Sai em CD nova gravação de Mahler

Até meados da década de 1950, gravações de obras do compositor art-nouveau Gustav Mahler (1860-1911) eram uma autêntica raridade. Na década seguinte, a partir do revival promovido por Leonard Bernstein, essa música a um só tempo pós-romântica e moderna passou a contar com um número cada vez maior de intérpretes e de ouvintes. Na atualidade, as gravações recobrem tudo o que Mahler escreveu. E isso, várias vezes.Esse é bem o caso na nova versão de Des Knaben Wunderhorn (A Cornucópia do Menino), coleção de canções da qual já existe no mercado mais de vinte versões diferentes. A que está sendo oferecida agora pela etiqueta Deutsch Grammophon traz a meio-soprano sueca Anne Sofie von Otter e o barítono alemão Thomas Quasthoff, do qual a talidomida não conseguiu deformar a voz. O excelente par de cantores - ambos muito expressivos e apaixonados por Mahler - tem o acompanhamento da suntuosa Filarmônica de Berlim, regida pelo grande Claudio Abbado.Apesar de tudo estar notavelmente bem feito nesse registro, ele fica um bocado aquém daquele considerado, com justa razão, "antológico": o realizado pela divina Elisabeth Schwarzkopf e pelo colossal Dietrich Fischer-Dieskau, que trabalharam sob as ordens arquiexigentes do rebrilhante George Szell diante da Sinfônica de Londres. Mahler foi buscar em uma antologia publicada no início do século 19 por Arnim e von Brenttano os textos concebidos à maneira popular para colocar em música. Com isso, erigiu um universo para voz e orquestra que lembra um mundo adulto, ingênuo como o universo infantil. As treze canções, concebidas em sua maioria durante o período 1892-98, falam de desilusões amorosas, dos dramas de pobres soldados e de situações lendárias. E também há muito humor em algumas delas, como naquela em que surpreendemos Santo Antonio inutilmente pregando para os peixes e naquela outra em que um asno, "do alto do seu conhecimento", declara o cuco musicalmente superior ao rouxinol... Não deixa de ser uma pena que a presente edição não traga os textos poéticos, fundamentais para a fruição desses Lieder. Assim, fica-se sem saber que "os pensamentos são livres" (Canção do prisioneiro na torre) ou, então, que "não posso ser feliz enquanto todos dormem" (Canto noturno da sentinela).

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