Roberto e Caetano cantam juntos no show da bossa nova

Dupla será a maior atração do megaprojeto, que inclui exposição na Oca do Ibirapuera, entre outros

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

05 de junho de 2008 | 16h07

Talvez esta seja a mais importante notícia da música popular brasileira neste ano. Após mais de 40 anos longe do universo da bossa nova, gênero para o qual ele inclusive ficou um pouco refratário, o cantor Roberto Carlos aceitou participar da festa de comemoração dos 50 anos do ritmo. Foi confirmada nesta quinta-feira, 5, pela produtora Monique Gardenberg, da Dueto Produções, que Roberto vai dividir o palco com Caetano Veloso para cantar um repertório em homenagem a Tom Jobim, nos dias 15 de agosto (Teatro Municipal do Rio de Janeiro) e dias 25 e 26 de agosto (Auditório do Ibirapuera, em São Paulo).   Nada mal para quem um dia foi considerado, pelos expoentes da MPB, como um simples "imitador de João Gilberto". No início da carreira, no final dos anos 1950, antes da Jovem Guarda, Roberto cantava como crooner da boate do Hotel Plaza, em Copacabana, no Rio. O repertório era de bossa nova. Fã de João Gilberto, ele chamou a atenção da corte do violonista, que o rejeitou peremptoriamente (como narra o escritor Paulo César Araujo no livro Roberto Carlos em Detalhes). Mas o próprio João Gilberto, ao ouvir falar que havia um "imitador" seu fazendo concertos na noite, resolveu ir conferir. E gostou bastante do que ouviu. Mas Roberto, pouco adiante, largaria a bossa definitivamente - até o seu primeiro disco, Louco por Você (1961), que tem gravações dessa fase, ele renega até hoje.   O show de Roberto Carlos e Caetano Veloso, um encontro inédito nessa dimensão (já cantaram juntos, mas uma ou outra música), integra a programação de um grande evento, o projeto ItaúBrasil, patrocinado pelo banco, que está colocando R$ 20 milhões no projeto. E haverá uma megaexposição instalada na Oca do Ibirapuera, no dia 7 de julho. Tudo para celebrar o cinqüentenário da bossa. Segundo Monique, o próprio empresário do cantor, Dody Sirena, não acreditava na chance de Roberto aceitar cantar outro repertório que não o seu próprio.   Surpreendente   No entanto, Monique disse que "foi surpreendente" a receptividade com que Roberto Carlos recebeu o convite, e não só aceitou como acabou recebendo com alegria todas as sugestões. O plano é que ele cante seis canções num set (tem dez para escolher, entre elas Por Causa de Você, de Dolores Duran, e Eu Sei Que Vou te Amar, de Tom e Vinicius). "Também estamos tentando que ele repita o momento Lígia, que gravou com Tom Jobim, agora com o neto de Tom, Daniel Jobim", afirmou ela. Em seguida, Roberto canta algumas canções com Caetano Veloso, que tem também um set só seu.   "É uma exceção extraordinária que ele (Roberto) abre e que valoriza o espetáculo", disse um dos curadores musicais da mostra, Zuza Homem de Melo. "Caetano e Roberto Carlos cantando Tom Jobim, esse triângulo jamais poderá ser repetido, previu Melo. O show terá direção geral de Monique e Felipe Hirsch, cenografia de Daniela Thomas e direção musical de Jaques Morelembaum.   A programação é extensa e inclui o retorno de João Gilberto aos palcos brasileiros. Ele toca nos dias 14 e 15 de agosto no Auditório do Ibirapuera, no dia 24 no Teatro Municipal do Rio e no dia 5 de setembro volta a tocar num lugar aonde não cantava há anos, Salvador (canta no Teatro Castro Alves). João Donato, outro homenageado, vai cantar com direção e arranjos de Mário Adnet e acompanhamento da Orquestra Ouro Negro. Há ainda shows de Miúcha e os Cariocas, Adriana Calcanhotto, Bebel Gilberto, Fernanda Takai, Marcelo Camelo, Marcelo D2, Roberta Sá e outros.   A megaexposição na Oca do Ibirapuera deverá fazer história, pelo que apresenta de alta tecnologia de exibição. Haverá um show virtual de Nara Leão, Tom Jobim, Vinicius, Frank Sinatra, Stan Getz e outros, uma apresentação com a tecnologia Eyeliner (a mesma que é utilizada nos shows da banda-cartum Gorillaz). Um dos andares do edifício terá uma câmara anecóica, um aparato científico que simula um ambiente de total silêncio. Segundo o curador, Carlos Nader (que projetou a mostra junto com Marcello Dantas), será possível ao espectador ouvir coisas como o bater do próprio coração e o ranger de ossos.   O espectador também terá à disposição ambientes futuristas no qual, com um simples toque de mão no ar, poderá acessar dados e músicas sobre a bossa nova, como na antevisão do filme Minority Report, de Spielberg.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.