RPM ressuscita com disco de hits e turnê

Não se Reprima, dos Menudos, era o que mais se ouvia nas rádios em 1984. Na Rede Globo, a sensação era a novela Partido Alto, de Glória Perez. João Baptista Figueiredo, sufocado pela gritaria das "Diretas-já", contava os minutos para deixar a Presidência. E as Olimpíadas de Los Angeles serviam como o calmante para o turbulento ano político.A música pop feita em território nacional também deixou sua lembrança em 1984. Sorria de saudades ou escárnio, mas o fato é que ninguém foi mais importante para a indústria fonográfica da época que o grupo RPM. No fim da era do vinil, seu Rádio Pirata ao Vivo vendeu 2,6 milhões de cópias. A marca foi recorde no Brasil até 1988, quando o Xou da Xuxa - 3 foi comprado por 200 mil pessoas a mais.Não importa o quanto as novelas e a politicagem tenham mudado nestes 18 anos. O RPM vai voltar exatamente como era em sua formação original e louco para fazer o mesmo barulho. Em março, eles gravam, em um teatro de São Paulo, um projeto especial que está sendo produzido pela MTV. Em abril, o programa será exibido e um disco novo registrado durante a apresentação será lançado pela Universal. Haverá poucas músicas inéditas e muito revival. Será o retorno, em versões novas, de Louras Geladas, Rádio Pirata, London London e Olhar 43. Na seqüência, os rapazes sairão com 20 shows pré-agendados pelo País. O empresário será Manoel Poladian, o mesmo homem forte dos tempos em que cada disco lançado lhes garantiam uma turnê de 250 shows pelo Brasil afora.Embora o cheiro de resgate via Acústico MTV já paire no ar, a emissora deixa claro que o projeto será diferente. O disco não sairá com os selos "Acústico" ou "Ao Vivo". Embora seja gravado durante o show, será retrabalhado em estúdio.Requentar bandas dos anos 80 para lhes entregar o paraíso é uma jogada na qual a MTV se especializou como nenhuma gravadora multinacional. Em 1997, os Titãs caíram em suas graças e faturaram mais de 1,5 milhão de cópias de um Acústico MTV. Em 1999, foi a vez do Capital Inicial ressurgir do nada. Seu álbum desplugado vendeu mais de 900 mil cópias e os convites para shows voltaram em enchurrada. O Legião Urbana, no ano passado, foi beneficiado pelo mesmo fenômeno. Ainda que fora de atividades desde a morte de Renato Russo, um CD duplo mas sem novidades, vendido ao preço médio de R$ 40, atingiu a marca das 1,2 milhão cópias."No mínimo, vai rolar um sucesso grande. As pessoas me param na rua para perguntar quando o disco sai. Os sinais que me chegam mostram que as coisa vai ser grande", empolga-se o guitarrista Fernando Deluqui.Drogas e egos - Foi um coquetel de drogas, egos inflados e falta de rumo que enterrou o RPM em 1989. O esquizofrênico Quatro Coiotes, lançado em 1988, tentou subverter o sucesso com um tipo de rock experimental cabeça, mas teve o efeito de um tiro no próprio ouvido.O tecladista Luiz Schiavon, o baterista Paulo "P.A." Pagni e os homens da frente Paulo Ricardo e Deluqui já não morriam de amores uns pelos outros e o fracasso nas lojas - 250 mil cópias nada significarm perto das 2,6 milhões do disco anterior - foi insustentável.Nenhum dos músicos era um santo quando o RPM subiu ao palco para o show de lançamento da banda, na inauguração do videoclube paulistano Zoom Cósmico, em 1984. Mas as viagens lisérgicas pioram. "Houve uma época que era aquela coisa de estar trancado no quatro enquanto todo mundo se divertia. Eu estava de saco cheio, a vida é alegria. As drogas não foram o fator principal para que o RPM acabasse. Mas, sem dúvida, contribuíram para que a gente não avaliasse com clareza o que estava acontecendo. As outras bandas trabalhavam, o pessoal da gravadora estava cobrando", lembra o guitarrista.Os anos que sucederam a diáspora do RPM foram de nostalgia para alguns e trabalho para outros. O baterista P.A., que nunca esteve mesmo no centro das atenções, sumiu de cena de vez e foi fazer rock alternativo com bandas undergrounds. O tecladista Luiz Schiavon abriu uma produtora de jingles e criou uma dezena de trilhas sonoras para novelas da Globo.Paulo Ricardo e Fernando Deluqui bem que tentaram levar os negócios da empresa RPM adiante. Com o nome de Paulo Ricardo e RPM, a dupla lançou dois discos que não evitaram o naufrágio definitivo. Desfeita a união, Paulo saiu-se de cantor romântico e Fernando Deluqui se juntou aos Engenheiros do Hawaii, de Humberto Gessinger, que já não vinha bem das pernas depois do estouro no início dos anos 80.Deluqui então foi procurar ajuda para se limpar das drogas. "Freqüentei até o A.A. (Alcoólicos Anônimos)." Limpo, saiu dos Engenheiros, montou um trio e lançou um disco independente. O projeto lhe garantiu shows nos últimos dois anos, mas nada comparado à visibilidade que tinha com os ex-amigos. Seu segundo álbum-solo, pronto para ser lançado pela mesma Universal Music, pode ser mais feliz que o primeiro. Pop até o extremo e repleto de riffs roqueiros, sairá em fevereiro melhor produzido e com sucessos radiofônicos em potencial, como a canção Vaca, em que satiriza a produção em larga escala de "bundas music".A distância que quase duas décadas permitem para que seja feita uma análise fria e objetiva sobre o fim do RPM o faz pensar assim: "O RPM acabou como acabam as grandes bandas. Por que os Beatles acabaram? Por que os Rolling Stones acabaram? Esgota, acaba a fonte criativa."

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