Ronnie Von, entre vitórias e dilemas, completa 70 anos

Uma conversa franca com o cantor e apresentador, no dia de seu aniversário

Entrevista com

Ronnie Von

Julio Maria, Emanuel Bomfim, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2014 | 15h15

Ronnie Von pensou por muito tempo que não passaria dos 56 anos. Uma idade para ele emblemática – a idade que tinha seu avô quando partiu, deixando um vazio gigante. Nesta quinta-feira, 17, o homem que brigou com a família para ser cantor, que rejeitou a superfície da Jovem Guarda para criar sua própria corrente e que pagou o preço do descaso por não se render ao espelho faz 70. Em entrevista ao Estado é à Rádio Estadão, ele fala de seu momento, de rock and roll e denuncia: “É preciso muito dinheiro para se fazer sucesso no Brasil.”

Qual a vantagem de se fazer 70 anos?

Não sei ainda, mas vou descobrir (risos). É uma idade muito emblemática para minha geração. Antes, uma menina de 30 anos era uma senhora. Um homem de 30 era um senhor. E, de repente, eu achei que não iria passar dos 56. Meu avô morreu com 56 anos, era um homem muito bem sucedido na vida. Eu era menino e tinha uma ligação afetiva muito grande com ele. Eu fiquei mal. Quando fiz 60, vieram os consolos: “Lembre-se, Roberto Marinho criou a TV Globo depois dos 60”.

Perde-se a segurança aos 70 anos?

Inseguro eu sou por ofício. Não conheço quem tenha abraçado esse ofício (de comunicador) que seja seguro. A insegurança no nosso meio é sempre presente. Construí um patrimônio, mas quanta coisa eu tenho para fazer ainda... Você não tem ideia. Aí, mais conselhos: “Mas seu pai tem 97 anos, joga xadrez e ganha de você”. Tá, mas eu não sou o meu pai. Aí falam que a tia da minha mulher tem 102, só veste Chanel e toma champanhe. Tudo bem, se eu chegar lá, vou ficar muito contente.

O rock tem idade para ser vivido com mais profundidade?

A devolução da minha juventude veio com essa meninada que descobriu na internet a minha fase psicodélica, e que na época foi um fracasso. A garotada começou a escrever: “Tio Ronnie é rock and roll na veia. É psicodelia pura”. Uma que eu não gostava muito era: “Tio Ronnie é o primeiro emo” (risos). Rock é atitude, música é algo muito forte, é o que aproxima o homem da divindade. Minha paixão é música do século 18. Adoro os clássicos americanos, gosto de jazz. Agora, se você colocar hoje para mim um Little Richards, um Bill Halley, para mim é absolutamente atual, é como se eu estivesse com 11 anos de idade. Olha, me perguntaram o que era elegância. Minha mãe dizia que elegância é não fazer o ser humano sofrer. Ok, concordo. Elegância é também uma coisa que vem de dentro, é o encontro com a gente mesmo. E o rock faz isso, ele está dentro de você. Vivo o rock como vivia, só que de uma forma mais comportada. Na minha juventude eu usava camiseta jeans branca, de preferência furada, e um casaco preto com uma bobagem qualquer escrito nas costas. Não ando mais assim, garanto a você, mas o espírito é o mesmo.

Você é um ouvinte mais nostálgico ou acompanha as novidades?

Eu ouço as novidades todas por dever de ofício, nós temos esse tipo de comprometimento. Claro que eu tenho aquela coisa mais paleontológica. Eu acho que não fazem mais o que faziam antigamente, com a mesma qualidade. Aí dizem que é coisa de saudosista, de dinossauro. Tudo bem, mas eu acho que não fazem mesmo. As preocupações hoje são mercadológicas, pura e simplesmente. Como você vai imaginar um movimento musical hoje? Hoje é grana, meu irmão, não tem conversa.

Você está falando do jabá? (Pagamento feito para que artistas sejam executados em rádios e apareçam em programas de TV).

Eu parei de gravar em função disso. Hoje, para você fazer sucesso nesse país de forma musical, tem que despender muito dinheiro. Muito. Não é pouco não, é muito. A menor proposta que meu filho músico teve – que, desiludido, foi embora para os Estados Unidos – foi de R$ 5 milhões para que sua carreira fosse administrada. Esse é o número. E sabe o que o senhor (que fez a proposta) disse para mim? “Talento não tem a menor importância.” Se você não tem um investidor para pagar esse jabá, não sai do lugar. Você patina, porque as músicas não vão tocar no rádio.

Você fala R$ 5 milhões para se tocar em rádio, dar visibilidade?

Visibilidade. E isso é só o começo da brincadeira. Só existem hoje duas correntes musicais no Brasil. O sertanejo, que acho profundamente discutível, que é música urbana. E o funk. Agora, você vai dizer, ah tudo bem, só tem esses dois segmentos. Não, eles são mais caros! Se você for pop, é mais barato. Se for rock, aí é bem mais barato ainda.

Você está dizendo que existe uma lista de preços?

Tabela de preços, claro. Sertanejo é caríssimo. Se é funk, bota dinheiro nisso.

E o público não tem o direito de saber mais sobre isso?

Mas eu denuncio no meu programa, meu diretor fica doido. Ele está aqui na minha frente, com a mão na testa. Mas se eu não fizer, quem vai fazer? Isso é um compromisso que tenho com a cultura nacional e social também. A arte tem um preço, é o trabalho de uma pessoa. Mas o processo inverso? O pintor pagar a você para você botar o quadro na sua casa? Isso não tem sentido.

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