Sai novo CD de Zeca Pagodinho

Zeca Pagodinho tem dois jeitos de garimpar repertório. Recebe músicas de amigos de fé, como Arlindo Cruz, Monarco e Cabelinho, ou as recolhe nas rodas de samba que freqüenta nos subúrbios do Rio e adjacências. Generoso ele dá a receita do sucesso: Tem de ter músicas engraçadas, românticas e outras que façam pensar, porque é preciso refletir sobre o nosso país, ensina. Dá certo. Seu novo disco, Deixa a Vida me Levar (Universal), acaba de sair com 300 mil discos encomendados, enquanto o anterior, Água da Minha Sede, lançado há um ano e meio, vendeu o dobro e ainda não perdeu o gás. Continua pedido pelas lojas de todo o País.Por isso atrasei o disco novo. E também porque estava cansado de tanta viagem, queria ficar um pouco em casa, com a família, justifica Zeca. A casa é uma chácara em Xerém, bucólico distrito de Duque de Caxias, onde recebe os amigos compositores e onde montou uma escola de música para 300 crianças. Das reuniões com os adultos, regadas a cerveja e quitutes de Mônica, mulher de Zeca, saiu o disco Quintal do Pagodinho, lançado no fim do ano passado, com 75 mil exemplares já vendidos. Sem nenhum trabalho de divulgação. Esses compositores tinham direito de registrar seus sambas. Fiz minha parte, agora é com eles.O descaso com a escola é a única queixa desse músico sempre de astral lá em cima. Foi montada em 2000 pelo próprio Zeca, que gastou muito para ter tudo de primeira, dos instrumentos às instalações, e teria professores e manutenção pagos pela prefeitura de Duque de Caxias. Só que, passada a reeleição do prefeito José Camilo Zito, o dinheiro minguou e os 300 alunos só não foram dispensados porque o músico paga as despesas. São R$ 7 mil por mês. É muito, para mim. Já implorei à Brahma e à BR uma parceria, mas ainda não consegui nada. Não é patrocínio para mim e sim para crianças, que vão aprender uma profissão e que não têm outra opção além dessa, reclama ele. Pensei em parar, mas, quando chegaram 300 matrículas, entendi que tinha de continuar.Feita a queixa, Zeca se alegra e fala do disco. Das 14 faixas, assina só uma, a romântica Chove, É o Céu Que Chora, parceria com Mauro Diniz. Não que faltem músicas novas, mas ele recebeu tantas que ficou difícil selecionar o repertório. Os arranjos foram encomendados a craques: Rildo Hora, Paulão Sete Cordas, Mauro Diniz e João de Aquino. Não dou opinião. Eles decidem tudo e só se ficar muito sofisticado peço para mudar, conta Zeca. Mas, atenção, se são fáceis de ouvir, os arranjos são também sofisticados. É só prestar atenção aos fraseados de cavaquinhos e violões, às pitadas de sopros aqui e ali e à percussão poderosa e sutil, cheia de surpresas e viradas.As letras são crônica da vida brasileira, a partir da faixa de abertura, Meu Modo de Ser, autobiográfica, embora composta por Zé Roberto. Nela, o sambista avisa à mulher que é boêmio e não pretende mudar. Nessa linha vai Caviar, sátira aos costumes elitizados, mas também uma descrição das famosas festas na casa de Zeca. Pra Gente se Amar é uma profissão de fé no sincretismo brasileiro e hino pacifista, enquanto Tá Ruim, mas Tá Bom, descreve a vida de 90% dos brasileiros, espremidos entre o salário curto e as despesas crescentes. Já vivi muito isso, lembra Zeca.A faixa para rir é Letreiro, em que o marido ciumento conta suas agruras, enquanto Riquezas do meu Brasil samba-enredo da Portela de 1956, é ufanismo puro. Queria gravá-lo há muitos anos. Atinjo todo tipo de gente: criança, velho e até defunto. Minha obrigação é fazê-los pensar, filosofa. Não vou resolver os problemas do Brasil; acho que só Deus consegue e mesmo assim trabalhando muito. Mas posso fazer a minha parte.

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