Sai biografia de Dorival Caymmi

Filha de Nana, neta de Dorival, a jornalista Stella Caymmi debruçou-se sobre a tarefa de biografar o avô, uma das personalidades mais importantes da moderna música brasileira. Recolhido, Caymmi nunca foi pródigo em entrevistas. Baiano típico, sempre fugiu de perguntas mais difíceis e escapuliu de revelar aspectos da intimidade. O acesso privilegiado que a ele tem Stella permitiu-lhe ir mais longe no exame da vida do biografado do que qualquer outro poderia. O trabalho, iniciado há exatos dez anos, rendeu um volume de 648 páginas, com 320 imagens, muitas delas raras, como a que mostra o então jovem Dorival nu, numa praia, ao lado de amigos de música e boemia.Stella gravou algo perto de cem fitas cassete, com depoimentos do avô, de seus amigos, parceiros e admiradores, gente de música, das letras, das artes cênicas, plásticas ou fotográficas, estudiosos, mecenas e Carybé, Jorge Amado, Mário Cravo, Jorginho Guinle, Joel Silveira, Sérgio Cabral, Tônia Carrero, Zélia Gattai, Braguinha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, João Ubaldo, Millôr Fernandes. Ouviu João Gilberto, o que já é um atrativo, em si.Catalogou, organizou e reproduziu páginas do diário e da correspondência de Dorival, pesquisou em jornais e revistas, levantou a discografia - curta e toda ela esplêndida - e relacionou as gravações de suas canções por outros intérpretes, no Brasil e no mundo. Traçou, ainda, uma genealogia da família, que se estende por sete gerações.O resultado é Dorival Caymmi: o Mar e o Tempo (Editora 34, R$ 75), que traz dois cadernos coloridos, um reproduzindo óleos do pintor naïf das horas vagas que seu avô sempre foi, outro para exibir as capas dos discos. Cabe lembrar que o elepê lançado em 1954, reproduzindo aquelas que seriam chamadas de canções praieiras (Caymmi foi compondo canções que falavam de mar; o conjunto delas num único elepê, de dez polegadas, a posteriori ficou sendo chamado de "Canções Praieiras": "Quem Vem pra Beira do Mar", "O Bem do Mar", "O Mar", "É Doce Morrer no Mar" e outras quatro) tem, na capa, um óleo do compositor, mostrando dois pescadores, na areia um sentado, olhando para você, outro de costas, aparentemente andando para a praia. Foi o primeiro elepê de Dorival, com acompanhamento exclusivo de seu violão - um marco. Traria uma modernidade para a música brasileira equivalente àquelas pelas quais são responsáveis João Gilberto e Tom Jobim.Preciosismo - "Dorival Caymmi: o Mar e o Tempo" é dividido em cinco partes. A primeira trata da infância, do nascimento na Rua do Bângala - que depois virou Rua Luís Gama - no distrito de Palma, em Salvador, no dia 30 de abril de 1914, até a mudança para o Rio de Janeiro, em 1938. O baiano ia tentar a sorte, como tantos outros, na capital. Neste capítulo, é tratada a ascendência - a presença negra na casa da família, o avô, Enrico Caimi, que veio de Milão para trabalhar na construção do Elevador Lacerda, a participação no carnaval, o trabalho como jovem jornalista, o primeiro conjunto musical.O Rio de Janeiro da década de 30 é o assunto da segunda parte. Caymmi morou em pensões, no centro do Rio, conheceu o conterrâneo Assis Valente, passou pela revista "O Cruzeiro", trabalhou nas três grandes rádios da capital - a Tupi, a Nacional e a Mayrink Veiga - e alcançou o sucesso quando Carmem Miranda gravou "O Que É Que a Baiana Tem?". Na terceira parte, urbaniza-se o compositor, começa a compor samba-canção, freqüenta a intelectualidade, torna-se amigo de Jorge Amado, Carlos Lacerda, Samuel Wainer, Jorginho Guinle e outras figuras proeminentes das artes, da política, do mundanismo, também.Quais as relações de Caymmi com a bossa nova? Ele teve influência na criação do movimento? Foi fonte de inspiração, foi absorvido por ela? Essa é a questão central da quarta parte da biografia, que trata de seus contatos - sua amizade - com Tom e Vinícius e João Gilberto e fala de suas viagens ao exterior. Por fim, o livro vai aos filhos de Caymmi, fala de seu retiro em Minas Gerais, das festas merecidas pelos 70, pelos 80 anos.O pesquisador Jairo Severiano lembra, no prefácio: "Um intuitivo, dotado de excepcional musicalidade, ele ouviu desde cedo Debussy, Fauré, Mozart, Bach e Gershwin, apreciou os refrões pitorescos de Sinhô, encantou-se com o folclore fantástico de sua terra e, no campo da literatura, enfronhou-se nos escritos de Neruda, Drummond, Manuel Bandeira e dos dois Jorges, o Amado e o Guillén. Sem imitar ninguém, reelaborou todas essas influências e criou o seu estilo original e único." Salienta, ainda, com a autoridade de quem é o maior pesquisador da música brasileira: "Não tendo antecessores, nem sucessores, imprimiu sua marca inconfundível em tudo o que fez (....). Não se filia a nenhuma escola, corrente ou modismo. Sua música independe do tempo, soando atual em qualquer época, como soava nos anos 50, quando foi incorporada pelos cultores da bossa nova. É absolutamente atemporal."No entanto, Caymmi sempre foi cuidadoso com datas (os prazos - o tempo que leva para pôr ponto final em cada canção, essa é outra história, um tempo regido por seu ritmo interno, preciosista, conciso, econômico, contendo nem uma palavra ou nota a mais ou a menos do que o estritamente necessário para a definição de uma obra-prima). Por isso, a introdução do livro fica assim: "São 18h29 de quarta-feira, 6 de novembro de 1991. Rua Souza Lima, Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil." Foram as primeiras palavras que Stella Teresa Aponte Caymmi, nascida na Venezuela, onde Nana, a mãe, morava, gravou, dando início à feitura da biografia. É Stella quem prossegue, no segundo parágrafo: "Com essas palavras formais - bem ao gosto do meu avô, que ama a precisão -, num cantinho da casa, eu começava esse ambicioso projeto." Ela conta que o avô aprendeu violão sozinho. "Seu pai tinha um violão e um bandolim napolitano, cheio de fitas, que ficava exposto na sala de visita. Durval tinha ciúmes de seu violão. O que ele não desconfiava é que o filho costumava pegá-lo, escondido." O fato é que, quando o pai descobriu, o adolescente Dorival já sabia tocar algumas músicas. Um tio resolveu dar-lhe lições, ensinar nome dos acordes. Dorival gostou da coisa, juntou um dinheiro, comprou o método do violonista Canhoto (Américo Jacomino, um dos pais do violão brasileiro).Canhoto é autor do clássico (quase que exclusivamente violonístico) "Abismo de Rosas". Foi um revolucionário, em seu tempo. Mas Caymmi não lhe seguiu os cânones. Gostava de modificar os acordes, alterar as harmonias. É assim que, desde o primeiro momento, o futuro compositor seguia caminhos próprios. Da mesma forma como usou a linguagem dos poetas e escritores modernos para criar a sua linguagem narrativa, também estudou o violão formal de seu tempo para modificá-lo com personalidade apoiada em conhecimento de causa.O livro de Stella Caymmi desce a detalhes mínimos - a fantasia usada numa determinada festa, o olhar de certa moça bonita, a reflexão conduzida pelo olhar perdido no horizonte marinho - e produz uma narrativa que, se não analisa tecnicamente a obra do avô, conta admiravelmente bem a história de um gênio que, ciente da genialidade, procurou - e conseguiu - levar uma vida quase comum, sem estrelismos, sem grandes excentricidades. Explica, sobretudo, a peculiar noção de tempo de Dorival Caymmi: seu tempo é o tempo de sua obra, de exatas 102 composições; o tempo de sua obra é o limite de sua perfeição.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.