Rolling Stones, 40 anos

O ponto de partida é uma estação de trem em Dartford, na Inglaterra. Rick olha para o lado e vê nas mãos de Michael, amigo dos tempos de jardim de infância, os álbuns ´The Best Of Muddy Waters´, do blueseiro americano, e ´One Dozen Berries´, de Chuck Berry. "E aí Mick, como vão as coisas? Onde conseguiu estes discos?", puxa papo o interesseiro Rick. Naquela manhã de outubro de 1960, o trem que apontou na estação inglesa foi outro. Keith ´Rick´ Richards e Michael ´Mick´ Jagger colocaram os Rolling Stones nos trilhos dias depois do encontro. Quase dois anos depois, no dia 12 de julho de 1962, faziam seu primeiro concerto em Londres, no Clube Marquee. Entre sexo, drogas, rock-and-roll, prisões, mortes, quartos de hotel, estrada e muitas pedras rolando eles completam este ano quatro décadas de história. E vão festejar com o lançamento de uma caixa recheada com discos de gravações ao vivo e canções adormecidas em estúdio há muito tempo. O material que será aproveitado é o que não foi usado nos álbuns oficiais. A idéia dos próprios Stones é finalizar o projeto para vê-lo nas lojas em setembro. Em planejamento está ainda uma série de shows pela América do Norte, que deverão apimentar ainda mais as comemorações. Rolling Stones deve ser mesmo o assunto do ano. Jagger continuará os trabalhos de promoção de seu disco ´Goddess in the Doorway´, na praça há três semanas e gravado com auxílios de Bono Vox, Lenny Kravitz, Rob Thomas e Pete Townshend. O favor que Thomas lhe fez será retribuído com uma participação no disco de sua banda, Matchbox 20. Jagger cantará a música ´I Got a Disease´. Ron Wood passará o primeiro semestre trabalhando em regime dobrado. ´Not For Beginner´s´, seu novo álbum-solo, será lançado nos Estados Unidos esta semana. Não há prazo para chegada ao Brasil. Entre os dias 8 e 12 de dezembro, foi realizada uma série de shows em que Wood, já com repertório novo na ponta dos dedos, foi acompanhado pelo guitarrista Slash, ex-Guns´n Roses. E de Wood há mais notícias. O velho amigo de guerra Rod Stewart, conhecido nos tempos em que as paradas americanas sofriam com a invasão britânica dos 60´s, bateu em sua porta com uma proposta interessante. Segundo o site especializado Dotmusic, eles confabulam a volta do The Faces, antológica junção roqueira que o Black Crowes não enjoa de copiar. Não se sabe se o nome da nova empreitada será Faces mesmo. Mas há informações de que a primeira aparição com a nova formação está marcada para o festival inglês Glastonbury, em junho. Guerrilhas de egos quase pôs tudo a perder Keith Richards, a uva passa, também não quer viver só de efemérides. Segundo sua empresária, Jane Rose, ele compõe e grava músicas no porão de sua casa, em Connecticut, sem se preocupar com prazos para colocar um disco novo na praça. Com muita cautela para que novos boatos sobre uma dissolução do grupo não volte a infestar o universo, Jane faz questão de salientar: "A prioridade dele é o Rolling Stones". O sempre zen Charlie Watts está tranqüilo. Acaba de fazer uma série de shows em Tóquio com sua big band de jazz. A mesma que trouxe ao Brasil, em 1992, quando se tornou o primeiro stone a pisar em território nacional para tocar. Não há discos para serem lançados, e nem precisaria. Watts se realiza apenas fazendo shows e liberando sua veia jazzística com os companheiros. Os Stones deixaram há muito de ser só uma banda de rock. A dinheirama que entra na conta da "empresa" é surreal. Só para se ter uma noção, imagine que em 1999, durante a turnê ´Bridges to Babylon´, 575.500 pessoas compareceram a apenas dez apresentações do grupo pela Europa. Os cachês são segredo de estado, mas sabe-se que a turnê ´Bridges to Babylon´, de 1998, chegou ao Brasil valendo US$ 10 milhões. Com tanta fartura, quem está dentro dificilmente sai. Para os especialistas em Rolling Stones está aí, nas cifras, o segredo de tamanha longevidade. "A coisa cresceu de tal maneira que virou mesmo uma empresa. Ficou tão grande que não pode acabar de uma hora para outra", diz Nélio Rodrigues, autor do livro ´Os Rolling Stones no Brasil - Do Descobrimento à Conquista, 1968 - 1999´ (Editora Ampersand), lançado no início do ano e já exportado para Holanda e Estados Unidos. Nem sempre foi assim. Antes de se tornar a potência que é o grupo perdeu cabeças importantes por causa das guerrilhas de ego entre Jagger e os outros integrantes. Brian Jones, em 1969, saiu do grupo com o consentimento de todos. Seu envolvimento com as drogas já atrapalhava sua atuação no palco e suas desavenças com Jagger já eram públicas. Pouco mais de um mês depois de deixar a banda, foi encontrado morto, afogado na piscina de sua casa. As razões de sua morte permanecem obscuras. Mick Taylor, seu substituto, que havia tocado com o John Mayall e os Bluesbreakers, ficou só até 1974 por também não suportar os mandos e desmandos de Jagger, a falta de profissionalismo nos ensaios e a guitarra estridente de Richards. A última baixa stoniana foi em 1993. Bill Wyman, o baixista, descontente com o rumo que a música dos amigos tomara, anunciou sua retirada e lançou-se em aventuras solitárias. Já Keith Richards, embora sabida suas freqüentes batidas com o parceiro, não pensa em deixar a firma. É melhor olhar para o lado, compor um disco solo aqui, outro ali e deixar que o milionário trem de Dartford siga seu caminho.

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