Rodolfo lança seu primeiro álbum sem os Raimundos

Quando o roqueiro Rodolfo abandonou o Raimundos em junho do ano passado, dizendo que não tinha o perfil para uma banda como aquela - ele havia se tornado evangélico em janeiro -, muitos esperaram a transformação dos arrependidos. Aquela do tipo em que o sujeito fica sempre nos extremos: de astro do rock regado a orgias a fundamentalista para quem tudo é pecado. Não foi o que aconteceu. Rodolfo abdicou de um grupo consolidado no cenário pop nacional e mudou a atitude e o discurso, mas não abandonou a música. Um mês após sua saída dos Raimundos, começou a compor com o amigo e DJ Bob. Montou uma banda, a Rodox, entrou em estúdio em setembro e agora lança seu primeiro disco-solo, Estreito, pela Warner."Não vou colocar um terno e pregar dentro do ônibus com a Bíblia na mão", diz Rodolfo. "As pessoas e a mídia acham que, se você for roqueiro, tem que ser doidão, e se for religioso, é fanático. Precisava de uma virada assim. Mudar de vida." A saída abalou as relações com os ex-companheiros. Só Canisso ainda mantém contato. "Os outros cortaram relações. É uma opção deles." O novo estilo de Rodolfo não se adequava à rotina que era estar nos Raimundos. As músicas do grupo também não combinavam com ele. "Não me identificava mais. Só canto aquilo que eu vivo."E são exatamente as letras a grande mudança no novo disco. Os Raimundos sempre contaram com a condescendência da mídia por conta de seu som "sem compromisso", à la Ramones. Rodolfo decidiu se embrenhar em terreno pantanoso: temáticas sociais e letras inspiradas na Bíblia. Rodolfo nega estar pregando, mas as letras agora têm "moral da história", a maioria serve como desabafo, como em Olhos Abertos, que abre o disco: "E hoje, finalmente, na minha mente você não respira mais/ parasita, como o que vive na barriga forma de vida mais antiga de cinta liga / atitude prostituta". Mas se Rodolfo não acerta a mão nas letras, o mesmo não se pode dizer do som.O líder dos Ratos do Porão, João Gordo, sempre disse considerar o Raimundos uma banda pop apesar do peso do grupo. De fato, o hardcore feito pela banda era sob medida para as rádios. O mesmo acontece com o disco de Rodolfo, com o adendo de que seu som é melhor que o de sua antiga banda.Tom Capone foi o responsável pela produção e ainda tocou guitarra e baixo em algumas faixas. Rodolfo também tocou os dois instrumentos. Na fase de gravação do disco ele ainda não havia montado a banda Rodox, hoje com Patrick (ex-Los Hermanos) no baixo e Marcão Ardanuy (ex-roadie dos Raimundos) na guitarra.Os únicos presentes na gravação foram o DJ Bob e o baterista Fernandão. O rapper Xis e o vocalista do Rappa, Falcão, são as participações especiais do álbum. Eles estão na faixa Três Reis, uma das levadas hip hop do disco. De Uma Só Vez é um punk rock que deve estrear em breve nas rádios. Há até um reggae, Continuar de Pé. A única escorregada de Rodolfo é quando ele tenta cantar uma balada, Quem Tem Coragem Não Finge. Quando sua voz está embolada no meio dos instrumentos ela funciona, acompanhada só por violão, não. Se a virada na vida de Rodolfo surpreendeu aos fãs, seu disco não vai assustá-los. É muito do que os Raimundos faziam. E mais.Estreito, CD da banda Rodox (Warner, cerca de R$ 25)

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