Sai lista de classificados do festival da Globo

A Rede Globo anunciou, no início da noite de quarta-feira, o nome dos 48 candidatos classificados para o Festival da Música Brasileira. As apresentações para o público vão começar em setembro. Serão quatro provas eliminatórias, que terão lugar no Credicard Hall, em São Paulo, e transmissão pela televisão, em cadeia nacional. Doze candidatos participam de cada prova. Em outubro será conhecido o vencedor. Os finalistas estarão disputando o maior prêmio já oferecido num festival desse tipo: R$ 1 milhão.O festival recebeu 24.200 inscrições, de pontos diversos do País. Dois júris foram formados para fazer a seleção prévia, num trabalho que durou três meses. Um grupo de jurados trabalhou no Rio; outro grupo, em São Paulo. Os grupos de jurados regionais também se dividiram em dois grupos, com três pessoas cada um, para que houvesse tempo de que cada música fosse ouvida. No fim do processo, os jurados juntaram-se para ouvir tudo o que havia sido selecionado e fazer a escolha, afinal, dos 48 nomes. O corpo de jurados teve absoluta liberdade de trabalho, sem pressão de qualquer espécie. Importante dizer isso pois que houvesse pressões, intervenção de gravadoras ou da emissora que produz o festival era uma espécie de fantasma que assustou a classe musical, já que os últimos festivais televisivos (e os programas musicais da televisão) tinham, assumidamente, compromissos com a indústria fonográfica. Como reflexo disso, o elenco do Festival da Música Brasileira não tem os chamados grandes vendedores. Não há axé, pagode, breganejo entre as 48 canções classificadas. Em compensação, há valsas, experimentações pop, folias de reis, festa de boi, tambor de crioula, samba de verdade, canção interiorana de sabor autêntico, jongo, baião, canção paulistana - e rap, toada, heavy metal. É possível dizer que se traçou um panorama da diversidade da produção musical brasileira.No VisaDos classificados, nove são também semifinalistas do 3.º Prêmio Visa de MPB - Edição Compositores: Dante Ozzetti, Cristina Saraiva, Sérgio Santos, Rafael Altério, Felipe Radicetti, Marcelo Biar, José Miguel Wisnik, Chico Pinheiro, Luiz Tatit. São nomes que o grande público ainda não conhece mas que têm presença e respeito naquela fatia do meio musical que trabalha com a grande tradição qualitativa, articulada, preocupada com a beleza da música brasileira. Nomes que, com a inevitável projeção nacional que a rede de televisão lhes dará, passarão a ser conhecidos. Têm qualidade e apelo popular - as duas coisas não são incompatíveis."Isso não quer dizer que o festival resolverá a questão da música brasileira, que vá tirá-la do processo de favelização em que se encontra", disse, no domingo, depois de ouvir a seleção dos jurados, Mariozinho Rocha, diretor musical da Globo. "Mas é um começo, e não adianta agora discutir sobre quem é o grande culpado sobre o processo de favelização: o que interessa é agir".Quando diz que não interessa saber quem é o grande culpado, Mariozinho Rocha está, de certa forma, assumindo a parcela de culpa que a televisão, toda ela, tem na degradação do padrão de qualidade da música popular, que já foi a mais rica do mundo - e ainda é, só que não aparece. A televisão, as emissoras de rádio, as gravadoras, a prática aviltante do jabá - o pagamento que se faz aos programadores para que toquem as músicas em suas emissoras.Círculo viciosoIsso formou o círculo vicioso perverso, do qual não se sabe como sair, ou melhor: sabe-se. Os festivais que são realizados no interior do País produzem uma espécie de reserva de qualidade, permitindo que o compositor, ou o intérprete, ao começar a tornar-se conhecido, mesmo para um público ainda restrito, viva de sua obra, sem precisar submetê-la aos famosos "critérios de mercado".Nesses festivais e em iniciativas corajosas como o Prêmio Visa de MPB vem-se formando a nova geração de autores. Grande parte dos semifinalistas do Prêmio Visa veio dos festivais do interior; além dos que estão no Visa, vários outros classificados para o Festival da Música Brasileira também firmaram carreira nos festivais do interior, alguns conseguindo chegar ao sucesso sem abrir mão da originalidade da obra, como é o caso de Chico César, que classificou seu estranhíssimo baião-blues Antinome.Os veteranos, no Festival da Música Brasileira, são poucos: Zé Renato, Fausto Nilo, Célia Vaz, Vicente Barreto, Walter Franco. Deles, só Walter Franco é mais conhecido - ainda assim porque surgiu num festival dos anos 70, não pelo que tem produzido ultimamente. São, todos, artistas que giram no circuito alternativo da música, gravando por selos independentes e divulgando a obra em pequenos shows de casas noturnas. São a reserva de qualidade da música brasileira.Participaram do júri, em São Paulo, este repórter, o jornalista Carlos Bozzo Júnior, da Folha de S.Paulo, os músicos Swammi Jr., Juca Novaes e Benjamin Taubkin e o produtor musical Helton Altman; no Rio, integravam o corpo de jurados o jornalista Tom Leão, do Globo, o escritor Eric Nepomuceno, o radialista Maurício Valladares, os músicos Gilson Peranzeta e Ruy Quaresma e o compositor Waly Salomão.

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