Sai no Brasil versão de "Anna Julia" com George Harrison

Com uma pequena ajuda de alguns amigos famosos - Jon Lord, Ian Paice, George Harrison, Steve Winwood, Paul Weller e outros -, o músico inglês Jim Capaldi (ex-Traffic) produziu e agora lança seu novo disco essa semana no Brasil, pela Abril Music.Quase um carioca, já que vive entre Londres e Rio de Janeiro há mais de três décadas, Capaldi viu seu novo álbum, Living on the Outside, ganhar um interesse renovado. O motivo é óbvio: o disco traz a faixa que - curiosamente - uniu George Harrison e o Brasil no epílogo da vida do ex-Beatle: a versão de Anna Julia (clique para ouvir a música), do grupo Los Hermanos. Harrison, morto de câncer em 29 de novembro, toca guitarra na canção.Casado com Ana, uma brasileira, Capaldi volta e meia está na área. Foi assim que, um dia, parou numa barraca de água de coco e ouviu no rádio uma "canção simples, básica", fácil como as boas canções pop, avalia. Era a onipresente Anna Julia, do grupo Los Hermanos."Ao longo dos anos ouvi muita música brasileira - Sandra Sá, Tim Maia, Ed Motta", contou Capaldi, falando por telefone ao Estado. "Mas procurava algo que pudesse ter maior apelo internacional, um rock simples, parecido com aqueles dos Beatles", disse. Levou uma fita para George Harrison, vizinho dele nos arredores de Londres, que aprovou - outros vizinhos são o baterista Ian Paice e os guitarristas David Gilmour e Alvin Lee.Sua vizinhança é uma espécie de retiro VIP de roqueiros."Eu só não deixei o Ian Paice (mítico baterista do Deep Purple) tocar bateria em Anna Julia porque a pegada dele é muito forte e a música é mais calminha", contou Capaldi. Mas George Harrison, parceiro de Capaldi há muito tempo, não hesitou em participar da gravação."Foi um ano antes do agravamento da doença, ele estava OK e tocamos juntos naquele ano - depois do Traffic, foi a primeira pessoa com quem trabalhei seriamente em música", afirmou Capaldi. Algum tempo depois, Harrison chamou Capaldi à sua casa e disse. "Vamos terminar a canção". Aí, o músico já estava com uma voz cansada e debilitado, lembra.Nas notas do encarte do disco, Capaldi dá uma chicotada no hip hop, que detesta. "Embaralha" os nomes de Puffy Daddy e Snoop Doggy Dog (generalizando essas figuras como representantes do rap) e diz que eles afirmavam detestar o som de John Lee Hooker mas não tinham a menor cerimônia de samplear os discos do bluesman, e chega a oferecer um milhão se algum dias os rappers apresentarem um pensamento original."Eu quis ser engraçado com o comentário, não ser crítico - críticos não são divertidos", disse Capaldi. "O fato é que eu gosto da música que é real, que é elaborada, composta, tocada por músicos, que parte de um ponto de vista artístico, e não do que é feito apenas com um objetivo comercial", afirma.Segundo o cantor, os americanos não prestam atenção aos seus músicos mais extraordinários, o mestres do blues, como Muddy Waters, Howlin? Wolf, B.B. King e o country. "Mas, na Inglaterra, essa música foi mais reconhecida e celebrada do que em outros lugares, na música dos Rolling Stones e Led Zeppelin, no heavy metal e no pop rock", considera.Harrison e a mídia - Capaldi derruba alguns mitos e histórias que se sucederam à morte de George Harrison. Ele não crê, por exemplo, que as facadas que o ex-Beatle sofreu de um maluco que invadiu sua casa possam ter complicado sua saúde. "Bem antes do ataque, ele mostrou-me o câncer no pescoço", lembra. "Fumava demais, e tinha um histórico familiar de saúde debilitada, o pai dele tinha o pulmão fraco"Outra polêmica foi quanto ao lugar da morte de Harrison. Jornais americanos duvidaram da versão oficial e chegaram a publicar que o ex-Beatle teria morrido na casa de Paul McCartney. "Ele morreu em Beverly Hills, na casa de um amigo", conta Capaldi. "As cinzas foram espalhadas no rio, na Índia, e pouca gente esteve lá - entre elas, Ravi Shankar."Segundo Capaldi, não se deve acreditar em tudo que a imprensa diz. "Eles inventam muito", disse. Para o músico, a grande contribuição de George Harrison para a música pop contemporânea foi "a espiritualidade". E George também teve o mérito de colocar em evidência a música do Oriente, em sua opinião. "Muitas pessoas no Ocidente só começaram a olhar para a música oriental após George ter gravado suas experiências", considera.All we need is love - Capaldi disse que ama o Brasil mas que o País também o deixa triste. Não gosta de ver as crianças nas ruas. Sua mulher, Aninha, é mantenedora de uma entidade no Rio de Janeiro, a Casa da Criança, na Vicente de Carvalho, que já contou com doações de gente como John Major, a mulher de Tony Blair, George Harrison e a princesa Diana."O Brasil, como a Argentina e o Afeganistão, vive uma situação maluca, mas eu sei que é um País com grandes recursos naturais, que tem muita gente trabalhando para mudar isso", afirmou. "All we need is love", finalizou Capaldi, citando Beatles.

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