Sai CD histórico de Elis Regina

Chamavam-se compactos os disquinhos analógicos, de diâmetro de sete polegadas, que rodavam a 33 rotações por minuto, que foram lançados, com atraso, no mercado brasileiro, em 1963. Quando tinham uma música de cada lado, eram compactos simples; quando tinham duas músicas, compactos duplos.O que saía nos compactos, em geral, era depois incluído nos elepês. Mas nem tudo ia para os elepês. Boa parte do que Elis Regina gravou em compactos ficou de fora de seus elepês (que são o que costuma aparecer na discografia oficial). Ou seja: muita coisa gravada pela cantora, cujos 20 anos de morte foram completados no sábado, estava perdido no sulco dos compactos, que já não existem mais (mesmo nos sebos mais completos, é raro encontrar um daqueles disquinhos, seja de quem for).A gravadora Universal, que teve Elis sob contrato na maior parte de sua carreira, decidiu reunir os números gravados em compacto no CD duplo Elis - 20 Anos de Saudade, que acaba de chegar às lojas. O lançamento estava, inicialmente, previsto para março. Foi antecipado, talvez porque daqui para lá esfriem-se as notícias ligadas aos 20 anos de morte da cantora.Elis - 20 Anos de Saudade foi idealizado e produzido por Marcelo Fróes, de cujo arquivo saíram as capas dos compactos (em geral, os compactos simples não tinham desenhos ou fotos nas capas; apenas uma folha de papel, com um furo no meio, para que fosse possível ver-se o rótulo) que compõem a colagem da capa do CD duplo e ilustram esta página.Mas não só de músicas extraídas de compactos simples ou duplos vêm as 28 faixas do lançamento. Havia, nos anos 60 e 70, os grandes festivais da canção, promovidos por redes de televisão. A cada edição, os organizadores dos festivais lançavam elepês com as canções finalistas. Algumas das faixas de Elis - 20 Anos de Saudade foram extraídas desses discos. Outras são sobras de estúdio - números que a cantora gravou e que acabaram não entrando na montagem final dos elepês.A edição do CD duplo mereceu cuidados. O encarte traz, em pequenos textos, informações sobre cada uma das 28 faixas. Pena que os textos (sem atribuição de crédito) sejam confusos e dificultem a compreensão das circunstâncias de gravação e lançamento dos originais. É a única falha digna de nota da produção.Porque, de resto, o CD é um tesouro. Tirando do esquecimento - da inacessibilidade concreta ? aqueles números, completa, ou chega muito perto disso, a discografia da cantora, com gravações autorizadas, ou seja, aquelas que ela permitiu que fossem lançadas comercialmente. E ela era muito exigente, como se sabe bem.Pelé - Há preciosidades e curiosidades. No capítulo curiosidades, as maiores são as duas músicas gravadas por Elis em dupla com o compositor Edson Arantes do Nascimento - sim, o Pelé, tiradas do compacto simples Pelé & Elis, lançado em 1969. São dois sambas assinados pelo jogador, dublê de compositor e violonista: Perdão, não Tem e Vexamão. São composições inocentes, de um amador, que certamente não mereceriam registro não fosse o amador quem era.Há uma questão maior, por trás da gravação: Pelé, mesmo já reconhecido como o maior jogador do futebol mundial, estava marcado por frases como brasileiro não sabe votar, por posições políticas nem sempre afinadas com a contestação ao regime militar (que predominava no meio artístico).Gravar com Pelé foi uma das muitas atitudes controversas de Elis Regina. Mas ela dizia que era melhor abrir mão de algumas convicções (e fazer algumas concessões à indústria) do que ter a voz calada pela censura. Um ponto de vista.Outra curiosidade (e outra concessão?) é a paródia Carlos Cará, sobre as canção de protesto Carcará, de João do Vale e José Cândido. O original era uma das canções-chave do musical Opinião, de 1964, estreado inicialmente por Nara Leão e depois por Maria Bethânia (de fato, a música que lançou Maria Bethânia). Carlos Cará, uma bobagem, é versão humorística assinada pelo cômico Renato Corte Real e gravada por ele, em 1965, com participação muito discreta de Elis.Mas há preciosidades indiscutíveis, como a regravação de Saveiros (Dori Caymmi e Nelson Motta), canção defendida no festival internacional da canção por Nana Caymmi, em 1966; Jogo de Roda, um samba raivoso de Edu Lobo e Ruy Guerra, defendido por Elis num festival de 1966, aqui em gravação extraída de um dos tais discos de festivais.Emocionante é a lentíssima gravação, lançada só em compacto simples, de Elis para a obra-prima Canto Triste, de Edu Lobo e Vinícius de Morais, com arranjo de Chiquinho de Morais (era o lado B de Saveiros). O CD trás duas versões de Noite dos Mascarados, de Chico Buarque: um dueto dela com o autor, de 1967, e outro com o compositor francês - que assina a versão - Pierre Barouh (sem data de lançamento, na ficha técnica), gravado em Paris. De disco gravado também em Paris, com letra em francês, vem A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran, com arranjo de Eumir Deodato.Enfim, a coleção tem altos e baixos, como a cantora teve altos e baixos, mas tem inegável importância histórica.

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