Jotabê Medeiros/ AE
Jotabê Medeiros/ AE

Roger Waters traz efeitos colossais da turnê 'The Wall' ao Brasil

Repórter do 'Estado' adianta como deve ser o show revelando bastidores de apresentação no Chile

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo,

05 de março de 2012 | 10h08

SANTIAGO - Helicópteros parecem se aproximar ferozmente, e o som quadrafônico espalha o rugido dos motores pelo estádio, enquanto explosões pontuam toda a extensão do telão. Uma réplica de um avião de guerra da Royal Air Force desce da torre de iluminação e colide com o muro, como se estivéssemos dentro de um Vietnã portátil. Logotipos da Shell e da Mercedes caem no abismo junto a símbolos como a estrela de Davi, a cruz católica. Um retrato de Mao Tse Tung é estilhaçado na tela, assim como outros de aiatolás e generais. Nos tijolos do muro (de 137 metros de largura), fotos de centenas de retratos de perseguidos políticos.

 

Dificilmente se verá um show visual mais impressionante do que esse em 2012. Custa US$ 200 mil por dia (R$ 340 mil), segundo disse ao Estado o chefe de produção da turnê, Chris Kansy. The Wall, do Pink Floyd, vai encher o Morumbi nos dias 1º e 3 de abril com 70 mil pessoas por dia (ainda há ingressos para o segundo). É um titã tecnológico. Seis torres gigantes de som circundam o público. Marionetes colossais de mais de 100 metros de altura contracenam com a banda. Um muro continental é construído e demolido.

 

Ópera-rock de 1979 do grupo britânico Pink Floyd, revisitada sob a batuta do seu compositor, o baixista Roger Waters, levou 80 mil pessoas em duas noites ao Estádio Nacional de Santiago, sexta e sábado. Idealizada há três décadas para espaços fechados, agora foi repaginada para estádios e arenas gigantes. "Dedico esse show a Victor Jara, e a todos os torturados e desaparecidos", discursou Waters em Santiago. O dramaturgo e poeta Victor Jara foi torturado e fuzilado pela ditadura Pinochet em 1973.

 

A atualização política do show é tão vertiginosa quanto a metralhadora que Waters dispara na segunda metade do concerto. Uma das canções foi dedicada ao brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia britânica com 9 tiros em 2005, ao ser confundido com um terrorista (Waters chega mesmo a cantar seu nome improvisadamente dentro de um verso).

 

"Há 32 anos, quando escrevi The Wall, acreditava que era minha história. Agora vejo que é algo maior, é de todas as pessoas que lutam contra a guerra. Abarca temas amplos e a luta do indivíduo contra a autoridade", afirmou, em entrevista coletiva.

 

Se o leitor puder, não perca o show: a reportagem visitou suas "engrenagens" no Chile, a convite da produção, e ficou estupefata. O interior do Estádio Nacional virou um hotel 5 estrelas, com buffets gigantescos, lounges, bunkers de produção local e internacional – no Chile, 400 pessoas trabalhavam no backstage, 160 delas chilenos. Leva 6 dias para montar o circo inteiro.

 

De cidade em cidade, a produção treina corais de meninos de instituições carentes para o coro de Another Brick in the Wall Part 2. No Chile, 16 garotos enfrentaram o boneco gigante do professor fascista criado pela mente delirante do artista visual Gerald Scarfe. Os "tijolos" do muro gigante, que atravessam o estádio de lado a lado, são de papelão especial. Segundo Kansy, que já trabalhou com o U2, o maior inimigo do show é a chuva, embora 40% do muro esteja coberto.

 

A coordenação de vídeo é inédita. Slogans em forma de grafites são bombardeados e repetidos no telão. "Big Brother is watching you", diz um deles. A palavra "Capitalism" e Coca-Cola viram sinônimos. Durante a execução de Thin Ice, surge o retrato da figura que motivou a obra de Waters, seu pai, Eric Fletcher, morto em 1944 durante um bombardeio em Anzio, Itália.

 

O show tem um intervalo de 20 minutos entre a parte um e a parte dois. É um tempo bom – no intervalo, vestidos com as fantasias de soldados fascistas, os rapazes da banda tiravam fotos com fãs e suas namoradas no backstage. Um dia antes do show, no Chile, Waters pediu para se encontrar com a guapa Camila Vallejo, líder dos estudantes revoltosos de Santiago. "A educação deveria ser igual para todos", disse. Em La Moneda, sede do governo, pediu ao presidente Sebastián Piñera para ver a sala onde Salvador Allende se matou, acossado pelos militares.

 

O filho do baixista, Harry Waters toca acordeon ao final do show, com o muro destruído – toda a banda junta, no palco, faz uma versão acústica de Outside the Wall, que parece música havaiana. Waters toca trompete. É aí que se vê que foram necessários três guitarristas (incluindo o veterano Snowy White) e um cantor para fazer a parte do ausente mais sentido do show – o guitarrista David Gilmour.

 

Roger Waters definiu a ópera-rock como "o meu bebê". Gerada na época em um clima de autoindulgência, megalomania e clichês políticos. The Wall era para ser hoje uma velharia, mas sua advertência contra todos os tipos de totalitarismo – máquina de vilania em pleno funcionamento – ressurge com desconcertante atualidade. Com o reforço daquele que talvez seja o maior cinema da atualidade.

 

Roger Waters parece mais desafiador. Não está pelo mundo a passeio. O show parece respirar vida nova com essa disposição. O baixista deu declarações bombásticas sobre a disputa pelas Malvinas/Falklands entre argentinos e britânicos. "As Malvinas deveriam ser argentinas", disse, acrescentado que sente mal estar com tradição colonialista de seu país. Outro britânico, Morrissey, também já chegou chutando o balde. "Todos sabem que as Malvinas pertencem à Argentina". As declarações de Waters e Morrissey contribuem para tirar Cristina Kirchner do isolamento. Buenos Aires bateu o recorde sul-americano de um show em uma única capital, 9 seguidos. "Acho que vou alugar um apartamento em Buenos Aires", brincou o produtor Chris Kansy. "Vou ficar mais tempo lá do que tenho ficado em minha casa."

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