Ruy Cooder é o responsável pela fama da música cubana

É da síndrome do colonizado cultural: assim como o Brasil só redescobriu, ou descobriu, a originalidade de Tom Zé depois que o músico pop norte-americano David Byrne lançou uma coletânea sua nos Estados Unidos, só se passou a prestar atenção (todo mundo, o mundo todo) à música cubana - aqui, caso explícito de redescoberta - depois que o guitarrista também norte-americano Ry Cooder foi a Cuba e produziu o CD Buena Vista Social Club. Num e noutro caso, a intenção dos colombos musicais era, em princípio, diferente. David Byrne comprou uns discos, meio aleatoriamente. Levou Tom Zé no balaio. Ry Cooder ia gravar, em Cuba, um documentário sobre música étnica, com músicos de várias partes do mundo. Os estrangeiros não foram. Como já estava lá, Cooder sondou, chegou aos veteranos e deu-se o Buena Vista. Em 1995, a gravadora brasileira Velas assinou um acordo com a gravadora estatal cubana Egrem para lançar aqui os títulos originais produzidos em Cuba. No pacote estavam, entre muitos, Compay Segundo, Eliades Ochoa e outros participantes do Buena Vista, disco e posteriormente filme (de Wim Wenders). Algum tempo depois da assinatura do acordo, a Velas lançou um pacote de música cubana - pacote desordenado, com coisas boas e ruins, sobretudo mal divulgado e distribuído. Se a imprensa brasileira deu pouca bola àquele primeiro pacote, também a Velas não prosseguiu lançando os tesouros que tinha em mãos. Sim, mas, agora, Compay Segundo, Eliades Ochoa, Ibrahim Ferrer, Rubén Gonzalez, Ramón Veloz, Roberto Sánchez e outros integrantes da velha-guarda da música cubana são nomes internacionais. São, portanto, os nomes que ilustram o novo pacote cubano da Velas, já nas lojas. São quatro CDs: Chanchaneando - La Primera Version del Chan Chan, com Eliades Ochoa, , Cuarteto Patria e Compay Segundo; Compay Segundo - Grandes Exitos, com participação especial de Pio Leyva e Cuarteto Patria; Indestructible, com o pianista de Rubén Gonzales à frente de um quinteto; e a antologia Raices Cubanas, de que participam os artistas acima e ainda Ibrahim Ferrer, María Teresa Vera, Septeto Inacio PiÏeiro, Frank Emilio e outros mais, muitos deles já mortos. O septeto do contrabaixista Ignacio PiÏeiro, por exemplo foi fundado em 1927, e seu formato definiu o som dançante feito por pequenos grupos, na ilha, e María Teresa Vera formou, nos anos 40, uma das mais importantes duplas de música tradicional - duas vozes e dois violões - com Lorenzo Hirrezuelo. Na antologia Raices Cubanas eles aparecem cantando Veinte Aïos, de María Teresa. Não há indicação da data de gravação. O copyright da Egrem, que montou a antologia, é de 1998. Posterior, portanto, ao disco produzido por Ry Cooder. Abstraídas as questões extramusicais, são preciosidades, mesmo que a qualidade do som continue deixando a desejar. Os boleros, cancións, chachachás, descargas de Rubén Gonzales em Indestructible arrepiam a mais insensível alma - a mágica veloz e delicada de seu fraseado, tão imitada, continua inigualável, original. Melhor ainda é ouvir Eliades Ochoa e Compay Segundo, duas vozes e as cordas dedilhadas ou rasqueadas do Quarteto Patria, no Chanchaneando. A faixa de abertura é exatamente o Chan Chan de Francisco Repilado, música que mais marca no disco de Cooder e no filme de Wenders. Porque a gravação do Buena Vista, em que pese sua qualidade técnica (e não há por que levantar dúvidas quanto à honestidade de intenções do guitarrista norte-americano), peca exatamente pela presença musical de Cooder - e de seu filho, que toca percussão na banda. Lá vem mais uma defesa da pureza e da tradição - pode dizer alguém. Pode ser. O fato é que o fraseado bluesy, branco, de Cooder, sob aquela melodia negra, aquela expressão de tristeza tão específica, provoca um inevitável desconforto. É um corpo estranho. Percebe-se, é verdade, que Ry Cooder teve, de fato, a preocupação de gravar o Buena Vista o mais próximo possível da versão original do repertório (e nesse pacote há muitos pontos de coincidência). Mas não se furtou à pequena intromissão de sua guitarra (talvez fosse mesmo querer demais).Em todo caso, é possível afirmar que o pacote da Vela-Egrem não estaria hoje nas lojas se não fosse o Buena Vista. Os próprios textos dos encartes aludem o tempo todo ao disco produzido pelo norte-americano. Pois bem: ouçam-se um e outros.

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