Divulgação
Divulgação

Rolling Stones revisitam o blues que uniu Mick Jagger e Keith Richards em novo disco

"Tudo o que sempre quis dizer é: o disco é um sonho finalmente se tornando realidade", diz Keith Richards sobre o álbum 'Blue & Lonesome', a ser lançado nesta sexta-feira, 2

Pedro Antunes , O Estado de S. Paulo

01 Dezembro 2016 | 06h00

Com uma guitarra nas costas, o garoto de 17 anos viu, naquela estação de trem de Dartford, cidade no extremo leste da Grande Londres, outro rapaz com dois discos debaixo do braço. Keith Richards ficou encantado com os álbuns que Mick Jagger, aos 18, levava consigo. 

Rockin’ at the Hops, de Chuck Berry, havia sido lançado em 1960, um ano antes daquele encontro. O outro era uma coletânea de Muddy Waters, o pai do Chicago Blues, subgênero nascido do Delta Blues com a adição da eletricidade das guitarras e baixos, piano e até instrumentos de sopro. 

A história não é novidade. Assim nasceu uma das maiores parcerias da história da música e uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Tudo pelo blues daquele sul de Chicago impresso naqueles dois discos. Cinquenta e cinco anos após aquele encontro, depois de tantas pedras rolarem pela história daqueles dois, a voz de Jagger e a guitarra de Richards se encontram no mais puro blues. 

Nasceu, de forma despretensiosa, Blue & Lonesome, o novo disco dos Rolling Stones, o primeiro em 11 anos, desde A Bigger Bang. O álbum chega ao mundo todo nesta sexta-feira, 2. A ideia era criar um álbum com músicas inéditas, tal qual o antecessor, responsável por trazer a banda em turnê para aquele que foi o maior show da carreira deles, na praia de Copacabana, para 2 milhões de pessoas. A grandiosidade das canções para multidões se apequenou. No lugar das novas canções, as velharias empoeiradas. Ao enfrentarem o monstro que é a criação, optaram por relaxar com um ou outro blues que formam a pedra fundamental da identidade sonora dos Stones. 

A primeira testada foi Blue and Lonesome, de Memphis Slim e popularizada por Little Walter, sugerida por Richards. Aos poucos, as articulações das mãos do guitarrista já gastas pelos anos voltavam a desenhar pelo braço do instrumento que o acompanha há quase seis décadas. “Vamos fazer agora um Howlin’ Wolf?”, sugeriu Richards, na sequência. A experiência de tocar um blues para soltar cabeça e corpo para as novas composições foi mais do que um escape. 

Em Blue & Lonesome, Jagger e Richards prestam uma devida e bonita homenagem por inteiro para o gênero que os uniu. Em meio a tanto acaso, tantos trens e plataformas pelas quais eles poderiam passar, se trombaram naquela manhã de outubro de 1961 para mudar o rumo da história. E se o blues não estivesse ali, na guitarra de um e nos discos do outro, a história seria outra. 

Com ‘Blue & Lonesome’, o primeiro disco de estúdio desde 2005, Rolling Stones prestam homenagem aos grandes nomes do blues, como Little Walter e Howlin’ Wolf

A raiz dos Rolling Stones é funda e fincada em um terreno fértil ao sul de Chicago. Por lá, nos bairros de população prioritariamente negra, passaram Muddy Waters, Eddie Taylor, Willie Dixon, Howlin’ Wolf, entre tantos outros, em pequenas e esfumaçadas casas de shows. O cinza industrial da capital do Estado norte-americano de Illinois e a miséria nas periferias superpovoadas pelo contingente que chegava do sul dos Estados Unidos conferiram ao blues um caráter urbano. Nasceu o conhecido Chicago Blues, subgênero no qual estão as primeiras fontes bebidas por Mick Jagger e Keith Richards – Ron Wood e Charlie Watts, embora apreciadores do blues, têm outras referências primárias.

Blue & Lonesome, o mais novo disco dos Rolling Stones, é uma passagem direta para a origem de uma banda que, mais de 50 anos depois de soltar os primeiros acordes de blues em showzinhos para quase ninguém, ocupa um posto inalcançável dentro da hierarquia do rock – ao seu lado estão os Beatles, mas a inclusão de qualquer outro grupo será exagero. 

E, diferentemente dos Beatles, os Stones estão ali, na ativa. E em forma. Se não colocam nas lojas nesta sexta-feira, 2, um álbum de inéditas, como era o plano inicial do quarteto inglês, quando passaram a se reunir no estúdio    British Grove Studios, eles se dispuseram a se aventurar pela própria história. 

“Esse disco é uma homenagem aos nossos blueseiros favoritos, às pessoas que nos fizeram querer tocar música”, disse Jagger, em entrevista cedida ao Estado pela gravadora Universal Music. “Foi essa a razão para montarmos uma banda. Sempre fomos devotos do blues. E ainda é isso que estamos fazendo”, conclui. Richards, mais bem-humorado, escancara a própria alegria ao registrar as 12 canções que integram Blue & Lonesome. “Então, 50 anos depois, enfim, fizemos um disco de blues.” 

Não é a primeira vez que versões do gênero ganham vida com os Stones. Desde o disco de estreia, que leva o nome do grupo, I Just Want to Make Love to You, de Willie Dixon, mostrava que o blues havia atravessado o Atlântico e ganho uma versão rejuvenescida na Inglaterra. Foi com Jagger, Richards e companhia, por exemplo, que Little Red Rooster, outra de Dixon, liderou as paradas inglesas em 1964. “Nenhuma banda havia pego uma música de blues e colocado nesse espaço de destaque antes”, lembra Richards. “Tudo o que sempre quis dizer é: o disco é um sonho finalmente se tornando realidade.” 

De fato, 54 anos depois de estrearem no palco do Marquee Club, em Londres, os Stones completam um longo ciclo de experimentações sonoras, de discos psicodélicos e outros pop, alguns dançantes, outros grandiosos. Fizeram de tudo – faltava justamente o álbum de um blues puro, sem firulas. “É uma experiência acompanhar os Stones revisitando esse material do início da carreira, depois de tantos anos de vivência”, diz Don Was, o produtor que acompanhou as gravações da banda e assina o disco. “Eles deram uma emoção totalmente diferente daquela de quando tinham 22 anos”, reconhece. 

Em outubro de 2015, no estúdio, enquanto passavam horas na tentativa de desatar uma canção inédita, Richards virou-se para o companheiro de guitarra Wood. “Vamos tocar Blue and Lonesome?”, propôs. Todos toparam. “É sempre bom fazer um aquecimento no estúdio com algo que conhecemos.” Jagger completa: “Tínhamos algumas músicas inéditas, mas um dia desses cansamos dela, algo que fazemos com frequência. Fizemos um blues, depois outro, depois outro”. 

O blues, enfim, veio naturalmente. “Algumas dessas coisas, eu não tocava desde o tempo em que tocávamos em clubes e é incrível”, garante Richards. “Eu não sei se preciso lembrar dessas músicas. Porque não preciso lembrar delas. Meus dedos vão se lembrando. Existe uma liberdade bonita nisso tudo.” 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.