Rodrigo: onda de suicídio e consumismo na Argentina

No quilometro 25 da autopista Buenos Aires-La Plata os carros circulam a 140 Km/h. Cruzam a estrada quase atropelando os milhares de fanáticos que, dia após dia, se reúnem ao redor do improvisado santuário erigido em memória do cantor Rodrigo "El Potro", morto no local mês passado. Os fanáticos reunidos choram e rezam. Alguns fazem oferendas ao espírito do cantor: flores, fotografias e rosários misturam-se a garrafas e latas de cerveja, a bebida preferida do ídolo. Por todos os lados, comerciantes vendem, entre outras "recordações", camisetas com a imagem do cantor (US$ 20) e cópias de sua carteira de identidade (US$ 5). Há dois dias, na província de Santiago del Estero, uma garota de 18 anos se enforcou em sua casa, desesperada com a morte do ídolo. Na semana passada, outras duas adolescentes, de 12 e 16 anos, também cometeram suicídio, pelo mesmo motivo, nas províncias de Tucumán e Córdoba. No descampado que cerca a rodovia, em meio às rústicas cruzes de madeira, alguns peregrinos cantam e dançam "quartetos". Este gênero musical que funde tarantelas e pasodobles, nascido há quarenta anos nos bairros operários da provínicia de Córdoba, foi o meio utilizado por Rodrigo para conquistar a capital argentina em menos de seis meses. Com uma maratona de shows e entrevistas para a televisão argentina, Alejandro Rodrigo Bueno, 27 anos, chegou ao ápice da fama. Sua morte, dia 24 de junho, desatou o que os comentaristas chamaram de "festival mediático". A televisão multiplicou as imagens do rapaz e duas semanas depois continuava alimentando a idéia de um suposto atentado: diziam ser possível a participação de um outro veículo no acidente. Musimundo, a loja de discos líder no mercado argentino, informa que passou a vender, por dia, 500 álbuns de Rodrigo. Antes do acidente, a mesma empresa vendia 45 discos no mesmo período de tempo. O matutino La Nación informou que o cemitério privado Las Praderas, nos arredores de Buenos Aires, onde o cantor foi enterrado, elevou o preço dos jazigos. "Merchandisings, diários, revistas, discos: o negócio da morte", estampou em sua capa a revista semanal La Primeira de la Semana. A imprensa comparou Rodrigo a outros ídolos mortos prematuramente, como James Dean, Lady Di e, principalmente, o mítico cantor de tangos Carlos Gardel, morto em 1935, também no dia 24 de junho, em acidente aéreo na Colômbia. Um refrão popular na Argentina assegura que "Gardel canta cada dia melhor". Muitos comentaristas acreditam que Rodrigo não irá merecer o mesmo bordão.

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