Rock do Planalto Central vira história

Era pra ser uma turma como outra qualquer, com suas arruaças, brigas, festas e hormônios demais, não fosse o fato de que dela surgiram bandas que fizeram história no pop rock nacional: Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, só pra citar três. É sobre esse grupo de moleques inquietos da cidade de Brasília que trata o livro do jornalista Paulo Marchetti, O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília (Editora Conrad). Mais de 60 pessoas foram entrevistadas e seus relatos foram compilados pelo autor na forma de um diário escrito a várias mãos, que prova que o rock da Capital Federal começou bem antes da Legião. Depoimentos de Herbert Vianna, dos Paralamas, Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, e Dado Villa-Lobos, da Legião, seguem-se aos de pessoas anônimas para o grande público, mas que fizeram parte da tal turma. O ponto de partida é a mudança que o imberbe movimento punk causou nas cabecinhas dos jovens de Brasília a partir de 1976. O bate-papo relembra o nascimento das bandas, suas primeiras gravações e repercussões, a competição entre os grupos e o que os garotos pensavam sobre as principais figuras da turma, como Renato Russo (?era muito inteligente?, ?todo mundo achava as músicas dele chatas? ou ?jogávamos moedas quando ele fazia shows, mas ele recebia tudo com bom humor?). O livro é um bom presente para quem é fã ou quer conhecer melhor o surgimento das bandas de Brasília, e mostra que o Aborto Elétrico, grupo formado por Renato Russo, Fê Lemos e André Pretorius em 1978, foi a espinha dorsal do rock brasiliense. Há fotos inéditas do acervo dos entrevistados, discografia das bandas, e ainda uma genealogia dos grupos que chega até os Raimundos. Muitas passagens, no entanto, são descartáveis. Saber que alguém jogou ovos no carro de um rival ou passou mal de tanto beber e cheirar cola acaba sendo entediante e dá ao leitor a impressão de estar participando de uma conversa da qual não foi convidado ? e que não caminha para lugar algum. Quando, mais do que as festas e conflitos, o livro se concentra nas bandas, o texto flui melhor. Esta oscilação talvez se deva porque o autor decidiu não mexer nas declarações. Marchetti, 31 anos, também optou por não criar polêmicas, não se aprofundou em assuntos como drogas e até o homossexualismo de Renato Russo é tratado superficialmente. Alguns depoimentos também ficaram no anonimanto, para não comprometer seus autores (?a última vez que vi Renato, visivelmente alterado, foi em um cinema da Gávea. Ele andava em círculos e arrastava seu casaco no chão, cantando em voz alta... não gostava de vê-lo naquele papel. Dei meia volta e fui ver o filme?). A idéia do livro surgiu em 97, quando, em uma entrevista do Legião Urbana, o baterista Marcelo Bonfá confessou a Marchetti que pretendia escrever sobre a Turma. ?O Renato (Russo) sempre falava que também iria escrever, ele queria ser escritor, romancista?, lembra Marchetti. No mesmo período, quem também iniciava um livro sobre o tema era Dinho, do Capital Inicial. ?Conversei com o Paulinho (Marchetti) e vimos que as obras teriam enfoques diferentes. O meu, que por enquanto está parado até o fim do ano, segue uma linha mais ficcional, algo meio A Sangue Frio, de Truman Capote. Quero que as pessoas tenham dúvidas sobre o que é realidade e o que é ficção, não fiz pesquisa, faço tudo de memória?, conta Dinho Ouro Preto, que assina um pequeno texto na contracapa de O Diário da Turma... . Já Marchetti levou mais de dois anos em entrevistas e pesquisas e diz que fez uma ?autobiografia do rock de Brasília?. ?Não escrevi nada sob o meu ponto de vista, só montei o quebra-cabeças?, afirma o autor, que fez parte da Turma, era um dos ?figurantes? ? gíria usada por Philippe Seabra (do Plebe Rude) para designar quem não tinha banda. O lançamento oficial do livro será realizado hoje e amanhã em Brasília. No Espaço Cultural Renato Russo, haverá até exibição do curta-metragem Ascensão e Queda de Quatro Rudes Plebeus, uma paródia com a história da Plebe Rude feita no início dos anos 80. ?Morei em Brasília de 1974 a 1987 e cresci vendo esse pessoal. Posso dizer que a história do rock de Brasília se confunde com o da Turma. Se ela não existisse, acho que não existiriam as bandas?, diz Marchetti.O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília - (Ed. Conrad, 199 págs., R$ 39).

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