ROY WHITE
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Roy Rogers, a guitarra mais rápida do Sul dos EUA, traz seu blues a São Paulo

Bourbon Street vai receber, no próximo dia 25, o guitarrista de blues que passou quatro anos ao lado de John Lee Hooker

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2019 | 06h00

O calibre mais rápido do Mississippi responde pelo nome de Roy Rogers. Não é o mesmo Roy Rogers do Velho Oeste, o ator e cantor que fez mais de cem filmes sobre o lombo do cavalo Trigger, capaz de acertar moedas na cabeça de um inimigo sem necessariamente machucá-lo. O Roy aqui é outro, tão sagaz quanto seu xará, capaz de incendiar o salão de blues sem riscar um fósforo. Aos 68 anos, tem a mão direita mais fulminante do Sul dos Estados Unidos (ok, depois da morte de Johnny Winter ficou mais fácil) sobretudo quando coloca sobre o dedo mindinho um tubo de vidro ou acrílico chamado bottleneck, que quer dizer exatamente o que diz em inglês, a forma como foi concebido pelos bluesmen contemporâneos a Robert Johnson, seu precursor: o “pescoço das garrafas” deslizados sobre as cordas para produzir um efeito chamado slide que, bem tocado, se torna avassalador.

Rogers fez daquilo que para muitos guitarristas como Warren Haynes e Mick Taylor é um recurso sua razão de existir. Seu slide guitar atingiu um apuro técnico de precisão impressionante – acertar as notas sem a delimitação dos trastes leva anos de prática – e construiu uma carreira pouco conhecida no Brasil mas cheia de pontos altos. Alguns deles foram narrados pelas críticas dos jornais e revistas especializados: “Rogers mostra performances ardentes, emotivas e espirituais”, disse o The Washington Post. “Roy Rogers representa a maestria na arte da guitarra moderna... Sua versatilidade com a técnica é nada menos do que surpreendente”, escreveu o All Music Guide. “Isso não é um deslize de mindinho, é uma máquina do tempo. Com isso, Rogers transporta você para o passado e para o futuro do Delta do Mississippi ” considerou a Guitar Player. “Um dos raros heróis da guitarra”, anotou a Rolling Stone.

Rogers vem para uma apresentação no Brasil dia 25, uma terça-feira, no Bourbon Street. Na condição de ex-integrante da Coast to Coast Band, de John Lee Hooker, nos anos 1980, e como líder de sua própria The Delta Rhythm Kings, com mais de 20 discos lançados e muitas colaborações, ele traz o baixista Steve Ehrmann (conhecido por tocar com gente como Lightnin’ Hopkins, o gaitista Charlie Musselwhite, Elvin Bishop e Coco Montoya), e o baterista Kevin Hayes, de São Francisco, cheio do suingue que marca o som do blues Motown de Robert Cray, com quem tocou por 20 anos (ele também aparece em discos de John Lee Hooker, B.B. King e Van Morrison).

Rogers falou ao Estado sobre sua carreira. Seu primeiro impacto com um slide veio dos primórdios, ao ouvir um bluesman que, dizem, vendeu a alma ao demônio e se deu bem até o dia em que o tinhoso veio lhe cobrar a dívida. Depois de fazer um show, em 1938, Johnson bebeu um copo de whisky envenenado com estricnina, supostamente preparado pelo dono do bar, ainda feroz por saber do flerte do blueseiro com sua mulher. “Quando ouvi pela primeira vez uma gravação de Robert Johnson, fiquei fascinado pelo som da guitarra slide! Depois disso, descobri e ouvi muito os discos de Elmore James, pude ver Muddy Waters e Howlin’ Wolf ao vivo com suas bandas, e também Bukka White, Johnny Shines e outros. Mas eu não escutei apenas slide guitar – todos os tipos de música me influenciaram.” Parcerias como a que fez com o gaitista Norton Buffalo e o violinista paraguaio Carlos Reyes provam o que diz. “Eu amo solos de sax no jazz, e assim criei meu estilo. Estilo, para mim, é algo que acontece com o passar do tempo, você apenas continua tocando e escutando.” 

Muitos guitarristas consideram o slide guitar algo limitador, tornando frases que fariam com as mãos livres quase impossíveis. Rogers se irrita com isso. “Absolutamente, não é! Qualquer limitação está apenas em sua mente.” Para ganhar a agilidade incendiária de seus blues, ele muitas vezes abre as afinações, usando a sequência das cordas de forma diferente. “Eu uso uma multi-afinação, geralmente com tudo aberto em sol ou em mi.” Um detalhe técnico que, na prática, permite que toque mais à vontade, com muitas cordas soltas.

John Lee Hooker foi um marco em sua história. Morto em 2003, aos 86 anos, o bluesman era uma espécie de santidade no gênero desde 1948, quando lançou Boogie Chillen. Voz de trovão e mãos de pedra, seu tempo interno jamais obedecia o tempo do próprio blues, algo que ficava mais nítido quando tocava seu violão sozinho (tentar reproduzir o que ele fazia, apesar de jamais sair dos três acordes básicos do blues, era uma missão impossível). Então, cabe a Rogers a pergunta: como ele, um músico branco com o tempo interno bem delimitado nos moldes do blues tradicional, lidou com a imprevisibilidade rítmica de John Lee Hooker por quatro anos, quando esteve em sua banda? “Eu fui convidado para tocar guitarra rítmica, substituindo um tecladista, o que posso dizer que foi a minha sorte. Depois dos quatro anos a seu lado, acabei produzindo seus discos. Entrar no tempo rítmico de John Lee Hooker não era difícil desde que você o sentisse.”

Outro gigante que esteve a seu lado foi o gaitista Norton Buffalo, um dos maiores de seu instrumento. “Eu não posso dizer coisas boas o suficiente sobre ele”, diz Rogers sobre o amigo, morto em 2009. “Sinto muito sua falta. Ele tocava praticamente qualquer tipo de música e era um grande ser humano, daqueles que se preocupavam com as pessoas ao redor.”

Mais uma vez, um músico de front coloca a “culpa” de tudo no dínamo, a força motriz gerada por uma junção de propriedades físicas e extrassensoriais gerada quando o baixista e o baterista fazem seus instrumentos se tornarem um só. A tal cozinha foi mencionada há poucos dias, durante a apresentação de Stanley Clark no Rio Montreux Jazz Festival. “A bateria é o instrumento mais importante de um grupo”, disse. Agora, Roy Rogers fala algo parecido ao responder o que sustenta sua sonoridade nas alturas. “Tudo começa com o groove”, ele diz, sobre o suingue criado pelo “pessoal de trás”. “Ele é supremo em todas as músicas. Melodia e letras são ótimas, mas se você não estiver groveando, você não terá nada. E tudo começa com o baixo e a bateria tocando juntos (ele sublinha essa palavra, juntos).” Por fim, Rogers responde se o blues estaria em crise. “Não, mas o negócio da música está. Todos estão tentando se ajustar aos novos paradigmas. A mudança sempre acontece, mas a mudança atual não é tão simples de ser analisada. Felizmente, a performance ao vivo não saiu de moda. Pelo menos, ainda não.”

ROY ROGERS 

Dia 25 (terça), às 21h30 

(abertura da casa: 21h). 

Bourbon Street 

Rua dos Chanés, 127 5095-6100  

Preços: de R$ 125 a R$ 145

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