Roberto Carlos toca piano no seu "Acústico MTV"

São 22 horas de quarta-feira no Pólo de Cine e Vídeo da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Uma fila de cerca de cem pessoas aglutina-se em frente ao portão - em frente ao portão? - do estúdio onde Roberto Carlos vai gravar o seu especial Acústico MTV."Ele mandou buscar a gente", revela a piauiense Rosalvi da Costa e Silva, logo no começo da fila, ao lado da filha Juliana. "Minha filha é afilhada dele", diz. Rosalvi conta que conheceu Roberto Carlos há 23 anos, dentro de um avião entre Brasília e Teresina. Sua filha tinha 3 meses e sofria de glaucoma. "Eu o procurei para perguntar como ele estava resolvendo o problema do filho dele, que sofria do mesmo mal." Desde então, ela é uma das raras amigas próximas do cantor.Um pouco atrás de Rosalvi, estão Ciro Gomes e Patrícia Pillar. Logo além, Myriam Rios, Malu Mader, Marisa Monte, Cássia Eller, Canisso dos Raimundos. "Eu sou da geração que ouve Roberto Carlos desde criança", diz Samuel Rosa, do Skank. Mas Roberto põe os amigos na frente. O portão finalmente é aberto. Os seguranças revistam Ciro Gomes em busca de alguma câmera escondida.Mas foi só às 23h30, diante de uma platéia de cerca de 200 pessoas, que a VJ Marina Person anunciou o primeiro Acústico Real da emissora. Roberto Carlos entra, senta no banquinho e, sozinho ao violão, ataca Detalhes". Veste paletó azul com camiseta e calça jeans desbotada. "Que prazer rever vocês", afirma. E começa: "Não adianta nem tentar, me esquecer..."Quando canta "a noite envolvida...", afasta o cabelo do rosto com a mão e a voz falha. Entram orquestra de cordas, violões, baixo, piano e bateria. A platéia, reverente, não sabe até que ponto pode aplaudir e ovacionar.Detalhes, com o "Rei" ao violão após anos sem ser visto com o instrumento, não levantou a platéia, mas o número seguinte, As Curvas da Estrada de Santos, derrubou as barreiras. Os violonistas da banda do cantor, Aristeu Reis, Paulinho Galvão e Paulo Coelho, mais o baixo acústico de Fernandinho Souza e o tecladinho jovem guarda de Tutuca, simulando um órgão Hammond, causam furor.A platéia acompanha com palmas a batida irresistível e eterna de O Calhambeque. Roberto também já está mais solto. "Vocês me desculpem, mas agora vou-me embora", brinca. "Nem bem cheguei..." E, com a velha entonação, dá o "bye" final da canção.O pianista Antonio Wanderley, que acompanha o cantor há 35 anos, troca de lugar com o tecladista, Tutuca. Um vai ao piano e outro ao teclado e começa mais um clássico de Roberto, Parei na Contramão. O Acústico MTV já se configura como um raro momento na carreira do cantor. "Parte do repertório foi escolhida pela MTV e é centrado nos anos 60 e 70, época em que ele falava diretamente para os jovens", diz o diretor do especial, Rodrigo Carelli.Então começa o que talvez venha a ser o melhor momento do programa (talvez, porque Roberto é perfeccionista e gravaria tudo de novo na noite passada): Por Isso Eu Corro demais. Voz mais solta e melodiosa, Roberto encara mais como um show do que como uma gravação. Não quer parar nem um minuto, não aceita refazer nada."Samuel Rosa, dá uma chegadinha aqui", propõe o cantor. Samuel sobe ao palco e é o único vestido com algo preto, um casaco de couro, botas e jeans. Todos os músicos usam camisas num tom levemente azulado e roupas claras. O cenário, de Kiko Canepa, também é azul. "É hora de É Proibido Fumar". Mas Samuel não canta. "O Acústico MTV foi comedido nas participações especiais. Erasmo Carlos, velho parceiro, está fora do primeiro dia. Será que Roberto reservou algo para ele?Depois, Antonio Wanderley ao piano e Roberto Carlos de volta ao banquinho, entra Olha, numa versão de grande delicadeza. A seguir, entram bateria e baixo, violoncelo, violinos e um trompete-solo após o verso "e viver a vida só de amor". Oswaldo é o trompetista do cantor.Debaixo dos Caracóis vem em versão acelerada, com duas vocalistas de apoio, centrada em violão e bateria. O produtor do especial, Guto Graça Melo, faz sinal ao fundo para o cantor que algo não saiu direito, que é preciso recomeçar. Sem interromper a canção, Roberto diz com um movimento de lábios ao produtor: "Amanhã." Guto dá de ombros.O discurso pacifista de Todos Estão Surdos arranca aplausos entusiasmados da platéia. Como apoio, um coro de quatro rapazes que Guto Graça Melo trouxe de Jandira, em São Paulo. Os meninos, mais o órgão e os violões, dão um clima funk-gospel ao arranjo."Olha, eu não toco piano, faço alguns acordes que dão para compor e me atrevo a compor tocando piano", explica Roberto, antes de proporcionar um dos melhores momentos do espetáculo. Sozinho, ele toca Eu Te Amo Tanto, uma das duas canções do repertório dedicadas à mulher, Maria Rita, já morta. Ele toca apenas da metade para a extrema esquerda do instrumento com a delicadeza de um aluno de conservatório tocando O Bife. Termina com lágrimas nos olhos. "Por mais que tenha ensaiado, errei tudo, mas depois eu conserto", diz.E vem outra para Maria Rita, O Grude. O cantor assovia o refrão. Em Um Milhão de Amigos, ele não aprova o andamento da canção e pára tudo. "Vamos de novo, o andamento está um pouquinho lento", afirma. Tutuca conquista de vez a platéia com um solo de teclado em Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo. Depois, vem Além do Horizonte, com uma batida de bossa ao violão e coral de coro evangélico ao fundo, sobrepondo-se à batida.Ele demora para chamar Toni Belotto para tocar violão em É Preciso Saber Viver. Parece que se esqueceu do convidado. Com Emoções, a penúltima da noite, numa interpretação bluesy, começa a contagem regressiva - o solo agora é de Antonio Wanderley, que gostou da experiência de fazer um show acústico. "Não estranhei nada, achei tudo muito tranqüilo", disse Wanderley. Ao final, uma das exigências sempre presentes do cantor: uma canção religiosa. "Fiquei muito feliz que ele tivesse optado por Jesus Cristo, por que é a mais pop", diz o diretor do especial, Rodrigo Carelli. É a mais funk essa é a verdade. De novo com o coro e a marcação forte do baixo de Fernandinho Souza, a canção reaparece renovada."Esse disco eu dedico a Maria Rita", ele diz, como quem dá a tarefa por encerrada. E some nos bastidores. Já era 1 hora da madrugada de quinta-feira. Hoje à noite ele deve voltar ao palco para gravar a segunda parte do especial, previsto para ir ao ar na MTV em julho. Nada disso é certo ainda. Acústico MTV Roberto Carlos pode se tornar o grande recordista do gênero no Brasil, batendo o especial dos Titãs. O último disco de Roberto Carlos, Amor sem Limites, vendeu até agora 1,2 milhão de exemplares.

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