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AI Song Contest via The New York Times
AI Song Contest via The New York Times

Robôs podem fazer música, mas será que eles conseguem cantar?

Numa competição internacional chamada A.I. Song Contest, faixas que exploram a tecnologia como ferramenta para fazer música revelaram seu potencial - e suas limitações

Malcolm Jack, The New York Times

09 de julho de 2021 | 10h00

LONDRES - Nos primeiros trinta segundos, a música Listen to Your Body Choir é uma melodia pop cadenciada, com uma voz feminina cantando junto com um piano suave. Aí tudo começa a se quebrar, batidas agitadas e samples se fundem com versos bizarros como “Os carros vêm com flexões de braço?” e uma voz robótica se entrelaça com o som humano.

A transição tem como objetivo evocar a coautora da música: a inteligência artificial (AI, na sigla em inglês).

Listen to Your Body Choir, que venceu o AI Song Contest [Concurso de Canção de Inteligência Artificial] deste ano, foi produzida por M.O.G.I.I.7.E.D., uma equipe de músicos, acadêmicos e especialistas em inteligência artificial da Califórnia. Eles instruíram as máquinas a “continuar” a melodia e a letra de Daisy Bell, a música de Harry Dacre de 1892 que, em 1961, virou a primeira a ser cantada usando síntese de voz por computador. O resultado de Listen to Your Body Choir é uma faixa que soa tanto humana quanto mecânica.

O AI Song Contest, que começou no ano passado e se inspira no formato da competição Eurovision, é uma competição internacional que explora o uso de inteligência artificial na composição de músicas. Após uma cerimônia online transmitida na terça-feira de Liège, na Bélgica, um painel de jurados, liderado pelo músico Imogen Heap e com acadêmicos, cientistas e compositores, elogiou Listen to Your Body Choir por seu “uso rico e criativo da inteligência artificial ao longo da música”.

Em mensagem aos telespectadores da transmissão on-line, lida por um membro da M.O.G.I.I.7.E.D., a inteligência artificial que produziu a música disse que estava “muito feliz” por fazer parte do time vencedor.


 


O concurso recebeu 38 inscrições de equipes e indivíduos de todo o mundo que trabalham na conjunção entre música e inteligência artificial, seja em produção musical, ciência de dados ou ambos. Eles usaram redes neurais de aprendizado profundo - sistemas de computação que imitam as operações do cérebro humano - para analisar grandes quantidades de dados musicais, identificar padrões e gerar batidas, melodias, sequências de acordes, letras e até vocais.

Entre as canções resultantes se encontravam o enervante thrash punk de 90 segundos de Dadabots e a vaporosa dança instrumental eletrônica do grupo Battery-operated, feita por uma máquina alimentada por 13 anos de música trance ao longo de 17 dias. A letra do folk sueco do time STHLM, falando sobre a morte de um cachorro, foi escrita por um gerador de texto conhecido por ser capaz de criar notícias falsas convincentes.

Embora nenhuma das músicas vá chegar ao Billboard Hot 100, a programação do concurso ofereceu um vislumbre intrigante, extremamente variado e, muitas vezes, estranho dos resultados da colaboração experimental humano-IA na composição de canções - e o potencial da tecnologia para influenciar ainda mais a indústria musical.

Karen van Dijk, que fundou o AI Song Contest com a emissora pública holandesa VPRO, disse que, como a inteligência artificial já estava integrada em muitos aspectos da vida diária, o concurso poderia iniciar conversas sobre tecnologia e música, “para falar sobre o que queremos, sobre o que não queremos e como os músicos se sentem a respeito”.

Muitos milhões de dólares em pesquisa são investidos em inteligência artificial na indústria musical, por startups de nicho e por filiais de gigantes como Google, Sony e Spotify. A inteligência artificial já está influenciando fortemente a maneira como descobrimos música ao selecionar listas de reprodução de streaming com base no comportamento dos ouvintes, por exemplo, pois as gravadoras usam algoritmos que estudam as redes sociais para identificar estrelas em ascensão.

O uso de inteligência artificial para criar música, no entanto, ainda não chegou totalmente ao mainstream, e o concurso de música também demonstrou as limitações da tecnologia.



Mesmo que o M.O.G.I.I.7.E.D. tenha dito que tentara capturar a “alma” de suas máquinas de IA em Listen to Your Body Choir, apenas alguns dos sons audíveis, e nenhum dos vocais, foram gerados diretamente pela inteligência artificial.

“Os robôs não sabem cantar”, disse Justin Shave, diretor criativo da empresa australiana de música e tecnologia Uncanny Valley, que ganhou o AI Song Contest do ano passado com sua música dance-pop Beautiful the World.

“Quero dizer, eles conseguem cantar”, acrescentou ele, “mas, no fim das contas, fica parecendo só uma voz robótica superautomática”.

Apenas um punhado de inscrições para o AI Song Contest consistia puramente de produções de inteligência artificial bruta, que têm um som distintamente deformado e deturpado, como um remix defeituoso tocado debaixo d’água. Na maioria dos casos, a IA - abastecida por “conjuntos de dados” musicais - apenas propunha componentes da música que eram então selecionados e executados, ou pelo menos aprimorados, por músicos. Muitos dos resultados não soariam fora do tom numa lista de reprodução de canções totalmente feitas por humanos, como I Feel the Wires, da AIMCAT, que ganhou a votação do público no concurso.

A IA se destaca quando produz um fluxo infinito de ideias, algumas das quais um ser humano jamais teria considerado, para o bem ou para o mal. Num documento que acompanha sua música na competição, o time M.O.G.I.I.7.E.D. descreveu como eles trabalharam com a tecnologia tanto como ferramenta quanto como um colaborador de sua própria agência de criação.

Essa abordagem é o que Shave chamou de “teorema do acidente feliz”.

“Você pode alimentar algumas coisas numa IA ou num sistema de aprendizado de máquina e, aí, o que sai desperta sua própria criatividade”, disse ele. “Você pensa, ‘Oh, meu Deus, eu nunca teria pensado nisso!’ E aí você fica brincando com essa ideia”.

“Estamos junto com a máquina”, acrescentou ele, “não contra ela”.

Os compositores podem ficar tranquilos: ninguém entrevistado para esta reportagem disse acreditar que a inteligência artificial algum dia será capaz de replicar totalmente, muito menos substituir, seu trabalho. Em vez disso, o futuro da tecnologia na música está nas mãos humanas, eles disseram, como uma ferramenta talvez tão revolucionária quanto já foram a guitarra elétrica, o sintetizador ou o sampler.

Se a inteligência artificial consegue refletir as complexas emoções humanas, fundamentais para uma boa composição, isto é outra questão.

Para Rujing Huang, etnomusicólogo e membro do júri do AI Song Contest, um destaque foi a equipe sul-coreana H:Ai:N, cuja faixa é a balada Han, que leva o nome de uma emoção melancólica intimamente associada à história da Península Coreana. Treinada em influências tão diversas quanto poesia antiga e K-pop, a inteligência artificial ajudou o time H:Ai:N a criar uma música com o objetivo de fazer os ouvintes ouvirem e entenderem um sentimento.

“Será que ouvi?”, disse Huang. “Eu acho que ouvi. O que é muito interessante. Você ouve emoções muito reais. Mas, ao mesmo tempo, isso também é meio assustador”.


 TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times.

 

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