Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Rodrigo Campos faz de seu 2.º disco obra memorável para abrir 2012

'Bahia Fantástica' supera 'São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe', de 2009, com um horizonte mais amplo

Ramiro Zwetsch, ESPECIAL PARA O ESTADO

16 de dezembro de 2011 | 22h00

Tão longe, tão perto: a movimentação geográfica motiva e define a música do compositor e cantor paulista Rodrigo Campos. Seu segundo disco, Bahia Fantástica (previsto para o primeiro trimestre de 2012), surgiu de uma inspiração improvável - um lugar distante, praticamente desconhecido do músico, uma ficção de cartão postal. É a história inversa de São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe, de 2009. As canções narram experiências vividas de fato durante a infância e juventude no bairro periférico de São Paulo: a morte de amigos, a sinuca da quarta-feira, etc. Mesmo assim, o distanciamento foi importante - só depois que se mudou para Pinheiros é que as composições começaram a brotar. "Eu já tinha saído de São Mateus, mas a sensação ainda era muito viva porque eu compus essas músicas no primeiro momento que eu saí de lá. Comecei um processo de lidar com aquela saudade, com aquela distância. Eu estava tirando São Mateus de dentro de mim", elucida Rodrigo.

Estranho no ninho, sem família nem namorada e tampouco amigos mais próximos, o período que sucedeu o lançamento do primeiro disco foi de uma certa depressão criativa. "Eu percebi que ainda saía coisas sobre São Mateus, mas de um jeito mais subjetivo. Eu não queria mais falar da periferia de um jeito tão cronológico", lembra. "Só que eu não sabia que isso era um disco ainda, eu só estava compondo e tal. E aí eu fui pra Bahia."

A viagem foi rápida, uma semana e meia. Foi o suficiente para interferir profundamente no processo criativo de Rodrigo. "Sempre tive preconceito com isso. Minha atitude como músico sempre foi aproximar aquele som que eu gosto do meu cotidiano. Às vezes eu via esse movimento de sambistas que moravam em São Mateus falando da Lapa, de não sei da onde... ‘Porra, os caras moram aqui e ficam falando da Lapa’. E de repente me vi falando da Bahia."

Rodrigo Campos aponta no front dos novos compositores da música brasileira como uma das apostas mais certeiras. Seu novo disco consegue superar o primeiro com um horizonte mais amplo. Seus arranjos são matadores. Ao fazer música, conta histórias com temáticas cinematográficas. É um cronista cheio de groove.

Dez dias intensos

Esqueça a Bahia de Dorival Caymmi. Ela virou do avesso sob a leitura de Rodrigo Campos, compositor de São Paulo, 36 anos vividos entre a cidade de Conchas e dois bairros da capital. Ele não passou mais do que dez dias intensos na terra de João Gilberto e voltou impregnado. "Isso foi em dezembro do ano passado. Fiquei 10 dias no quarto do Vinícius de Moraes, na casa dele, do jeito que era. Uma mulher comprou a casa e a incorporou ao hotel dela. E manteve o quarto do jeito que era, a mesma disposição dos móveis, muito louco: a banheira da pra uma sacada e você enxerga o mar. Dei o maior rolê, nunca tinha ficado tanto tempo na Bahia."

O músico conta e canta Cinco Doces - faixa que tem todo jeito de primeira do repertório do disco Bahia Fantástica, previsto para o começo de 2012 e que, dá para apostar, será lembrado como um dos melhores do ano que vem. O C2+Música acompanhou a mixagem do trabalho e o conjunto de 12 canções de fato impressiona. Vindo de um comentado disco (São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe, de 2009), a lente de Rodrigo mudou completamente o foco e o enquadramento. Antes as composições eram sambas que vinham da experiência biográfica dos três aos 26 anos no bairro periférico da zona leste paulistana - com lugares, memórias e personagens com seus nomes reais. Agora, as letras são delírios sobre um lugar mais imaginado do que vivido. O cavaquinho, tão presente no primeiro disco, ficou em casa e o compositor levou ao estúdio referências do soul norte-americano, sobretudo de Curtis Mayfield e da banda Funkadelic.

Sua banda traz cinco excelentes instrumentistas, que são também compositores e arranjadores: o guitarrista Kiko Dinucci, o saxofonista Thiago França, o baixista Marcelo Cabral, o baterista Maurício Takara e o tecladista Maurício Fleury. O time completo ainda tem Gustavo Lenza e Romulo Fróes como produtores.

"Nesse disco, todos os riffs base já vinham do meu violão, eu compus pensando em riffs de soul. Só que eu não sou do soul, então sai outra coisa, naturalmente. O soul é uma sensação", explica. "O disco não soaria tão coeso se não fosse essa banda, todo mundo compondo junto. A gente ensaiou e veio tocar, isso que você ouviu é todo mundo tocando junto." O que antes era documentário em forma de samba, agora é ficção de groove coletivo - mas ainda é cinema, marca indelével da narrativa do compositor.

Entre um disco e outro, Rodrigo Campos também experimentou uma solidão nunca vivida nos tempos de São Mateus. Morador do bairro de Pinheiros há dez anos, ele se separou da cantora Luisa Maita logo depois do lançamento do primeiro CD. "Desde que eu tinha saído da casa dos meus pais, sempre tive namorada. Foi a primeira fase da minha vida que eu realmente fiquei só e, então, eu pensei muito na morte", explica, rindo, bem resolvido com o assunto e reconciliado com Luisa - sua acompanhante, inclusive, na viagem à Bahia. "Quando eu virei adulto, não acreditava em mais nada - paraíso, reencarnação. Comecei a encarar a morte assim: ‘um dia vou morrer e é isso, o tempo que eu tenho é esse e pronto’. Quando pintou o assunto, eu sabia que não daria pra narrar como no primeiro disco, que é meio crônica. Bahia Fantástica é todo sensorial, todo subjetivo, tentando falar sobre o incompreensível. Houve uma busca pela subjetividade, mesmo tendo personagens." E cantarola os primeiros versos de Aninha, que começa num clima soturno antes de refogar num calor reggae: "‘Ana vai morrer em 10 Minutos / Sobra pra contar tempo de Ana / Ana vai morrer, não tem problema / Todo fim de tarde, Aninha morre’. Como que é isso, ‘morrer todo fim de tarde’? Essa morte é metafórica."

A morte é metafórica, o groove é coletivo, o soul é uma sensação, a Bahia é imaginária - mas nada é mais fantástico do que o próprio resultado do trabalho. Escoltado por uma banda tão inspirada quanto colaborativa, Rodrigo Campos aprimorou seu processo criativo e elevou ainda mais o seu já alto nível de composição.

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