Sai CD póstumo de Baden Powell

Ele faz um acorde e o Brasil inteiro está ali - observa Fernando Faro, produtor de Lembranças, o disco póstumo de Baden Powell que a gravadora Trama acaba de lançar. Póstumo - mas não se trata de sobras de estúdio, aproveitamento de faixas anteriormente rejeitadas. É um disco que Baden Powell fez, quis fazer, entrou em estúdio para gravar. Gravou em maio. Morreria no dia 26 de setembro, aos 63 anos.Lembranças é o primeiro de uma série de três discos que Baden faria com produção de Fernando Faro. Os outros seriam uma coleção de choros e um CD só com músicas do grande violonista e compositor. Ele tinha inéditas na gaveta. Pretendia gravá-las, ao lado de seus clássicos.Só deu tempo de fazer esse Lembranças. A idéia foi do produtor. "Juntamos as réstias da vida do Baden Powell e trouxemos para os dias de hoje", diz ele. "Lembrar da infância dele em Varre-e-Sai (a cidade no interior do Estado do Rio em que Baden nasceu), da ida para o Rio de Janeiro, do retorno a Varre-e-Sai..."Baden foi acompanhante de cantores, músico de boate e, como tal, precisava tocar de tudo. Reuniu, em Lembranças, aquilo que tocava na noite, o que mais gostava do que tocava na noite, as músicas que o formaram, que lhe forneceram os módulos de brasilidade com os quais construiria, em seguida, sua própria obra, formularia sua sintaxe. E viria a ser o maior violonista brasileiro de todos os tempos, talvez dos maiores do mundo.A propósito, em Minha Palhoça, de J. Cascata, uma das faixas de Lembranças, Baden sola a melodia (e, eventualmente, cantarola junto a melodia) usando simultaneamente a mesma nota em duas oitavas diferentes, uma técnica que consagrou os guitarrista norte-americanos Wes Montgomery e Barney Kessel - a este último, considerado um dos gênios das cordas modernas, Baden disse, certa vez, como recorda Sérgio Cabral: "Você é uma das minhas principais influências." Kessel rebateu: "Que é isso, Baden, eu é que sou influenciado por você."De fato, Baden mudou tudo o que se sabia, mundialmente, sobre violão. Deve sua maneira especial de tocar à infância passada em rodas de choro, ao trabalho, ainda adolescente, acompanhando grandes artistas do rádio, às aulas de Jaime Florence, o Meira, seu primeiro e fundamental professor (já famoso, Baden era repreendido por Meira, quando fazia um acorde com o qual o mestre não concordava). Mas foi adiante, superou o mestre, tornou-se o nome mais importante do violão internacional.É verdade que o Brasil o deixou de lado. Baden mudou-se para a Europa, nos anos 70, e, embora viesse sempre ao Brasil, tinha ambiente de trabalho mais propício lá do que aqui (nos Estados Unidos, não; conheciam-no os músicos de jazz - o ouvinte norte-americano é surdo para o que não seja norte-americano).Lembranças foi o primeiro disco que fez no Brasil, em quase 20 anos, em condições ideais. É um disco triste, de respiração contida, de poucos arroubos - um tanto diferente dos discos vibrantes que Baden gravou nos anos 70. Inevitável lembrar daquele que talvez seja seu mais brilhante trabalho, 27 Horas de Estúdio, em que, como nesse, Baden está quase sempre só, com seu violão (aqui há discreta participação especial do flautista Teco Cardoso em Pastorinhas, de Noel Rosa e Braguinha, e do percussionista Fred Prince, em algumas faixas). Naquele disco, Baden estava no auge da forma e da fama. Escolheu repertório extremamente complexo, que ressaltava, sob a inspiradíssima interpretação, a técnica extraordinária, insuperável.Aqui também a interpretação é inspiradíssima. A técnica não falha - mas não há as ousadias mecânicas de antes. Por outro lado, cada nota que soa é uma ponta de saudade, a lembrança de um amor, de uma noite especialmente feliz - isso é quase visível: a música projeta as imagens, se você souber vê-las.Compositor tão bom quanto violonista, Baden escolheu apenas duas músicas suas para compor o repertório de 11 canções de Lembranças: o Samba do Astronauta, que tem letra de Vinícius de Morais, e Falei e Disse, para a qual escreveu as palavras Paulo César Pinheiro (todas as versões, aqui, são apenas instrumentais). Preferiu homenagear seus mestres formadores: Ari Barroso (Inquietação, Maria), Meira (Molambo), Zequinha de Abreu (com a Valsa Branca, numa interpretação de fazer chorar), Leonel Azevedo (Mágoas de Caboclo), Henrique Vogeler (Linda Flor), Dorival Caymmi (Dora). São lembranças de Baden, são a história da música popular urbana, são a cara do Brasil, que Baden Powell ajudou a desenhar, para sempre.Lembranças. CD de Baden Powell, com participações de Teco Cardoso e Fred Prince. Produção de Fernando Faro. Preço médio: R$ 20,00.

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