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Roberto Menescal: ‘Algumas coisas impediram Nara Leão de fazer um disco ao vivo’

Produtor fala sobre os empecilhos que impediram a cantora de lançar um disco ao vivo, lacuna que está sendo preenchida agora com o box 'Nara Leão Ao Vivo – Anos 60/70/80'

Roberto Menescal, Depoimento para O Estado de S. Paulo

22 de julho de 2018 | 06h00

“Houve uma série de contratempos, que, de uma maneira ou outra, impediram Nara Leão de fazer um disco ao vivo. Ela cantava com a gente desde garota, mas sempre falando: ‘Não quero ser artista, estou aqui cantando para lembrar de uma música, lembrar de outra’. Tanto que, no primeiro show em que ela cantou ao vivo, ficou de costas para o público. Deve ter sido em 1957, 58. Depois, teve outro fato. Nara estava namorando o (Ronaldo) Bôscoli. Ele falou que ia ficar noivo dela. Maysa disse que queria cantar músicas de bossa nova, apesar de não ser o estilo dela. O Ronaldo falou: ‘Beto, tudo pela bossa nova’. E a Maysa gravou o disco Barquinho, que foi lançado na Argentina, e contrataram a gente para fazer um mês lá. Ali Ronaldo e Maysa tiveram um caso.

+ Box com discos inéditos e ao vivo de Nara Leão preenche uma lacuna

Ronaldo disse que tinha combinado com Maysa que, quando chegassem ao Brasil, era cada um para seu lado. Mas Maysa mandou dizer na imprensa brasileira que ia chegar com o noivo dela. Já no Brasil, tinham vários repórteres e ela deu o braço para ele e disse ‘é meu noivo’. Isso saiu na imprensa toda e a Nara ficou: ‘Não quero ver, não quero saber’. Ele pediu para eu entregar as alianças de noivado para Nara. Ela jogou no meio da rua. Com isso, ela disse: ‘Beto, vou sair da turma’. Nara sumiu.

Foi aí que ela descobriu, inclusive, os compositores do morro, Cartola, Zé Keti. Depois, se casou com o Cacá Diegues e viajou para a França. Então, tudo isso atrapalhou talvez a possibilidade de fazer uma coisa ao vivo, porque nós, nessa época, estávamos fazendo mil coisas ao vivo, e ela não estava com a gente.

Na França, ela resolveu fazer o disco Dez Anos Depois (1971). Eu já era diretor artístico da Polygram, peguei o disco dela, fiz os acabamentos no Rio, e ela voltou ao País e foi ser minha vizinha de porta. Ela disse: ‘Não quero ser cantora, estou estudando Filosofia novamente’. Até que, aos poucos, falei para fazermos um disco relembrando coisas nossas da época de garotos. Gravamos o disco Meu Primeiro Amor (1974). Com mais de dez anos de gravadora, eu disse que ela podia pedir um presente. Nara queria um disco de violão e voz. Acabamos gravando juntos Um Cantinho, Um Violão (1985). Esse disco foi lançado no Japão, e eles queriam que fizéssemos turnê do disco ali. Ela disse: ‘No Japão, eu toco’.

Depois, lançamos no Brasil mais ou menos no tempo em que descobrimos a doença dela. Os médicos deram 3 meses de vida. Ela viveu mais 4 anos, gravamos mais discos, e ela voltou a cantar em público, mas não com segurança de fazer uma gravação ao vivo.”

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