Rock in Rio 2001: projeto social a todo volume

Depois de quatro anos tentando, o empresário Roberto Medina conseguiu: vai realizar a terceira edição do seu projeto mais ambicioso, o Rock in Rio. Ele prefere aliás, que não se fale em terceira edição. "Agora é Rock in Rio por um Mundo Melhor", ressalva, em entrevista Por que o Rock in Rio não saiu antes, se uma pesquisa do Ibope revelou, recentemente, que 70% dos jovens cariocas estariam dispostos a ir à Cidade do Rock, no caso de uma reedição da versão brasileira de Woodstock? "O custo era inviável", afirma o empresário. Faltava um parceiro que garantisse o sonho de Medina, o que foi garantido recentemente pela America Online (que entrou com 50% do custo do festival, cerca de R$ 35 milhões)."Tive no mínimo 200 reuniões com 200 empresários que disseram não", ele conta. "Eles nunca entenderam isso como um negócio, acharam que era só mecenato", afirma. Sua proposta: no Rock in Rio por um Mundo Melhor, toda a estrutura está voltada para um esquema de "conscientização do jovem", com um intuito de desarmamento dos espíritos (e dos coldres) e também com um intuito didático. Quando o festival começar, uma turma de 1.500 jovens de comunidades carentes do Rio estará concluindo um intensivo de 1.º grau, graças à doação de R$ 1 milhão feita pelo patrocinador do evento. Doações com esse intuito também estão sendo recebidas por meio do site do Rock in Rio (www.rockinrio.com.br).Serão doados 150 computadores com acesso à Internet e um ano de assinatura para o projeto, e os alunos receberão o diploma do MEC durante o festival. O Rock in Rio por um Mundo Melhor destinará 5% do valor líquido de todo o faturamento da venda de ingressos, patrocínios e licenciamento de produtos para projetos educacionais, por meio do Movimento Viva Rio. O evento também anuncia a intenção de arrecadar recursos suficientes para formar mais de 11 mil jovens."Na guerra entre capitalismo e comunismo, o capital ganhou, mas nós perdemos nisso um pouco do romantismo", diz o empresário, justificando sua nova faceta benemerente. Medina diz que obteve o consentimento do presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, para obter um silenciamento simbólico das rádios retransmissoras da Hora do Brasil, no dia 12 de janeiro, em prol do movimento pela paz no mundo. "Serão 3 mil emissoras de rádio fora do ar."Em 1985, quando realizou o primeiro Rock in Rio, Medina tinha 34 anos e no currículo um show histórico de Frank Sinatra no Maracanã. Foi a Nova York com o projeto de um megafestival de rock na América Latina e conta que cansou de bater na porta de empresários do ramo do show business. "Fiquei 40 dias em Nova York e não consegui nada."Até que pediu ajuda ao manager de Frank Sinatra, Luis Soto, que pediu que ele marcasse um coquetel em sua suíte de hotel para 30 pessoas. Enviou jornalistas de todos os grandes jornais americanos, que publicaram com destaque a iniciativa do brasileiro. "Aí, meu amigo, no dia seguinte tinha fila na porta do meu apartamento", lembra. "Fechei o cast em dois dias."Para a terceira edição do seu festival, ele conta que ainda não recorreu ao governo, apesar da justificativa didático-pacifista de sua mostra. "Se vierem, serão bem-vindos, mas eu trabalho por enquanto só com a iniciativa privada", ele diz. No entanto, Medina não desprezou o incentivo fiscal da lei carioca de incentivo à cultura, que permite deduções no ICMS."O Rock in Rio 2 produziu R$ 180 milhões de mídia espontânea", ele conta. "A indústria do entretenimento faturou no ano passado R$ 6,5 trilhões e levou R$ 650 bilhões aos cofres públicos", argumenta. "Então, é óbvio que o governo deveria investir num evento destes, porque garante empregos e renda, além de seu caráter educativo", pondera.Medina não crê que a programação do Rock in Rio deva ser encarada como seu principal atrativo. "Se você vai ao banheiro ali do shopping e pergunta para o cara por que ele vai, ele responderá que vai ao Rock in Rio pela festa, não importa quem estará tocando lá", afirma.Ainda assim, diz, procurou cercar-se de curadores de diversas áreas artísticas para tentar cobrir um leque o mais amplo possível de possibilidades. Para a Tenda Raízes, por exemplo, que cobrirá música étnica e a chamada world music, convidou Toy Lima, o produtor do Heineken Concerts."Não vou mostrar uma visão étnica, folclórica da música mas até mesmo pop", diz Lima. "Se você for ouvir os sons da África hoje, vai ver que existe até uma cena hip hop, por exemplo, que é fenomenal."O Rock In Rio por um Mundo Melhor vai se realizar efetivamente num mundo melhor para o rock - até mesmo tecnicamente. Em 1985, todo o equipamento sonoro veio do exterior. No Rock in Rio 2, o equipamento já era 50% nacional. Nesta edição, será 100% nacional.Medina adianta que, neste período de cinco meses até a realização do festival, estarão sendo lançados os CDs que recuperam as performances do Rock in Rio 1 e 2. Ele já convencionou várias coisas sobre o festival, até o preço único dos ingressos: R$ 34,00. O desenho da Cidade do Rock é minucioso e até as cercas foram desenhadas para não machucar os espectadores. Serão tubos de glicerina arredondados, cercando aquilo que um dia foi a lama do primeiro Rock in Rio.

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