Rock in Rio abre com música de Strauss

No dia 12, na abertura do Rock in Rio 3, duas pontas da sociedade vão se juntar. A Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e o grupo AfroReggae tocam juntos Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss, que todo mundo conhece pelos acordes iniciais que Stanley Kubrick utilizou no clássico 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Para os músicos eruditos, eventos desse porte não são novidade, mas os 15 rapazes e três garotas do grupo chegaram de longe e estão só começando. Afinal, os primeiros são a elite musical do País e os integrantes do AfroReggae eram, há menos de dez anos, crianças da favela de Vigário Geral, na zona norte. Tinham como perspectiva mais amena uma vida de trabalho duro e pouco salário.A participação no Rock in Rio, que se repete no dia 14, não é um fato isolado na carreira do grupo. Seu primeiro CD chega às lojas esta semana, em lançamento grandioso da gravadora Universal. Também não aconteceu de repente. É resultado de pelo menos oito anos de trabalho persistente. O grupo não é uma exceção, pelo contrário, mas a ponta de um iceberg, um movimento cultural, social e, em breve, comercial, que envolve mais de 600 pessoas e dá filhotes. Hoje, além do AfroReggae, existem ainda o Afro Lata e o Afro Samba (nos quais as gravadoras já estão de olho), mais oficinas educativas e de prevenção de saúde.Padrinhos famosos - "Foi duro, mas conseguimos crescer e ainda vamos muito longe", diz o coordenador do AfroReggae, José Júnior, sem disfarçar sua satisfação pelos resultados obtidos. Ele se recusa a falar do grupo apenas como um movimento musical que caiu nas graças do compositor Caetano Veloso e da atriz Regina Casé. Os dois são padrinhos dos meninos e fazem todo o barulho que podem para chamar a atenção da mídia para eles. "A música é só uma parte. Nosso trabalho é maior, envolve muito mais que os shows e discos e vai crescer mais ainda."Tudo começou às vésperas do verão de 1992. Houve um arrastão na Praia de Ipanema, na zona sul, fartamente documentado pela televisão e pelos jornais, e a culpa do tumulto foi atribuída aos freqüentadores dos bailes funks que juntavam (e ainda juntam) dezenas de milhares de adolescentes, geralmente pobres, em clubes do subúrbio carioca. A solução encontrada pelas autoridades, na época, foi proibir a realização desses bailes, cuja importância já havia sido percebida por gente como o antropólogo Hermano Vianna (irmão de Herbert Viana, do Paralamas do Sucesso) e Fernanda Abreu.Júnior promovia esses bailes. Ao ficar sem recursos e sem meio para expressar-se, mudou o tema dos bailes e passou a tocar reggae, em vez de funk. Não agradou, mas chamou a atenção de outros jovens como ele, que agitavam a vida cultural à margem da mídia. Daí surgiu o jornal AfroReggae Notícias, precária publicação feita na marra e na garra. O sucesso foi imediato. "Falávamos de todo tipo de música negra que se faz no Rio, menos do samba, que já tinha bastante espaço na mídia", lembra Júnior. "O resultado foi que aglutinamos centenas de grupos que já existiam na cidade, com um público pequeno, mas fiel. Alguns deles, como o Rappa, hoje são estrelas."Chacina mudou tudo - Seis meses depois, o pasquim virava uma organização não governamental de cultura negra. A guinada do AfroReggae ocorreu em agosto de 1993, com a chacina de Vigário Geral. Na noite de 29 de agosto, policiais militares invadiram a favela e mataram mais de 20 pessoas, nenhuma delas ligadas ao tráfico de drogas, um problema sério na região. Júnior que então já contava com dois colaboradores, descobriu que aí estava o futuro de sua ONG. "Mais do que fazer jornal ou promover festa, era preciso dar alguma esperança aos meninos que tinham passado por um tragédia como aquela", ele diz. E começaram as aulas de percussão para as crianças, às vezes no meio do tiroteio, sob desconfiança da polícia e dos traficantes.Foi difícil, mas Júnior e seus colaboradores insistiram. "A polícia passou a nos respeitar e os traficantes deixaram de criar problemas", lembra. Ele também ganhou aprovação de gente que tentava melhorar a vida da cidade e, dois anos depois, numa palestra, conheceu Caetano Veloso e Regina Casé, que se apaixonaram imediatamente pelo grupo. "Aí, quando os maiorais chegaram, todo mundo começou a prestar atenção na gente." Em visita ao Rio, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que ganhou o Oscar com Tudo sobre Minha Mãe, fez questão de conhecer os meninos e cobriu o trabalho da ONG de elogios. Cacá Diegues também chamou o grupo para participar de sua versão de Orfeu que teve uma pré-estréia em Vigágio Geral, com show do Afro Reggae e de Caetano Veloso.O grupo cresceu e multiplicou-se. As aulas de percussão se ampliaram para qualificação profissional, o núcleo principal do AfroReggae começou a fazer shows (até no exterior) e a lotar os espaços onde se apresentava. As gravadoras começaram a assediá-los. "Podíamos ter feito esse primeiro disco antes, mas preferimos esperar a hora certa e chegar com tudo", avalia Júnior, que hoje trabalha com uma equipe, mas ainda cuida da direção do grupo principal e orienta os dois outros, dos meninos e meninas mais novos."Nosso trabalho se diversificou, por meio de programas de saúde e de formação profissional, e se espalhou pela cidade. Hoje temos núcleos na Cidade de Deus (zona norte) e no Cantagalo (zona sul)", continua Júnior. "Temos também a AfroReggae Produções Artísticas, que cuida da agenda de shows e da área de entretenimento. Em breve, vamos ter nosso braço comercial, que vai vender as roupas e adereços que usamos nos shows."Som agressivo - Os espetáculos do grupo são inovadores e às vezes assustam os desavisados. As músicas têm violência porque falam do cotidiano deles e já há hits como Tô Bolado e Capa de Revista. O som, todo baseado em percussão, é agressivo. No Brasil ou no exterior, eles conquistam o público e agora vão ter também a cobertura de uma grande gravadora, a Universal, não por coincidência, a mesma de Caetano Veloso. O padrinho famoso continua orientando o grupo. "Podíamos chamar para gravar no disco quem quiséssemos, mas a Paula Lavigne (mulher e empresária de Caetano), lembrou que quem comprasse a gravação ia querer ouvir o mesmo no show", comenta Júnior.Sem ser orgulhoso, ele não esconde a satisfação de ter chegado lá e levado junto meninos que tinham pouco futuro pela frente. "Conseguimos tirá-los do tráfico e hoje eles têm uma vida confortável. Às vezes, um ou outro desiste, mas sabemos que estamos no caminho certo, porque a maioria permanece", diz Júnior. "E temos parcerias e apoios importantes, no Brasil e no exterior, que nos dão impulso para continuar."

Agencia Estado,

18 de dezembro de 2000 | 16h42

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