Rock in Rio abre espaço para a world music

Toda a música do mundo cabe numa única tenda do Rock in Rio. Trata-se da Tenda Raízes, o espaço destinado à world music, habitualmente uma música de difícil enquadramento em rótulos e gêneros.Capitaneada por Toy Lima, o mesmo produtor do Heineken Concerts e do Chivas Jazz Festival, a Tenda Raízes é, segundo Lima, a maior concentração de shows de world music do planeta. São 42 apresentações de 23 grupos nacionais e internacionais. Reúne 18 diferentes nacionalidades e etnias, incluindo artistas africanos, asiáticos, aborígenes, árabes e brasileiros.O eminentemente jovem público do festival será apresentado a artistas de rara qualidade e sonoridade ímpar, como o duo Amadou et Mariam, do Mali. Cega desde a infância, a dupla chega a bordo de um disco excepcional, Cje Ni Mousso, que traz o selo de aprovação da revista francesa Les Inrockuptibles na capa.O guitarrista Amadou Bagayoko e a cantora Mariam Doumbia conheceram-se no Instituto para Jovens Cegos do Mali e, mais que uma parceria afetiva, desenvolveram sólida parceria musical. São casados e têm três filhos.E o que dizer do fantástico acordeonista René Lacaille, que vem da remota IÎle de La Réunion, uma possessão francesa no meio do Oceano Índico, perto de Madagáscar, a sudeste da África? Do meio do seu paraíso tropical, Lacaille a música de Patanpo, disco em que homenageia inclusive o Brasil, na faixa Réunion Brazil. "A Réunion e o Brasil confraternizam quando nós dançamos a bossa nova e o samba", diz o músico.Outro grupo de sonoridade inusitada, ao menos nos trópicos, é o quarteto de valquírias finlandesas Värttinä, que toca acompanhado de um ensemble masculino, uma pequena orquestra de instrumentos tradicionais e elétricos.Mesmo entre as atrações brasileiras, algumas serão absolutas surpresas. É o caso do sanfoneiro pernambucano Targino Alves Gondim Filho, de 28 anos, filho de um caminhoneiro de Salgueiros que aprendeu a tocar sanfona com Eugênio Gonzaga, irmão de criação do Lua, mestre Luiz Gonzaga. Targino apareceu para o grande público este ano acompanhando Gilberto Gil no hit Esperando na Janela (tema do filme Eu Tu Eles).Segundo Toy Lima, a idéia curatorial do evento - paralelo ao Rock in Rio é mostrar artistas que ilustrem uma evolução que vai da música étnica ao pop internacional. Lima também se esforçou para trazer novidades do mundo todo, especialmente músicos que mantenham de alguma forma - a maior parte sem explicação plausível - um diálogo com a música brasileira.Alguns desses músicos já são conhecidos no Brasil, como o sanfoneiro Régis Gizavo, da ilha de Madagascar, e o maestro congolês Ray Lema, convidado de honra da abertura do festival. Outros são conhecidos, embora seus rostos nunca tenham sido vistos. É o caso de Teófilo Chantre, cantor e compositor do Cabo Verde, que é o parceiro predileto da cantora Cesária Évora (são dele os maiores hits da cantora de pés descalços, disponíveis no CD Miss Perfumado).Entre os que devem causar espécie no festival está o francês Thierry Robin, um Indiana Jones dos sons tradicionais da Bretanha, região no noroeste da França. Ele garimpa a tradição celta e muçulmana da região e promove encontros musicais raros, descobrindo conexões musicais já quase esquecidas na Europa.Outra dupla africana, só que essa mais ligada à modernidade, é o senegalês Touré-Touré, liderado pelos primos Omar e Daby Touré - este, um guitarrista excepcional. Eles vêm a bordo do seu disco mais recente, Laddé (Senegal), em que gravam até em inglês (a canção African Woman).O Oriente vem bem representado pelo iraniano Trio Chemirani, um grupo familiar de percussão baseado no zarb, batida tradicional da região, e que procura criar formas modernas sobre a poesia persa. O Trio é formado por Djamchid, Keyvan e Bijan Chemirani.Da Espanha, vem o novo grande nome do flamenco, Pascual Gallo. Entrecruzando o ritmo tradicional da Catalunha com o rock, o andaluz Gallo chega com um sexteto e mostra temas da tradição cigana e composições próprias.Da Martinica, chega o cantor, percussionista, flautista, compositor e arranjador Dedé Saint Prix, que traz os ritmos caribenhos da sua região e de Guadalupe - como o chouvai bwa. E o grupo irlandês Dervish traz o folclore de sua terra com instrumentos tradicionais.

Agencia Estado,

25 de dezembro de 2000 | 18h01

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