédia. As drogas não tinham mais charme algum quando Elton acumulou três distúrbios ao mesmo tempo: álcool, cocaína e bulimia. "Eu reclamava até da cor do avião."

A terceira vida de Elton começou no dia de sua internação, 29 de julho de 1990. Foram noites difíceis que o fizeram pular o muro da clínica para sentar-se na calçada e chorar antes de resolver retornar. David Furnish já era seu namorado quando decidiu fazer com ele um documentário, descrito pela crítica como um dos mais dolorosos e reveladores do pop. Tantruns and Tiaras mostra em uma hora um ano na vida de Elton John, abrindo as portas de um universo de explosões emocionais.

Em paz com o marido 15 anos mais jovem, disposto a ser pai, Elton John chegou aos anos 2000 disposto a voltar a fazer uma música que fosse maior do que o personagem. Ao entrar em estúdio, em 2001, fez o álbum Songs From The West Coast como se estivesse nos anos 70. A tríade que o seguiria, com Peachtree Road (2004), The Captain and the Kid (2006) e The Union (com Leon Russell, em 2010) esvaziaria os argumentos de que Elton John morreu em algum lugar entre 1978 e 1980. O que está aí já é um imortal.

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