Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Rock in Rio 2019: Fora dos palcos, a Nave se torna espaço para reflexão

Instalação multimídia montada no velódromo no Parque Olímpico surpreende e cai no gosto do público

Guilherme Sobota, Enviado Especial

03 de outubro de 2019 | 11h25

RIO - Uma das principais novidades do Rock in Rio 2019 foi a Nave, instalação multimídia e imersiva desenvolvida pelo ator e diretor Marcello Dantas. A obra agradou ao público e à crítica no primeiro fim de semana do festival. Ação da marca de cosméticos Natura, a experiência extrapolou seu caráter comercial para consolidar um espaço interessante de reflexão no meio da loucura do festival.

A obra foi pensada para e montada no velódromo do Parque Olímpico, com 5 mil metros quadrados de projeções, além de cenografia física e virtual, efeitos visuais, sonoros e olfativos. Sons e imagens da natureza são projetados sobre o público, que entra dentro do espaço (uma arquibancada também comporta 3 mil pessoas, que veem a exibição de cima). Pedras gigantes instaladas sobre o piso propositadamente acidentado começam a flutuar em algum momento, e ao final, uma música inédita é executada pelos aparelhos de som superpotentes.

Ritmo da Alma foi composta por Zé Ricardo, curador do palco Sunset do Rock in Rio, e a gravação tem artistas ligados à história do festival, como Elza Soares, Dona Onete, Johnny Hooker, Maria Rita, Gaby Amarantos, Xênia França e Iza.

O diretor Dantas diz que a ideia surgiu do festival e da marca para buscar algo que dissesse respeito ao tempo presente. Como o Rock in Rio, ainda nas palavras dele, é um espaço plural com bastante gente muito diferente, o intuito era buscar uma agenda positiva e comum: ele foi então buscar respostas na natureza – e na música.

“A maior parte das pessoas, sem saber, vive numa ansiedade muito grande. Viver hoje é estar vivendo fora do seu tempo, no passado ou no futuro, fora do presente. Existe uma tendência de achar que se está em outro lugar, com outras pessoas, transmitida pelo celular. Isso me bateu como um sinal do nosso tempo: é uma assincronia. Queríamos criar uma experiência que lembrem que as pessoas podem estar consigo mesmas”, explica Marcello Dantas, por telefone.

A escala grande da obra também foi pensada para que o espectador se sentisse como parte de algo maior – bem como a “suspensão da gravidade”, impressão causada quando as pedras flutuam durante a exibição. “Seria o ato que pararia o mundo.”

Os assobios presentes na canção também jogam no mesmo sentido, criando uma linguagem comum. Dantas comenta também que a obra foi pensada num contexto sociopolítico anterior, em que as queimadas na Amazônia e as reações dos governos, por exemplo, ainda não estavam ocupando as manchetes globais.

“Com o passar do tempo, a realidade se impõe, e a imagem bucólica da Amazônia (presente na obra) se tornou uma imagem extremamente política. O que parecia algo apenas idílico se transforma de fato em algo que faz com que tenhamos nos posicionar”, explica.

Para ele, a beleza é que isso se torna um jogo “lindamente dinâmico”. “É o Zeitgeist. A Nave foi feita com uma intenção, mas revela outras.”

Dantas explica que as projeções enormes são renderizadas em 16k, em oito vezes melhor definição do que o HD comum. São arquivos na casa dos terabytes, que levam de seis a oito horas para serem transferidos entre máquinas.

Há planos de levar a obra para outros espaços? “Essa ideia pode ter várias encarnações, mas esse projeto é muito específico para o espaço. Existe ali um tráfego de 100 mil pessoas, e o investimento é caro demais. Mas seja lá com que encarnação técnica ela surgir, a ideia é atemporal.” 

 

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