'Rock não permite nascimento de um novo Metallica', diz biógrafo

Leia trechos do livro de Martin Popoff e ouça as músicas correspondentes

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

20 de março de 2014 | 19h39

Um dos maiores especialistas em heavy metal do mundo, o escritor e baterista canadense Martin Popoff é o autor da biografia ilustrada do Metallica que está sendo lançada essa semana no Brasil pela Agir Editora. Ele falou ao Estado com exclusividade sobre a banda, que acompanha desde o início (também é autor de três livros sobre o Rush, entre outros). Popoff crê que o atual cenário do rock não permite mais que uma banda atinja o tamanho e a mística de um Metallica, Judas Priest, AC/DC ou Kiss.

Leia trechos a seguir e ouça as músicas correspondentes:

"Para o bem ou para o mal, Master of Puppets oferece uma equivalência quase de faixa a faixa dos altos e baixos dramáticos e pictóricos do Ride the Lightning., Battery e Damage, Inc., faixas que respectivamente abrem e fecham o álbum, apresentam a velocidade, o rigor e a destreza rítmicos que o Metallica tornou famosos - assim como, até certo ponto, o Anthrax. Disposable Heroes e a épica faixa-título constroem a ponte entre Creeping Death e os excessos do disco seguinte do Metallica, ...And Justice For All, cada qual um exemplo expressivo das possibilidades inteligentes do thrash nas mãos de uma banda com um talento impetuoso."

 

 

 

 

 

"Kill 'Em All, lançado em 25 de julho de 1983, com uma prensagem inicial de quinze mil cópias, viria a redefinir a essência do que era o heavy metal. Não que o disco tenha sido uma reinvenção completa de alguma coisa; de fato, bandas como Raven e Anvil eram, em alguns aspectos, tão pesadas, velozes e técnicas quanto o Metallica. O que colocava o Kill 'Em All num patamar tão alto era a sensação quase incômoda de que era implacável: um som tão na sua cara, tantos riffs superlativos, tão pouco tempo, e tudo tocado de forma agressiva, a violência reforçada pelos vocais de Hetfield que (como a própria música) eram só um pouquinho mais heavy metal em sua essência do que qualquer outra coisa feita até então.

O título do álbum, acompanhado da arte da capa, reforçava o caos sônico. O plano original era que se chamasse Metal Up Your Ass, e que o invólucro mostrasse uma mão segurando uma faca, emergindo de uma privada. Zazula argumentou com os caras para que reconsiderassem, dizendo que nenhum distribuidor estocaria o disco, e assim foi aprovada a versão de Kill 'Em All sugerida por Burton: com mais estilo (e mesmo assim igualmente agressiva), mostrando uma poça de sangue, um martelo sendo derrubado por uma mão - missão cumprida.

Missão cumprida, mesmo. O álbum abre com mais uma gravação de Hit the Lights, uma introdução à altura para a produção afi ada, poderosa e objetiva que realçava a velocidade do toque de Hetfield e a coesão da banda. Representando a faceta e a cadência mais explosiva e menos acelerada do Metallica, temos a segunda faixa The Four Horsemen, junto com Jump in the Fire, Seek & Destroy e No Remorse - todas abarrotadas de riffs independentes que formam uma ponte que vai de Sabbath a Pantera. Hetfield afirma que Seek & Destroy foi baseada na faixa que não saiu em disco, Dead Reckoning, do Diamond Head, acrescentando que compôs o riff sentado em sua caminhonete, no estacionamento da fábrica de adesivos em que trabalhava. The Four Horsemen era uma reformulação de The Mechanix, de autoria de Mustaine (que, aliás, recebe os créditos por quatro faixas de Kill 'Em All). A faixa ressurgiu como Mechanix no Killing Is My Business... and Business is Good!, primeiro disco de Mustaine após a expulsão do Metallica e já com sua banda Megadeth."

 

 

"Determinados a salvar o Metallica da obsolescência pós-grunge, Ulrich e Hammett se uniram para dar seu passo mais audaz, ainda que não o mais popular. O resultado foi o álbum mais radical e certamente o que gerou as discussões mais infl amadas da carreira da banda, ao menos até aquele ponto: Load. A questão não era os quatro quererem deixar o thrash para trás, mas parecia que eles haviam tentado descartar a própria sonoridade do Metallica em si numa reconfiguração autoconsciente que havia começado com cabelos mais curtos e tatuagens, incluindo até maquiagem e piercings. A música parecia casar com o visual: o tipo de rock'n'roll bacana e meio blueseiro que gostava de dançar e agitar em vez de estilhaçar e explodir. 'Quando dizem 'Metallica', pensam em heavy metal, trovão e raio, cabelo comprido, molecada bêbada', explicou Hammett. 'Mas por que deveríamos ser assim? Por que deveríamos nos conformar a um estereótipo criado antes mesmo de entrarmos em cena?' Havia duas faixas longas - Bleeding Me com mais de oito minutos e The Outlaw Torn, passando dos nove minutos -, mas essas eram as exceções. No estúdio, a receita do bolo era manter as coisas fi rmes e rítmicas, ou 'escorregadias', como Ulrich gostava de descrever. Também em termos de letras, James Hetfi eld tinha se afastado das histórias dos quatro cavaleiros e mergulhado no material mais pessoal e dolorosamente autobiográfico até então - em faixas como Poor Twisted Me (Eu me afogo sem um mar), Thorn Within (Então aponte seus dedos... direto para mim), Bleeding Me (Eu sou a fera que alimenta as feras), Cure (o vício em drogas como metáfora de doença moral), Ronnie (baseada no tiroteio ocorrido em Washington. D.C., em 1995, por obra do estudante Ron Brown), e King Nothing (sobre o ego tamanho king-size que Hetfield agora via no espelho do seu camarim). No geral, eles acertaram. Ain't My Bitch era um incêndio incontrolável."

 

 

 

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