Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Sala São Paulo provocou revolução musical, mas ainda há desafios

Completando 20 anos, casa de concerto foi pensada para restaurar região da Cracolândia, mas investimento não surtiu efeito

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

07 de julho de 2019 | 03h00

A música, sobretudo a sinfônica e lírica, custa caro e por isso depende do Estado para se viabilizar. Mas a política muda a toda hora. Hoje, a cultura e a música estão em baixa. Como proteger-se desses cruéis vaivéns? Para o maestro John Neschling, que em 1997 substituiu Eleazar de Carvalho na direção da Osesp, a resposta ousada foi ter uma “casa” própria para a orquestra, até então submetida a vexames como ter de se apresentar no Cine Copan literalmente infestado de baratas.

O sonho virou realidade graças a um investimento em torno dos R$ 100 milhões, bancado pelo governo do Estado. De lá para cá, outro tanto foi consumido anualmente pela Osesp e na manutenção da Sala São Paulo. Nunca neste país se investiu tanto num só projeto. 

Ousadia bem-aventurada. A música precisa ter casa própria. No caso, ambiciosíssima, que se transformou num local em que o espectador se sente como num oásis em Londres, Paris ou Nova York. A sala provocou uma revolução na vida musical sinfônica do País. Houve real elevação do patamar de qualidade. Com salários e condições de trabalho profissionais, o projeto Osesp se expandiu País afora: o maior exemplo é a Filarmônica de Minas Gerais, que, comandada por Fábio Mechetti, também inaugurou em 2015 sua moderníssima “casa própria” e mantém alta qualidade artística. 

Não me esqueço de escutar o compositor Flo Menezes repetir, na saída de um concerto de Daniel Barenboim com a Berlin Staatskapelle, que jamais ouvira Schoenberg daquela maneira. Flo saía transfigurado, como, aliás, centenas de milhares de frequentadores da sala nesses 20 anos. Este é o mais impactante poder da música: o de nos transformar. O milagre da música acontece nesse compartilhamento de sintonia entre palco e plateia. Em boa hora, a sala atraiu praticamente todos os concertos sinfônicos internacionais e a música de concerto em geral.

Nem tudo são flores, porém. A ideia original de que a sala faria renascer aquela região deteriorada da cidade deu em nada. Ou melhor, fez com que, ao contrário, ela se transformasse num bunker incrustado no coração da Cracolândia. Motoristas têm medo de ser assaltados enquanto aguardam o sinal verde do semáforo para entrar e sair da sala. Até músicos da Osesp têm medo de atravessar a avenida para ir à Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp). E os jovens bolsistas do Festival de Inverno, alojados em hotel em frente à escola, têm segurança reforçada este mês para circular nos 200 metros entre hotel, escola e a sala.

Que tal iniciar a terceira década de existência derrubando esses muros, abrir-se para o seu entorno e devolver aos habitantes da região a consciência de que têm direito a recuperar sua humanidade? Um projeto paralelo de inclusão social por meio da música pode ser uma solução viável. E não seria inédita. O Neojibá faz na Bahia e por aqui o Instituto Baccarelli alterou radicalmente a face da favela de Heliópolis com suas várias orquestras, uma delas comandada por Isaac Karabtchevsky, com direito a diversas temporadas na sala, e 1.200 alunos entre crianças e adolescentes. 

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