Guilherme Samora
Guilherme Samora

Ronnie Von presenteia amiga Rita Lee com gravação da canção ‘Só de Você’

Cantor e apresentador é amigo da cantora desde os anos 1960; clipe foi realizado na exposição sobre a artista, no MIS

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

02 de fevereiro de 2022 | 05h00

Para Ronnie Von, Rita Lee é Ritinha. E foi para celebrar a amizade de mais de 55 anos que ele topou entrar em um estúdio de gravação – ambiente em que ele se tornou figura rara desde o final dos anos 1990 – para registrar uma canção. Trata-se de Só de Você, parceria de Rita com Roberto de Carvalho lançada pela cantora em 1982.

A ideia inicial era de que a gravação fosse apenas um presente de aniversário de Ronnie para Rita – que em 31 de janeiro completou 74 anos. Um CD foi enviado à homenageada acompanhado pela orquídea Cattleya Lc Ronnie Von, espécie que leva o nome dele. Trata-se de uma flor de pétalas púrpuras e estrias amarelas. 

Rita havia pedido a flor ao amigo: “A muda não queria florescer. Escrevi uma cartinha para enviar junto na qual eu dizia que ela tivesse paciência que as flores iriam abrir”.

Porém, um amigo de Ronnie, o músico e produtor Donny Silva, do Studio 8, sugeriu que ele fizesse uma embalagem especial que ia além de um papel celofane e fitas coloridas: uma gravação. Ronnie topou, sobretudo depois que ouviu o arranjo, algo “Broadway”, como ele define, gravado com sopros e cordas.

“Achei uma delícia ouvir o príncipe (apelido de Ronnie) cantar Só de Você. Melhor que isso, seria dançar com ele a noite toda. Pode apostar que desta vez não vou perder meu sapatinho de cristal...”, diz Rita ao Estadão, por meio de sua assessoria.

Entretanto, Ronnie cantando Rita, por toda história que os dois artistas carregam juntos, ganhou força. Até mesmo por incentivo de Rita. Virou single e um videoclipe, disponíveis desde terça, dia 1.º de fevereiro. Nada planejado. “Comigo as coisas acontecem de forma absolutamente inusitada”, diz Ronnie.

Na gravação, realizada na exposição sobre a vida de Rita que desde setembro de 2021 ocupa o salão principal do Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo, Ronnie diz que percebeu um sentimento diferente, algo que ele define como uma “devolução da juventude”. 

Já era madrugada quando Ronnie, de 77 anos, diz que começou a conversar com um dos manequins que representam a cantora na mostra – e eles foram impressionantemente confeccionados por Chico Spinosa à imagem e semelhança de Rita: “O diretor Rodrigo Righetti deve ter pensado que eu estava maluco. Mas é isso. Você acaba por se envolver emocionalmente de forma muito intensa. Nesse dia, estava conversando não apenas com o manequim, mas com as estrelas, a lua...”, conta.

 A amizade entre Ronnie e Rita pode ser mesmo definida como um céu estrelado, em uma daquelas noites agradáveis de verão que tudo o que se quer é que ela não termine. O que os uniu, claro, foi a música, em especial, o rock’n’roll feito pelos Beatles.

Os dois se conheceram em um sarau, na casa de amigos em comum, em 1966. “Era a menina mais bonita que eu já vi na minha vida, deslumbrante”, define Ronnie.

Por coincidência, Rita mandou para o Estadão uma mensagem que também ressalta a beleza do amigo. “O que mais balançou minhas pernas foi a beleza física de Ronnie. Mas o gato era casado e a mulher dele, um amor. Na próxima encarnação, já sei o que vou fazer”, escreveu a cantora.

O pretexto para se encontrarem novamente foi o álbum Revolver, lançado pelo quarteto inglês em 1966, que o pai de Ronnie havia trazido do exterior. Nele, estava a faixa Eleanor Rigby, que mesclava rock e música erudita – um dos desejos musicais do cantor.

Nessa noite, segundo Ronnie, Rita disse que estava desmanchando o conjunto que participava, batizado de O’Seis, para formar um trio com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias. Ronnie, à procura de um nome melhor que Os Bruxos, olhou para uma mesa ao lado do sofá, e viu o livro O Império dos Mutantes, de Stefan Wul. Estava, assim, batizado um dos grupos mais emblemáticos do rock brasileiro.

Depois de uma passagem malsucedida pelo programa Jovem Guarda, como Rita conta em sua autobiografia lançada em 2016, Ronnie abriu as portas de seu programa na TV Record para Os Mutantes.

Na primeira apresentação juntos, mostraram justamente a canção Eleanor Rigby. Rita, já sabendo da preferência do amigo, tocou, no mesmo dia, a Marcha Turca de Mozart. Um ano depois, Os Mutantes participaram do LP Ronnie N.º 3

“Eu fiquei muito agarrado a esses meninos. Eu queria levar o surrealismo para a música. E eles também. E os caras (empresários) me mandaram gravar A Praça, que era bonitinha, mas não tinha nada a ver comigo. Não sou saudosista, mas esse tipo de lembrança me faz bem. É a minha história”, diz.

Ronnie deve estrear, em março, o programa Além do Vinho, no canal Sabor & Arte, ligado ao Grupo Bandeirantes. A atração vai falar de enologia, geografia, questões humanísticas, viagens, gastronomia e botânica – temas caros ao apresentador.

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