Rostropovitch: músico excepcional e grande figura humana

Qual terá sido o maior Rostropovitch? O violoncelista extraordinário para o qual Prokofiev, Shostakovitch, Britten, Dutilleux e muitos outros escreveram peças fundamentais no repertório do século 20? O pianista que, ao lado da soprano Galina Vishniévskaia, sua mulher, gravou preciosidades do repertório camerístico? O regente de estilo muito pessoal, que esteve à frente da Sinfônica de Washington e, entre muitas coisas admiráveis, deixou excelentes integrais das sinfonias de Tchaikovski e de Shostakovitch, de quem foi um dos mais íntimos amigos?A essa pergunta não sei responder e, de qualquer modo, sobre essa questão vão se debruçar os que, nos próximos dias, farão o obituário de Mstislav Leopóldovitch Rostropovitch, que morreu de câncer, nesta sexta, 27, em Moscou, pouco dias depois de fazer 80 anos - data celebrada na capa da revista Gramophone, à qual remeto o leitor. O que quero evocar, aqui, é a figura humana do indivíduo que, numa das fases mais agudas de repressão - o endurecimento neo-stalinista do governo Brejnev - foi um dos poucos a não se calar; e a pagar caro por esse destemor. Quando Aleksandr Soljenitsin foi expulso da União dos Escritores, por ter escrito O Arquipélago Gulag, denunciando a estrutura dos campos de concentração para presos políticos, Slava e Galina o acolheram em sua datcha (casa de campo). E Rostropovitch escreveu, em defesa do escritor e de vários outros artistas atingidos pelo longo braço do Estado, uma carta aberta ao Pravda - que o jornal russo não publicou, mas que foi estampada com todo destaque pelo The New York Times de 16 de novembro de 1970. Ao pedido de que Soljenitsin fosse readmitido na União dos Escritores, Slava (apelido de Rostropovitch) juntava a denúncia do absurdo da proibição da Lady Macbeth do Dis-trito de Mtsensk, de Shostakovitch; da publicação da poesia de Joseph Brodsky; ou de um grande filme como Andrei Rubliov, de Andrei Tarkovski.A primeira vez que Rostropovitch e Vishnievskaia vieram ao Brasil, eu os entrevistei para o Jornal da Tarde, no dia 29 de julho de 1978. E deles ouvi o relato de todas as humilhações, pressões, traições dos amigos a que foram submetidos por causa disso; e que culminaram, na primavera de 1974, na autorização para que eles saíssem da URSS. Dois dias depois de sua saída, porém, a cidadania soviética do casal e de suas duas filhas foi cassada. Quando estiveram no Brasil, eles viajavam como apátridas, com um passaporte especial que lhes tinha sido fornecido pela Casa Grimaldi, de Mônaco.Assim que a situação mudou, eles voltaram à Rússia. Empenharam-se vivamente no processo de revitalização da vida musical russa, na conturbada fase pós-soviética. Entre outras coisas, a Fundação Rostropovitch-Vishnievskaia comprou, em São Petersburgo, em maio de 2002, o apartamento nº 7, da Marat Ulitsa, para ali instalar um museu. Gesto de gratidão e fidelidade, pois foi nesse apartamento que Shostakovitch morou entre 1917 e 1936. A medicina ocidental tinha a lhe oferecer os recursos mais modernos. Mas foi para Moscou que Rostropovitch escolheu voltar. Ele morreu na terra russa. E vai repousar no cemitério de Novodiévitchi, onde estão enterrados outros grandes músicos e artistas russos.

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